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rss  Vol. XVII - Nº 294         Montreal, QC, Canadá - sábado, 24 de Agosto de 2019
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Editorial

A Carta dos Valores

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

Gato escondido com o rabo de fora. É assim que se revela a estratégica do Parti Québécois (PQ) em relação às próximas eleições.

Considerando que não conseguiram obter os votos necessários para governarem como maioria, considerando todas as gafes que marcaram o exercício de todo o primeiro ano de governo e considerando o mau estado da economia da província, os estrategas do PQ, liderados pelo maquiavélico Jean-François Lisée, resolveram adotar uma política populista, digna da extrema-direita francesa à Le Pen, para fazer esquecer a incompetência do governo e titilar a fibra nacionalista do eleitorado francófono fora das grandes cidades, à semelhança da estratégia concludente que tinha adotado a Action démocratique du Québec (ADQ) em 2007.

Nas eleições daquele ano, a extinta formação política de Mario Dumont, a ADQ (agora fusionada com o partido de François Legault, Coalition Avenir Québec), conseguiu destronar o PQ como oposição oficial, deitando mão à mesma artimanha da presente carta, apelando à fibra xenófoba de uma certa franja do eleitorado quebequense. Sob o pretexto que as minorias imigrantes, principalmente de religião muçulmana, judaica e sique, querem impor os seus usos e costumes religiosos aos quebequenses, Mario Dumont, durante a campanha eleitoral advogava que os imigrantes deviam assimilar-se ou voltar para donde tinham vindo, sem sequer se deter que muitos não tinham para onde voltar porque já aqui nasceram.

Consciente do sucesso desta estratégia da ADQ, o PQ resolveu montar na mesma mula, mas indo ainda mais longe, criando uma «Carta dos Valores Quebequenses» em vez duma carta da laicidade, com a qual todos os partidos e a maioria da população estão de acordo.

Só que os cálculos dos finos estrategas pequistas começam a dar sinais de fraqueza segundo o que dizem as sondagens vindas a público no início desta semana. Em agosto, quando os pequistas começaram a lançar os balões de ensaio para avaliar a adesão popular, as sondagens davam conta duma adesão ao projeto da «Carta dos Valores Quebequenses» na ordem dos 57 por cento. Nas sondagens do Jornal de Montreal, de segunda-feira, os apoiantes tinham baixado para 43 por cento, em quase igualdade com os opositores que se manifestaram em 42 por cento dos casos.

A estratégia, não obstante os protestos de virgens ofendidas que nos saem a público pela boca dos seus porta-vozes, é fácil de entender. O movimento separatista que se consubstanciou no Parti Québécois é uma ideia romântica nascida nos meados do século passado e inspirada nos movimentos de libertação colonial que deram origem às independências na África, na Ásia e no Médio Oriente. O nacionalismo canadiano francês, por outro lado, é praticamente tão antigo como o Canadá. No imaginário do canadiano francês sempre se cultivou a ideia de retaliação contra os franceses que os abandonaram – donde os «maudits français» com que ainda são designados os imigrantes vindo da antiga mãe-pátria – e contra os ingleses que os venceram nas «Plaines d’Abraham». Ora o que acontece é que o Quebeque não é um país colonizado. É um estado dentro de uma federação, como tantos outros estados e tantas outras federações pelo mundo fora, mas porventura com mais autonomia que nunca tiveram as regiões autónomas de Portugal, da Espanha, da Alemanha ou da Índia, quiçá comparável aos cantões suíços.

Não obstante dois referendos perdidos, os militantes independentistas continuam a sonhar com um estatuto de país independente para o Quebeque e a lutar por isso. Dir-se-ia, no entanto, que este foi o sonho de uma geração, a geração dos baby-boomers, dos «soissantuitards», que se vai definhando até desaparecerem nas páginas obituárias. Com a chegada massiva de novos imigrantes, demografia oblige, todos eles escolhidos por funcionários do governo do Quebeque junto das embaixadas canadianas pelo mundo fora, aliado ao desinteresse, para não dizer o enfado, dos jovens quebequenses, ligados ao mundo moderno pelas viagens, mas principalmente pela Internet, a ideia da independência, tão ardentemente defendida por tudo quanto era artistas, cineastas engagés, cantores, quais menestréis em missão de boa nova, por jornalistas mais fiéis às suas convicções nacionalistas que às suas obrigações deontológicas, por poetas e escritores que raramente escreveram para fora do clã, por historiadores mais concentrados na propaganda escolar que na verdade histórica, a ideia da independência, dizíamos, vai-se esmorecendo como o sol de verão em setembro.

