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rss  Vol. XVII - Nº 294         Montreal, QC, Canadá - sábado, 24 de Agosto de 2019
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«Les Stastny», bestseller de Robert Laflamme

Um bom livro do hóquei, «com rosto humano»

(Segundo de dois artigos)

Jules Nadeau

Por Jules Nadeau

O livro sobre a saga dos três irmãos Stastny dirige-se a todos os apaixonados do hóquei que seguiram as suas peripécias na Liga Nacional. Além disso, há revelações esperadas desde há 30 anos. Um texto habilidosamente estruturado pelo jornalista Robert Laflamme, insistindo tanto sobre o desporto no gelo que sobre o aspeto humano do célebre trio dos Nordiques. Um bestseller cujas vendas se aproximaram dos 10 000 exemplares.

A realização e a inspiração do livro residem na pessoa de Gilles Léger que arquitetou este grande golpe mediático há 30 anos. Tendo sido o principal «engenheiro» da deserção de Peter e Anton Stastny em 1980, ele fez imediatamente garantir por escrito os «direitos exclusivos» da história. Depois, em 2009, ofereceu o contrato a Robert Laflamme, já considerado um mestre em matéria de hóquei. Em seguida foram três anos de trabalho árduo para conter tudo num livro. «Encontrei-me com o autor uma boa dúzia de vezes em entrevista», confia-me Marion Stastny para explicar o volume de trabalho fornecido. «Muito boa colaboração da sua parte», acrescenta o repórter ao serviço da Presse Canadienne desde 1989.

Um drama shakespeariano

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O jornalista Robert Laflamme dedicou três anos da sua vida à redação deste livro sobre os irmãos Stastny. Marian pensa que o autor fez um bom trabalho. Anton conta que encontrou no livro muitas coisas que não sabia. Um bestseller.

Um drama shakespeariano! Entre os três irmãos passou-se um drama cujos prós e contras são fáceis de compreender. Peter e Anton decidiram desertar em direção do Quebeque sem nada dizerem ao irmão mais velho Marian. Os dois celibatários acharam que este último não podia partir facilmente da Checoslováquia porque era casado e tinha três filhos. Como é a prática nos estados policiais, Marian e a família sofreram imediatamente represálias das autoridades comunistas. Porém, dez meses mais tarde, depois de muitas tribulações dignas de James Bond – mais arriscadas que no primeiro caso – Marian conseguiu por sua vez partir de Bratislava para o Quebeque. Com a mulher e os filhos.

Adivinha-se o resto. O encontro em Mirabel e em Quebeque foi frio. Marian recebeu deles uma boa soma de dinheiro (montante desconhecido) para lubrificar a sua partida. Mas como podia ele aceitar a falta de confiança dos irmãos mais novos? Eles tinham-no, nem mais nem menos, abandonado à sua sorte em Bratislava. O fim abruto da sua carreira de vedeta do ringue. Impossível de trabalhar como advogado. Por outro lado, grande dilema era possível a Marian de guardar eternamente rancor aos irmãos? Resumindo, uma tragédia shakespeariana.

As especulações continuaram abundantes sobre as relações entre eles, num sentido como no outro. Perdoar e esquecer? Perdoar sem esquecer? Robert Laflamme documentou muito bem o dilema dos dois lados, segundo os seus próprios termos, no «respeito dos indivíduos». O leitor é livre de fazer a sua própria ideia. O tempo, espera-se, acaba por arranjar tudo.

«Socialismo com rosto humano»

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O hotel de estilo barroco de Marian Stastny surpreende pelo seu parentesco com monumentos da sua cidade natal. A velha porta de Bratislava, com o seu relógio (Michalsa brana), continua a ser um dos mais belos tesouros arquiteturais. A torre possui o Arcanjo São Miguel m

Uma parte do livro mete em foco a personalidade pouco conhecida e as façanhas do recrutador Gilles Léger. «Golpe de génio!» Em 1982, em plena Guerra-fria, querer fazer passar atletas da Europa de Leste para o Oeste era uma ideia louca. Pior ainda, os Stastny eram «camaradas» muito visíveis no outro lado da Cortina de Ferro. Depois, fazê-los passar do hóquei europeu ao da Liga Nacional. Pouco importa, o «Columbo» de Cornwall tinha constância nas ideias para se lançar numa tal empresa.

Os adeptos dos Bleus e dos Tricolores, garantem-me, lembram-se do entusiasmo levantado pelos três jogadores no ringue. Infelizmente, os números 18, 20 e 26 não jogaram juntos senão quatro épocas. Marian feriu-se em fevereiro de 1983. Em seguida, passou a vestir o uniforme do Maple Leaf de Toronto.

Os que visitaram cidades do Bloco de Leste como Moscovo, Budapeste e Berlim-Este compreendem os perigos que corriam os que queriam confundir a polícia destas ditaduras. Berlim-Este pareceu-me lúgubre e assustadora em 1964, sobretudo quando se chegava da extravagante Berlim-Oeste capitalista. Alexandre Dubcek bem tentou dar um «socialismo com rosto humano» à Checoslováquia, mas os Soviéticos trouxeram brutalmente este país satélite de volta à ortodoxia (como a Hungria em 1956).

Um Marian magnânimo

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Na companhia de Marian Stastny, no seu hotel em Lévis, Annick Nadeau (que vive em Denver, Colorado) rapidamente fez a ligação entre esta ex-vedeta dos Nordiques e o seu sobrinho Paul Stastny, assim como com Pierre-Alexandre Parenteau, que jogam ambos no Avalanche do Colorado.

Os amadores de romances policiais vão-se deleitar ao lerem os pormenores da deserção de Peter e Anton segundo Gilles Léger. No que diz respeito a Marion, Eva e os três filhos, foi um golpe genial ainda mais espetacular. Graças ao chefe da família. Várias excursões à Hungria para confundir as pistas. Fabricação de documentos falsos. Longo desvio tático de mil quilómetros pela Hungria e a Jugoslávia, de Bratislava até Viena (portanto distantes de apenas 80 km). Sem ajuda do exterior!

Publicado o ano passado nas edições Hurtubise, o livro de 417 páginas (abundantemente ilustrado como se deve uma obra deste género), foi lançado em Quebeque na presença do septuagenário Gilles Léger, de Anton e de Marian. Ao telefone, este último assegura-me (sempre em voz baixa) que ele leu tudo, exatamente como ele tinha examinado certas partes do manuscrito. A sua reação? Só felicitações para Laflamme. «Ele saiu-se muito bem». Magnânimo, «gosto dos meus irmãos», acrescenta como para fechar o dossiê de agosto de 1980.

Por causa dos três longos anos de pesquisa e de redação, Robert Laflamme declarou que era o «seu primeiro e o seu último». Esperemos que não! Ele confessa que gostava de repetir mas com um livro mais «leve» (sem jogo de palavras). «Talvez um romance para jovens baseado num facto verídico», deixa escapar o homem de Sainte-Agathe-de-Lotbinière. Com 48 anos, o jovem autor tem o tempo todo para «repor o trabalho no tear». A menos que não seja em breve arrastado para um cenário intitulado: Stastny, le film.

Reportagem
O livro sobre a saga dos três irmãos Stastny dirige-se a todos os apaixonados do hóquei que seguiram as suas peripécias na Liga Nacional. Além disso, há revelações esperadas desde há 30 anos.
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