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rss  Vol. XVII - Nº 294         Montreal, QC, Canadá - domingo, 13 de Outubro de 2019
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Bilhete de férias

Segunda semana em Portugal

Onde se fala de SCUTS

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

Como vinha com a recomendação de bem me repousar por causa da pneumonia que apanhei uma semana antes de partir, evitei andar em grandes passeatas, o que não obstou a que visitasse a minha irmã, nos arredores do Entroncamento. Acabei por lá passar quase uma semana, por causa do susto de uma recaída que me levou ao hospital da Misericórdia de Torres Novas. Afinal foi um falso alarme mas foi uma experiência original. Fui bem recebido, tanto pelo pessoal da admissão como pelo próprio médico. Não estava habituado àquela familiaridade, aquela solicitude, quase conivente, das pequenas cidades de província. Enquanto esperava, a rececionista de vez em quando lançava-me um «senhor Carlos, já não demora muito», como se fossemos conhecidos de longa data. Mas nada de intrusivo naquele «senhor Carlos». O médico, um homem perto da idade da reforma, não me achou nada – «a menos que eu esteja surdo» – disse-me ele, humoradamente, depois da auscultação. Mas pelo sim pelo não, sempre me mandou tirar uma radiografia, o que voltou a confirmar o seu diagnóstico e a acalmar as minhas apreensões.

O problema foi para me passar uma receita dum xarope para a tosse. Como não sou residente do país, o sistema informático recusou-se a aceitar a requisição do médico e este acabou por fazê-la à mão o que me valeu um longo e sentido desabafo da sua parte. «Isto é um país de tarefeiros. Você é que tem sorte de viver lá fora». E lançou-se numa diatribe contra o governo, os partidos políticos, a corrupção, o deixa andar, a mentalidade portuguesa, a pusilanimidade do povo e tudo quanto lhe ocorria, como alguém que há muito tinha vontade de desabafar, mas que não tinha com quem, porque todos, à sua volta, teriam os mesmos queixumes a fazer.

Como que a confirmar o que havia de verdade neste desabafo, vale a pena contar o episódio seguinte: No meio duma conversa com a minha irmã, pergunta-me ela, como é que eu ia pagar a portagem da SCUT. Para mim aquilo era chinês.

– Qual portagem?

– Sim, esclareceu-me ela, quando saíste da autoestrada A1, apanhaste a A-23 que é uma SCUT, tem uns pórticos com um sistema de radar e câmaras fotográficas que registam a passagem dos carros. Quem não tem a Linha Verde tem de ir pagar a portagem aos Correios.

Caí das nuvens. Apesar de andar mais ou menos ao corrente, pelas notícias de lá, da celeuma que as portagens das SCUTS tinham levantado, como bom turista, com carro alugado, ninguém me tinha informado deste tipo de portagem nem das modalidades de pagamento. Nem sequer a agência de aluguer de carros, nem a agência de viagens se tinham dado ao cuidado de informar o cliente.

De regresso a Lisboa, vim com cuidado para ver o tal pórtico. Nem eu nem a minha mulher demos pelo dito pórtico.

Fomos para o Algarve e aí, na via do Infante, eles são tão numerosos que não podíamos ignorá-los. No dia seguinte, lá fui, pois, aos correios para pagar. Primeira surpresa. Não havia nenhuma portagem ainda da minha passagem na via do Infante. O sistema leva 48 horas a ser atualizado ao que me disseram. Só constava a portagem do regresso pela A-23. E a portagem da ida? – Ah, essa já deve ter sido devolvida com multa para pagar. Devolvida a quem? Ao proprietário do carro, ou seja, à companhia que mo alugou. E quanto às portagens da via do Infante? Para isso tem de voltar cá, daqui a dois dias. – Quer dizer que tenho de gastar as minhas férias a correr para os correios? – Não. Pode ir pagar num Payshop. Payshop? Mas isso é português? A funcionária ficou a olhar para mim como se eu fosse um marciano.

Esta, da improvisação, da falta de rigor, do sincretismo de tecnologia e estrangeirismos, é uma das peias do país que mais me enervam.

Ao apresentar o assunto à companhia de aluguer, exatamente como previa, a resposta foi exemplar. – Não se preocupe. Quando eles mandarem a multa e virem que o condutor mora no estrangeiro, eles não dão seguimento.

Num Estado organizado, isto não devia acontecer, e, não sei porquê ainda estou à espera de a receber. Como diziam os romanos, há duas coisas seguras na vida, a morte e os impostos…

Crónica
Como vinha com a recomendação de bem me repousar por causa da pneumonia que apanhei uma semana antes de partir, evitei andar em grandes passeatas, o que não obstou a que visitasse a minha irmã, nos arredores do Entroncamento. Acabei por lá passar quase uma semana, por causa do susto de uma recaída que me levou ao hospital da Misericórdia de Torres Novas. .
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