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rss  Vol. XVII - Nº 294         Montreal, QC, Canadá - domingo, 13 de Outubro de 2019
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Sylvia Amélia Carneiro da Cunha, a Cadeira 26

– O Último Canto –

Lélia Pereira da Silva Nunes

Por Lélia Pereira da Silva Nunes, socióloga e escritora

Chamava a atenção a elegância discreta e impecável. Trajava um tayer de risca de giz cinza, camisa de seda rosa, um colar de pérolas delicadas arrematava o visual. Mulher pequena, sorriso franco, suave. No brilho do olhar, a perspicácia e grande determinação. Muito logo percebi que de pequena ela não tinha nada. Era gigante no saber e no caráter firme. Era pródiga nos afetos, na simpatia, na gentileza, na delicadeza de atitudes.

Maio de 1990, acabara de ingressar no Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, quando Vitor Antonio Peluso Junior, então presidente do IHGSC, apresentou-me à Sylvia Amélia Carneiro da Cunha. Ela era Tesoureira da instituição desde 1977. Função que exerceu por mais de 20 anos até assumir a de Presidente do Conselho Fiscal, personificando com tanta fidelidade o paradigma de exemplar, contribuindo com a sua sabedoria e descortino de pareceres irretocáveis, quer técnicos, quer jurídicos, no quotidiano da Casa de José Boiteux.

Grata evocar a prazerosa convivência no IHGSC onde senti o influxo de seu coração tão ilhéu mesmo não tendo aqui nascido. Lembrar com saudade a figura ímpar dessa dama da cultura catarinense, historiadora, professora, escritora, mulher de propósitos transparentes e dedicação sem limites no trabalho e nas instituições culturais a que pertenceu.

Poderia continuar neste registro de sua biografia, citando sua formação acadêmica em Letras Neolatinas, Jornalismo, Técnica de Administração e Direito ou seu ingresso na Cadeira 26 da Academia Catarinense de Letras e o valioso percurso literário referenciado em quase uma dezena de obras, ensaios, artigos, reportagens, comentários políticos, crônicas e poemas publicados na imprensa, suplementos literários e antologias de circulação nacional saídas de sua competente e expressiva lavra. Puxar ainda pela tecla da memória e falar de sua passagem no Jornal A Gazeta de Florianópolis onde assinava as colunas Notícias Culturais e Um por Semana, da sua atuação como Presidente do Conselho Estadual de Cultura nos anos oitenta.

Mas qual nada! Revisitei a colega de sodalício, a neta do Governador Gustavo Richard com quem muito aprendi sobre a ousada administração deste ilustre catarinense responsável pelo primeiro abastecimento de água em Florianópolis e, finalmente, fui atrás da mulher escritora que traz a alma no olhar e me enterneci com sua poesia como o afago lânguido do Vento Sul que chega sibilante por mares da Ilha e de Florianópolis que ela tanto amou.

A 8 de março de 1998, Sylvia Amélia recebeu da Prefeitura de Florianópolis o diploma de mérito Mulheres com Arte, destaque na Literatura. Uma singela e justa homenagem a quem honra Santa Catarina com seu valioso labor literário.

Uma arte de poetar segura, anímica, plena de sentimentos, de humanização. Poemas que falam de encontros, de partidas, do mar e de cenários telúricos de sua Florianópolis cantada em «Despedida».

No seu «O último Canto» encontrei o adeus da mulher Sylvia Amélia e que agora referencio: «Não lamento o que não consegui ser/Neste longo tempo vivido./Não reclamo do que não pude ter/nem de promessas não cumpridas./Venho sim,/nesta sobra de vida,/relembrar sonhos,/esperanças/e a fé que nunca me abandonou. […] »

A Cadeira 26 da Academia Catarinense de Letras ocupada por Sylvia Amélia, desde 1966, foi declarada vaga em setembro de 2012, meses após o seu falecimento. No último dia 26 de agosto tive a honra de ser eleita, pelos ilustres acadêmicos da Casa de José Boiteux, para ocupar a Cadeira 26, uma distinção que me engrandece e me enche de orgulho.

Crónica
Chamava a atenção a elegância discreta e impecável. Trajava um tayer de risca de giz cinza, camisa de seda rosa, um colar de pérolas delicadas arrematava o visual. Mulher pequena, sorriso franco, suave. No brilho do olhar, a perspicácia e grande determinação.
Sylvia Amelia Carneiro da Cunha - Copia.doc
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