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rss  Vol. XVII - Nº 294         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 13 de Novembro de 2019
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Pedra de Toque

Brasil, Pátria Minha

Lélia Pereira da Silva Nunes

Por Lélia Pereira da Silva Nunes

«Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:

Não sei. De fato, não sei

Como, por que e quando a minha pátria

Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água

Que elaboram e liquefazem a minha mágoa

Em longas lágrimas amargas»

Vinicius de Moraes

Em breve mudo de idade. Isso mesmo, dia 18 de setembro é meu aniversário e da minha irmã Célia. Há sessenta e sete anos, quando a Assembleia Constituinte aprovava a nova Carta Constitucional e o país celebrava a restauração da democracia no Brasil, o avanço das liberdades individuais, eu chegava neste mundo – mulher, brasileira e cidadã com todos os direitos e deveres que aquela Lei Maior recém-nascida me outorgava. Passei de feto à filha da Pátria.

Uma Pátria que nasceu na tarde de 7 de setembro de 1822, às margens do riacho Ipiranga, nos arredores de São Paulo, no momento que o príncipe Dom Pedro bradou: «Independência ou Morte!» Ao grito da liberdade seguiu-se o juramento solene feito com a espada em riste, perante a guarda de honra, numa atitude de rutura de laços com Portugal: – Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, juro fazer a liberdade do Brasil. A proclamação de D. Pedro descrita pelo coronel Manuel Marcondes de Oliveira Melo, subcomandante da guarda de honra, descendente do açoriano António Marcondes do Amaral, da freguesia da Achadinha, Ilha de São Miguel, marca o começo da história do Brasil como nação independente e soberana. Começava ali a construção de um país envolvido num ideário imagístico e belo.

Olho para trás e lá se foram 191 anos de distanciamento do tempo, desde a ensolarada tarde de 7 de setembro. Parece impossível que o sonho vingou, que triunfou o projeto de construção de um Brasil que, em 1822, se desenhava improváveis dadas as suas fragilidades sociais, culturais e económicas que agigantavam seus problemas ante a imensidão territorial e a insustentável pobreza de seu povo. Ainda, assim, menor que seus sonhos não poderia ser e não foi. Sem sombra de dúvida, «o Brasil de hoje deve sua existência à capacidade de vencer obstáculos que pareciam insuperáveis em 1822», afirmou o escritor Laurentino Gomes no livro «1822» (2010:18). Foi no passado que começou a serem forjadas as qualidades e as deficiências que, no presente, vivificam no País e em cada cidadão.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem/ Uma quentura, um querer bem, um bem/Um libertas quase será tamem/ Que um dia traduzi num exame escrito: «Liberta que serás também»/E repito!

Nunca paramos para pensar a Pátria que surgiu da terra desvirginada da Ilha de Vera Cruz e que resplandece a cada 7 de setembro.

Um País tropical, terra de contrastes, de dimensões continentais onde vive uma população, cerca de 194 milhões de habitantes, mal distribuídos em dois brasis, ou melhor, em vários brasis. Uma nação multicultural que faz da diversidade a sua marca. Na sua gigantesca territorialidade, o Brasil abraça em seu seio gentil o sentimento uno de brasilidade que o identifica. Uma língua expressa na sonoridade colorida dos inúmeros sotaques regionais – a língua portuguesa que floresceu e enriquece-nos, que é património cultural nacional, que responde pela unidade do Brasil Continental.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta / Lábaro não; a minha pátria é desolação / De caminhos, a minha pátria é terra sedenta / E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular / Que bebe nuvem, come terra / E urina mar.

Há um longo caminho a ser percorrido até que o país alcance os níveis de crescimento ideais, a partir de um governo ético, competente e eficiente e um Congresso que atue compromissado com o desenvolvimento pleno de todas as potencialidades dos cidadãos, presentes e futuras.

Percebo, maravilhada, que alguma coisa já começa a mudar na cultura do País, ao romper o velho paradigma da impunidade, no recente julgamento do propalado processo do «Mensalão».

Gosto muito de sentir este Brasil, Pátria minha, como uma Casa Grande que se fez alma: a alma brasileira. Ela está edificada por todo o país, nos municípios, estados e regiões. É a «Casa-Grande & Senzala» de Gilberto Freyre; a casa de engenho de José Lins do Rego; a casa solarenga de Jorge Amado; a casa de «Os Sertões» de Euclides da Cunha; a velha Casa da Ponte de Cora Coralina, na antiga Goiás; a casa grande do bandeirante, a sede das fazendas de café, do interior fluminense e paulista, presença na obra de Machado de Assis, Fagundes Varella, Monteiro Lobato; o casarão mineiro, de Itabira, de Carlos Drummond de Andrade, o sobrado do «Tempo e o Vento» de Érico Veríssimo, na pampa gaúcho; o rancho do pescador de Othon d´Eça, de Santa Catarina. É também a casa de palafita-açaizal do estuário do Amazonas, os alagados de Salvador, a favela, o mocambo, a maloca, o cortiço, a tapera, o barraco. É o Brasil arquipélago, centenas de ilhas espalhadas pelo vasto território, milhões de caras, gente que a vida ensinou a levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.

Um povo que tem o direito de viver com dignidade e de ser feliz no seu País.

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa/ Que brinca em teus cabelos e te alisa/Pátria minha, e perfuma o teu chão.../ Que vontade de adormecer-me/ Entre teus doces

montes, pátria minha/ Atento à fome em tuas entranhas/ E ao batuque em teu coração.

Brasil, Pátria minha!

Nota: Artigo construído sob a inspiração do poema Pátria Minha de Vinicius de Moraes (1913-1980). Saiu pela primeira vez, em 1949, numa edição feita por João Cabral de Melo Neto em Barcelona, sob o selo «O livro inconsútil».

Crónica
«Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Brasil Patria Minha.doc .Reduzido.doc
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