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rss  Vol. XVII - Nº 295         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 28 de Maio de 2020
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Editorial

O usurpador

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

Não consta que em França haja um Partido dos Franceses. Nem na Inglaterra, um Partidos dos Ingleses. Nem na América, dos Americanos. Nem em Portugal, dos Portugueses. Nem em Espanha, dos Espanhóis. Nem na Bélgica, dos Belgas. Nem no Brasil, dos Brasileiros. Por toda a parte, os partidos ou são republicanos, ou socialistas, ou democratas, ou liberais, ou conservadores, ou renovadores, ou progressistas, ou comunistas, ou ecologistas, ou, até, nacionalistas. Isto é, representam uma ideia, um projeto, uma via, uma filosofia à qual procuram arregimentar o maior número de apoiantes para levarem a cabo o seu projeto político. Em nenhum país democrático, jamais algum partido poderia ter a arrogância de usurpar o nome do país para os seus fins políticos, sem que não lhe caísse em cima o labéu de fascista. Porque nenhum partido, deveras democrático, pode, em caso algum, arrogar-se a pretensão de ser o único representante de todos os cidadãos.

Aqui, no Quebeque, para fazer diferente, temos a exceção. Temos o Partido Quebequense. «Le Parti Québécois». O partido que não só se assenhoreou do nome de todos os quebequenses, como se só eles fossem os legítimos procuradores de todo o povo do Quebeque, mas decidiram usurpar a história e os símbolos da nação para, ultimamente, alcançarem os seus fins políticos. Foram eles que fizeram da bandeira do Quebeque o estandarte do partido; foram eles que transformaram a festa do São João, o dia dos canadianos franceses de todo o Canadá, na festa nacional do Quebeque; foram eles que fizeram do dia da Rainha Victoria, primeiramente o Dia de Dollard, em homenagem a um falso herói da Nova França, Adam Dollard des Ormeaux, e agora o Dia dos Patriotas, usurpando, uma vez mais, o sentido da História, visto que a Guerra dos Patriotas de 1837 não foi somente uma iniciativa dos canadianos franceses, mas sim um movimento em que participaram igualmente canadianos ingleses, os primeiros liderados por Louis-Joseph Papineau, os segundos por James Stuart, ambos profundos adversários do poder colonial de Londres. Mas no relato hagiográfico dos nacionalistas quebequenses, só o papel dos canadianos franceses merece ser citado na longa lista do Martirológio Nacional.

Agora, em vez duma emenda à lei sobre os direitos da pessoa, ou, no máximo, uma carta sobre a laicidade, é este mesmo Parti Québécois que nos propõe uma Carta dos Valores Quebequenses, como se os quebequenses, o povo eleito entre todas as nações, tivesse valores distintos dos valores humanísticos que têm moldado toda a civilização ocidental, desde os séculos das luzes.

Pouca gente, nos tempos que correm, sobretudo face à subida do islamismo político que grassa por todo o mundo e se insinua inteligentemente nas sociedades ocidentais, pouca gente, dizíamos, se deve opor a que o estado seja laico. Isto é, que não tenha obediência, nem preferência por nenhuma religião e que todos os seus servidores – funcionários públicos – se abstenham de todo e qualquer proselitismo ou de algo que a isso se aparente. Mas quando, no dito projeto, vem mencionado que o crucifixo, pregado na Assembleia Nacional, sobre o trono do Presidente, faz parte da herança patrimonial, assim como os padres-nossos, antes das assembleias de algumas câmaras municipais, só se pode concluir uma coisa, que o projeto de laicidade foi transformado em projeto laico católico. Aliás, a menção aos símbolos religiosos, na dita carta, só se refere aos símbolos ostentatórios. Isto é, a quipá dos judeus, o turbante dos siques, o lenço na cabeça das muçulmanas são considerados ostentatórios, mas a cruz ao peito dos católicos, essa pode passar, porque não é ostensiva!

Outro mistério, de que só as oficinas da propaganda nacionalista têm o segredo, é a fórmula utilizada para que o crucifixo na Assembleia Nacional seja conservado. «Porque é um valor patrimonial». Como é que um crucifixo, que foi colocado em 1936, pelo primeiro-ministro Maurice Duplessis – aquele que se considerava filho espiritual de Salazar – num gesto altamente significativo de selar a vontade do Estado de se unir à Igreja Católica, pode ser considerado um valor patrimonial?

Todas estas interrogações só têm uma resposta. O fanatismo ideológico. Neste caso o nacionalismo que tanta miséria tem espalhado ao longo da História.

O grande escritor de língua castelhana, Mario Vargas Llosa, de nacionalidade peruana e prémio Nobel da Literatura, há dias, num discurso sobre o nacionalismo, em Espanha, no próprio Dia da Catalunha, pronunciou um discurso sobre o qual todos os nacionalistas deviam meditar:

«Salir de la tribu es el comienzo del progreso, de la civilización. El individuo que se aparta de la tribu adquiere independencia, soberanía y, gracias a eso, se favorece la democracia, los derechos humanos.

Pero el llamado de la tribu nunca desaparece y, en ciertas circunstancias difíciles, es muy fuerte.

El nacionalismo es el regreso a la tribu del que hablaba Karl Popper, esa abdicación de la responsabilidad, de la obligación de tener que vivir uno su propia vida y decidir en función de sus propias convicciones. El nacionalismo es una tara que solo se puede combatir con la cultura.

El nacionalismo es una carga de la que es muy difícil librarse, pero que hay que combatir con enorme energía si se quiere que haya civilización.»

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Não consta que em França haja um Partido dos Franceses. Nem na Inglaterra, um Partidos dos Ingleses. Nem na América, dos Americanos. Nem em Portugal, dos Portugueses. Nem em Espanha, dos Espanhóis. Nem na Bélgica, dos Belgas. Nem no Brasil, dos Brasileiros. Por toda a parte, os partidos ou são republicanos, ou socialistas, ou democratas, ou liberais, ou conservadores, ou renovadores, ou progressistas, ou comunistas, ou ecologistas, ou, até, nacionalistas.
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