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rss  Vol. XVII - Nº 292         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 11 de Dezembro de 2019
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Denver Language School/Escuela de Idiomas de Denver

Uma escola trilingue excecional em Denver

Jules Nadeau

Por Jules Nadeau

Fotos de Annick Nadeau

As famílias portuguesas que vivem no estrangeiro estão naturalmente preocupadas com a necessidade de conservar a língua de origem. Ou, pelo menos, deveriam estar. Que riqueza extraordinária que possuir mais uma língua! Sobretudo quando é a sua própria língua materna. Aprendida sem esforço desde a infância. Para os que vivem no Quebeque, convenhamos, que é a possibilidade de trabalhar em três línguas.

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Escolhidas por sorteio, as crianças desta classe de chinês são na grande maioria caucasianos e não filhos de pais imigrantes asiáticos. Assim, os pais não falam a língua que os seus filhos vão aprender.
Fotógrafo  Annick Nadeau

Nos Estados Unidos, cada vez mais se põe a necessidade de falar espanhol por causa do afluxo de Latinos. O seu peso demográfico já ultrapassa o dos Afro-Americanos. Nos Estados do Sul, como no Texas, falar espanhol é uma vantagem e, por vezes, mesmo uma necessidade. Os cartazes públicos frequentemente bilingues recordam-nos esta realidade.

Mais surpreendente ainda é esta escola de Denver, no Colorado, onde as crianças podem optar por estudar no programa espanhol ou no programa chinês. Neste último caso, pude observar de perto a minha neta na Denver Language School ao longo de diversas visitas à escola. Assim, tive ocasião de recolher vários testemunhos de pais. De trocas com as duas professoras chinesas. Incluindo uma entrevista com a entusiástica diretora que aceitou espontaneamente falar da nova escola com o correspondente do LusoPresse.

455 alunos e 33 professores

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Fotógrafo Annick Nadeau

Uma América unilingue? O resultado do melting pot? Primeira surpresa: a diretora Sara Baird Amodio fez o seu bacharelato em francês, depois foi estudar para a Suécia onde aprendeu a sua terceira língua. «As pessoas que visitam a escola acham maravilhoso que haja um programa em espanhol, mas ficam boquiabertas quando descobrem o programa chinês... Os pais dizem-nos que nós damos aos seus filhos um futuro dourado. Como educadores, é fantástico que nos digam tal», explica-me com orgulho esta mulher no princípio da quarentena, no seu pequeno escritório situado na receção.

A Denver Language School (DLS) conta presentemente 455 alunos repartidos em partes iguais em classes de espanhol e de chinês. Dezasseis professores para o mandarim e dezassete para o espanhol. Neste momento, há uma classe de maternal e quatro anos do primário. Em setembro próximo, vão acrescentar o quinto ano, sendo assim de ano para ano até ao oitavo, quando a DLS contará um máximo de 1055 alunos. «Uma grande escola!» À velha ala Whitman, junta-se agora uma nova, atualmente em construção no mesmo terreno.

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Fotógrafo Annick Nadeau

Quem é que entra na escola da rua Newport East? Surpreendentemente, não são filhos de imigrantes asiáticos ou hispanos. Na verdade, não vejo senão um único rosto chinês na classe de maternal (K1), o da nossa menina Sofia que acaba de fazer seis anos. É por sorteio que o Departamento da Educação faz a seleção. E como se trata duma escola pública, as despesas são quase nulas. Para uma escola de imersão numa outra língua que o inglês (seria qualificada como escola internacional no Quebeque) é um achado. A minha filha Annick e o seu marido Jason abriram uma garrafa de ChâteauNeuf-du-Pape no dia em que receberam a carta oficial de inscrição. Uma economia de alguns milhares de dólares em relação à escola privada que a filha mais velha frequentava antes. (É inútil insistir sobre o custo elevado das despesas escolares nos nossos vizinhos do Sul.)

Dois professores para a classe de Sofia

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Fotógrafo Annick Nadeau

Durante várias semanas, de manhã às 8 horas, acompanho a minha filha que vai conduzir Wang Aiwen (rebatizada com um nome chinês) ao local 109 e vai buscá-la às 15 horas (trinta minutos de tráfico até casa, em Highland).

Assinatura do caderno das presenças e o laoshi ni hao obrigatório às duas professoras, já no posto em frente de 28 crianças bem-dispostas em uniforme azul. Originária de Taiwan, Tsai Hui-chin (Cai Hui-jin) faz-nos um grande sorriso apesar dos nossos repetidos atrasos. Madame WU Li (nascida em Fuzhou, no Fujian, província em face de Taiwan) já está ocupada a fazer repetir a lição sobre as partes do corpo. Como me faz notar uma jovem avó de Hong-Kong, perfeitamente no seu elemento: «Ao ver os cartazes em caracteres que cobrem completamente as paredes, podíamos pensar que estávamos realmente na China».

Uma pergunta me vem ao espírito. Visto que os pais são filipinos, russos, italo-americanos, afro-americanos ou simplesmente cidadãos de longa data, como é que eles fazem para ajudar os filhos e segui-los numa língua que ignoram completamente? E porque não ter antes escolhido a língua de Cervantes? No caso da minha filha amerasiana, que escreve e fala chinês por ter feito a escola primária em Taiwan, e possui o cantonês como língua materna, não há problema. A cultura chinesa, no sentido largo do termo, faz parte integrante da nossa família desde sempre. Mas isso é a exceção.

