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A Páscoa e a mercearia do «seu Brognoli»

Por Lélia Pereira da Silva Nunes

Os dias ensolarados e a brisa suave denunciam a chegada do outono e da Páscoa. A Páscoa chega luminosa e o branco, a cor da paz infinita, representa a unidade humana alicerçada nas diferenças dos povos e culturas como a fusão, pela rotação, das diferentes cores do espetro dá o branco, no disco de Newton.

Por toda parte, meus olhos encontram uma profusão de coelhos e ovos de chocolate de todos os tamanhos e recheios. Uma delícia de dar água na boca! Gulosa, fico ali apreciando e imaginando o sabor do chocolate a derreter na língua, sentindo seu aroma a penetrar por todos os poros, não resistindo em tocar na sua textura suave. Uma sensação indescritível! Se chocolate é fonte de energia e de prazer, aqueles varais de coelhos e ovos dependurados por todas as lojas da cidade são uma tentação em dose múltipla. Verdadeiro «theobroma» – alimento dos deuses.

Ah! Faz lembrar a Páscoa da minha infância! Os coelhos de chocolate e os ovos de «cristal» da mercearia de seu Roberto Brognoli, em Tubarão, minha cidade natal. Num tempo em que não existiam nem super nem hiper mercados, era na «mercearia» que se encontrava toda espécie de produtos e prendas para as datas especiais: frutas cristalizadas da Confeitaria Colombo, do Rio de Janeiro; filhoses portuguesas; uvas passas Sultana; tâmaras e figos da Turquia; nozes do Chile; castanhas do Para; queijos do «Reino»; azeitonas gregas e portuguesas, bacalhau e vinhos finos de Portugal e Argentina; latas de biscoito Aymoré de Minas Gerais e Duchen Petit Beurre de São Paulo.

Na Páscoa, «a mercearia do seu Brognolli» se transformava.

Acabara a Quaresma, dias de jejum e penitência, de meditação e reflexão sobre o Calvário do Filho de Deus e da humanidade na sua luta para sobreviver num mundo onde o amor é posto em holocausto a cada dia, minando sentimentos, amizade, respeito mútuo e deixando fluir a violência, a indiferença, o descaso. A Páscoa já muito antes de ser a festa da ressurreição anunciava a chegada da Primavera, no hemisfério norte, representando a passagem de um tempo de trevas para um tempo de luz. Ostera ou Esther, a deusa da Primavera, é retratada segurando um ovo na mão, enquanto olha um coelho ao redor de seus pés. A deusa e o ovo que segura, são símbolos do fruto da vida, do nascimento. Os povos antigos comemoravam o Equinócio da Primavera decorando ovos e presenteando-os. Muitos costumes ligados à Páscoa têm sua origem nos festivais pagãos da primavera, outros na comemoração do Pessach, a Páscoa judaica, um ritual que celebra o êxodo do Egito para a terra prometida – uma passagem – como a de Cristo, da morte para a ressurreição da vida.

O meu encantamento com a Páscoa liga-se a essas tradições religiosas e culturais. Mas, a memória infantil guardou para sempre a magia da mercearia do seu Brognoli, decorada com lindas cestas de Páscoa, coelhos de algodão, branquinhos, olhos vermelhos e laços de fita no pescoço. No balcão de vidro, ovos e coelhos de chocolate, maciços, de todos os tamanhos, apresentados em elegantes estojos forrados de cetim ou veludo. Barras de chocolate «Urso marrom», bombons «Sonho de Valsa», balas «Negrita, Déa e Toffe». E os ovos de cristal, então? De açúcar cristalizado, quase transparente, pareciam mesmo de cristal e no seu interior uma gravura de um coelhinho pulando na relva.

Lá em casa, o costume era fazermos as nossas cestas ou ninhos de Páscoa com caixa de papelão enfeitada com babados de papel crepom colorido. No domingo da Páscoa, a maior alegria era encontrar, entre as cascas de ovo de galinha pintadas e cheias de amendoim açucarado, um ovo de cristal e um coelho de chocolate maciço da venda do seu Brognoli.

O coelhinho há muito partiu, talvez seja ele o responsável por este pôr de sol em tons rosados quase púrpura que tingiu o céu na linha do horizonte e por onde vagueiam nuvens tão branquinhas, transparentes como o ovo de cristal recheado de amor que ele deixou no meu coração, a pulsar de saudade no mar de tantas lembranças.

Florianópolis, 25 de Março de 2013

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Crónica
Os dias ensolarados e a brisa suave denunciam a chegada do outono e da Páscoa. A Páscoa chega luminosa e o branco, a cor da paz infinita, representa a unidade humana alicerçada nas diferenças dos povos e culturas como a fusão, pela rotação, das diferentes cores do espetro dá o branco, no disco de Newton.
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