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rss  Vol. XVII - Nº 295         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 03 de Dezembro de 2020
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Bilhete de Férias

Terceira Semana em Portugal

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

Com o recado que me tinha dado a minha médica do Sacré-Coeur – o de me oferecer muito repouso durante a minha estadia em Portugal porque uma recaída duma pneumonia, ao que parece, não é coisa para brincar – a televisão, que raramente vejo quando lá vou, foi para mim, desta vez, um centro de curiosidade, particularmente na semana que passei em casa da minha irmã, tanto mais apreciado quanto tinha a meu lado o meu cunhado que me servia de intérprete às discussões que por lá passavam, a toda a hora, mas sobretudo a altas horas, e para as quais eu me sentia deveras estrangeiro. Lá que se debate, debate-se. Mas pergunto-me quem é que pode estar, muitas vezes depois da meia-noite, a assistir a um debate televisivo, mesmo com algum calibre. Aquela gente no dia seguinte não vai trabalhar? Ou o auditório visado é só para reformados com problemas de insónias…

É verdade que o povo português está cada vez mais notívago. Aquela gente raramente acaba de jantar antes das dez da noite e depois ainda sai para ir à bica (ao cafezinho como se diz agora). Crianças, em idade escolar, que vão para a cama à meia-noite, quando não mais tarde, são mais que as mães. Devo estar mesmo muito norte-americanizado para me surpreender com estes usos e costumes.

A culpa deve ser do clima daquele jardim à beira-mar plantado. No verão, às 9 ainda é dia e os resquícios do sol nas peles tisnadas pela praia e nos olhos ainda encadeados pela luz do poente, convidam à rua, ao dolce far niente duma esplanada, da cavaqueira com amigos, bisbilhotices com amigas, para esquecer as misérias do dia-a-dia, a pressão do trabalho, as ameaças do patrão, os ralhos da casa.

É o país dos brandos costumes e das grandes crises políticas.

Falando de crise, a crise que todos os portugueses trazem na boca, que ninguém compreende e de que todos sofrem, ao ponto de muitos passarem fome, é para mim um grande mistério também, não propriamente as causas da dita cuja, mas a reação pusilânime de todas as suas vitimas e até dos que se dizem solidários.

As causas devem ser várias. Uns dirão que o mal está na incompetência dos «betinhos das jotas» – entenda-se, os profissionais políticos que fizeram carreira no interior dos grupos de juventudes partidárias, sem nunca terem dado provas de outra competência que não a de fidelidade ao partido e ao seu ego desmesurado, e de cujo alfobre têm saído, nos últimos anos, os primeiros-ministros, ministros, secretários de estado e toda a corja de vampiros que tem sugado Portugal, mais guiados pela sede do poder e pela ganância dos ganhos fáceis que o de servir o país e os portugueses. O escândalo da incompetência e da venial ambição de alguns deles vai ao ponto de não se coibirem de se apresentarem com diplomas de universidades de vão-de-escada, ou até mesmo comprados na Internet!

Outros dirão que o mal está nas velhas elites que sempre desprezaram o povo e que tudo têm feito para o manter na ignorância, deitando a mão a poderosos meios de comunicação, como a televisão e os jornais, dando ao pasto popular emissões infantilizantes e artigos de populismo barato onde se desconfia do intelectual e se mina a reputação do político honesto (sim, também existe), e do qual resulta uma carência manifesta de elites aptas a afrontarem o poder do dinheiro e assumirem a liderança do país, como estadistas capazes de governarem à altura das aspirações do povo e das responsabilidades históricas do país.

Ainda há quem diga que o mal foi importado, primeiro pela entrada na zona do Euro, segundo pelo novo modelo ultraliberal que pôs o poder real nas mãos dos banqueiros.

As causas devem ser múltiplas, mas, como se costuma dizer, cada povo tem o governo que merece, e o povo português, quer pelo seu analfabetismo literário (um milhão de portugueses, com mais de 15 anos, ou seja, dez por cento da população, não tem qualquer nível de escolaridade), quer pelo seu analfabetismo político (quase cinquenta por cento não votam), ou seja pela real existência dos brandos costumes que leva o bom português a aceitar como inevitável o que lhe cai em cima – é o fado – a verdade é que o português sofre mas cala-se. É a pobreza envergonhada personificada. A léguas dos revoltosos da Espanha vizinha. Tão perto e tão longe dos castelhanos.

Para parodiar um político português (Silva Carvalho), apetece-me dizer que aquele país é um país silly governado por pessoas silly.

www.ionline.pt

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Com o recado que me tinha dado a minha médica do Sacré-Coeur – o de me oferecer muito repouso durante a minha estadia em Portugal porque uma recaída duma pneumonia, ao que parece, não é coisa para brincar – a televisão, que raramente vejo quando lá vou, foi para mim, desta vez, um centro de curiosidade, particularmente na semana que passei em casa da minha irmã, tanto mais apreciado quanto tinha a meu lado o meu cunhado que me servia de intérprete às discussões que por lá passavam, a toda a hora, mas sobretudo a altas horas, e para as quais eu me sentia deveras estrangeiro.
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