E, como diz o ditado, «em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão», o movimento separatista tem vindo a ser profundamente dividido entre as mais diversas fações, desde o partido «Québec Solidaire», votado à independência mas com uma conotação feminista e marxista, ao mais recente da «Option Nationale», presentemente à procura dum chefe, sem deixar de mencionar uma pletora de formações votadas ao mesmo fito, que vão nascendo e morrendo como se pode confirmar pela lista, não exaustiva, na página da Wikipédia dedicada ao movimento soberanista do Quebeque: fr.wikipedia.org

Resultado, o núcleo à volta do que resta do Parti Québécois, fundado por René Lévesque e agora dirigido pela primeira-ministra Pauline Marois, vendo-se na impossibilidade aritmética de alcançar a maioria de votos que lhe permitam governar com vistas a um novo referêndum pela independência do Quebeque, resolveu cozinhar nas oficinas secretas do partido um menu capaz de aliciar os paladares do maior número de votantes. Em democracia é o que todos os partidos fazem. Só que o PQ, que até há bem pouco era o arauto das grandes causas de solidariedade, da liberdade, do humanismo, sempre pronto a vilipendiar o capital e o governo federal como insensíveis às misérias dos mais desprotegidos da sociedade, agora não tem pejo de lançar mão do populismo, de que outrora acusavam a ADQ, para alcançar os seus objetivos políticos. Alain Dubuc, um cronista geralmente moderado, na sua crónica no jornal La Presse do dia 13 de setembro, sob o título «Pacto com o Diabo», foi ao ponto de escrever: «Et c'est ainsi que le Parti Québécois, sous la direction de Pauline Marois, qui, dans ce dossier, s'est révélée être une femme sans jugement et sans principes, est en train de trahir toute sa tradition d'ouverture, de tolérance, de modernité.»

Raramente se têm ouvido e lido tantas e tão acerbas críticas a este projeto. Mas o clamor já saiu das fronteiras do Quebeque. Mesmo o New York Times se pronunciou negativamente sobre a matéria. Claro que o resto do Canadá também não se tem coibido, pelos seus comentadores e editorialistas, de se pronunciar sobre a carta dos valores quebequenses. Já o governo federal, dirigido pelo conservador Stephen Harper, parece mais decidido a usar uma certa reserva para não acerbar as quezílias com o governo independentista. Mas, tanto Justin Trudeau, líder do Partido Liberal do Canadá (PLC), como Thomas Mulcair, líder do Novo Partido Democrático do Canadá (NPD), vieram a terreiro para combater frontalmente o projeto pequista. O chefe do NPD, na passada terça-feira foi ao ponto de classificar o projeto do governo do Quebeque como «um documento sem envergadura, altamente partidário e centrado na provocação […] Não há nenhum problema real que corresponda às preocupações da carta. É um documento que visa apenas uma clientela política». E avançou ainda, na conferência de imprensa que deu em Otava – «Existe uma discriminação sistémica na função pública quebequense em relação às minorias culturais. Com esta carta é de uma discriminação encomendada diretamente pelo estado. É inadmissível!»

Claro que a expulsão da deputada Maria Mourani do seio do Bloc Québécois, que confirmou não ser mais que uma sucursal do Parti Québécois no parlamento federal, por motivo desta ter criticado publicamente a carta pelos seus objetivos eleitoralistas e xenófobos, veio trazer mais água ao moinho dos que são contra e levou, seguramente, muitos dos antigos adeptos a refletir sobre as verdadeiras intenções do PQ e a explicar, em boa parte, a viragem registada na opinião pública.

Como se tal não bastasse, a classe artística que sempre viveu das benesses do poder, e que em geral sempre esteve pronta a sair a terreiro para defender «a causa» do PQ, tem-se mostrado extremamente silenciosa, com algumas tonitruantes exceções como a de Dan Bigras, Richard Desjardins ou Michel Rivard.

O que também não deixa de ser sintomático é que os próprios ministros de Mme. Marois deixaram o ministro da propaganda da dita cuja, Bernard Drainville, sozinho na peleja. Até o ministro da Justiça, a quem em última análise devia incumbir a proclamação do documento jurídico, tem brilhado pela sua ausência no debate público.

Por este caminho, o objetivo eleitoralista da citada carta, começa a ter mais ares dum rocinante quixotesco que dum corcel aguerrido.

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