Nascido em Davao City, Tristan depressa convenceu a mulher a porem a pequena Mackenzie (a melhor amiga de Sofia) no programa de mandarim. «O chinês é muito difícil e vale mais que ela o aprenda já. Para o espanhol, no nosso meio, será muito mais fácil de aprender. Vamos também mandar o nosso filho para esta escola», explica-me o enfermeiro de origem filipina, cuja língua materna não é o tagalo mas sim o bisayan (do sul do país). Os contactos de Tristan com a cultura chinesa limitam-se a amigos do New-Jersey onde o casal viveu e onde volta todos os anos.

Em breve do russo ao chinês

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Fotógrafo Annick Nadeau

Russófona como o marido e a mãe vivendo no Colorado, Natasha, a mãe da Anna, faz mais ou menos o mesmo raciocínio: «O chinês é uma língua difícil e que é preciso aprender jovem». Reagindo a umas palavras em russo que eu lhe atiro para a mesa de trabalho, a pequena Anna, muito loira, responde a sorrir «Sou muito boa nessa língua». Imaginem a cena quando ela passar do russo ao mandarim num restaurante do género Dragão d´ouro!

Stacey, a mãe do pequeno Holt, orientou o filho para o programa chinês «por causa do desenvolvimento fenomenal» desse grande país, onde foram como turistas o seu pai e outro membro da família. A jovem confessa, contudo, que é «frustrante» não ser capaz de ajudar o filho nos trabalhos de casa. «Nem sequer sei como é que se pronuncia», explica-me a uma mesa de piquenique enquanto as crianças brincam no grande recreio da escola. Felizmente, depois de várias horas de aula, os deveres estão reduzidos ao mínimo. No caso de Sofia, ela utiliza com prazer o iPad materno para memorizar os caracteres.

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Madame WU Li com cinco alunos (meninas e meninos) vestidos à oriental por ocasião duma festa celebrada na escola.
Fotógrafo Annick Nadeau

A especialista de medicina natural que encontro com frequência na sua clínica (da avenida Québec), a Dra. Julie Marchiol, tem ideias claras sobre diversos assuntos como a saúde e a educação: «Custa-me a admitir que os Americanos não falem senão uma língua», confessa enquanto me aplica agulhas estimulantes da cabeça aos pés. «Hesitei entre o espanhol e o chinês para a Isabella, 10 anos, e o Aurelio, 8 anos. Finalmente escolhi o espanhol porque eu estudei o italiano, donde sempre posso ajudá-los» explica-me esta senhora cujas raízes familiares se situam do lado de Veneza e de Trieste. Ao entrar na sua clínica, vejo na parede um diploma bilingue do International Academy of Medical Acupuncture de Shanghai (1999).

Acrescentar o francês e o português

Questão de temperamento, perguntámos-lhe se via a Isabella mais tarde num fato de mulher de negócios ou numa roupa mais olé olé. Inclinando-me mais para o lado olé foi uma das razões de ter escolhido o espanhol. «É engraçado, mas do lado das classes de chinês é mais rígido, acrescenta Julie com um gesto das duas mãos, enquanto do lado espanhol, é mais descontraído.» Ela mesma estudou o italiano na universidade. A sua assistente Gaila fala francês depois de uma estadia em Liège, que adorou. «Super agradável!», exclama ela na troca duma expressão quebequense.

Naturalmente, que seja o Novo Ano da Serpente ou o Cinco de Mayo dos Mexicanos, várias festas são celebradas em grande pompa na escola. As fotografias nas paredes testemunham da importância atribuída ao contexto cultural. A mais importante cerimónia, no anfiteatro, é a entrega oficial dos diplomas. Nesse dia, todos os pais estão presentes com as máquinas fotográficas. Os pequeninos trazem uma túnica vermelha e o chapéu de doutoramento na cabeça. Cada um recebe o seu pergaminho. Para emoldurar! Sofia, Mackenzie e Anna estão cheias de orgulho sob o olhar atento das senhoras Tsai e Wu. O suficiente para fazer corar os pais. Mesmo os que não são hábeis na língua de Confúcio para compreender as canções e as saudações do uso.

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Madame Tsai Hui-chin, exatamente como a sua colega WU Li, é uma professora de experiência. Elas representam o encontro nesta classe da cultura de Taiwan e da do continente.
Fotógrafo Annick Nadeau

Ao longo da entrevista para o LusoPresse, perguntei se o português tinha possibilidades de vir a ser ensinado um dia na Escuela de Idiomas de Denver. Sara Baird Amodio insiste sobre o facto que a sua «escola de imersão» só tem três anos de existência. A escolha das duas línguas estrangeiras deve-se ao facto de que os dois fundadores estavam, tanto um como o outro, apaixonados por estas duas línguas.

O português? «Sim, com os anos, gostávamos muito de acrescentar línguas como o francês e o português. Neste caso, justifica-se bem com a proximidade do Brasil e pelas nossas relações estreitas com a América Latina.» Entretanto, a diretora sonha com o momento em que ela poderá enviar os diplomados do oitavo ano para as escolas da China Popular. A julgar pelo nível impressionante já atingido no quarto ano, como pude verificar, será uma surpresa completa para os camaradas que os irão acolher.

(www.denverlanguageschool.org)

Educação
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Acordo Ortográfico

O que é o novo acordo?

O LusoPresse decidiu adotar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.

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