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rss  Vol. XVII - Nº 282         Montreal, QC, Canadá - sábado, 24 de Outubro de 2020
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O Pirão d»água da nossa mesa…

Por Lélia Pereira da Silva Nunes

Um pirão d»água bem escaldado, quase transparente, acompanhando uma pescada branca frita ou assada é mesmo uma delícia. Aliás, não importa o nome do peixe o que importa é que tenha como acompanhamento o tradicional pirão d»água feito em água bem quente – o «pirão escaldado» e que, muito recentemente, vem sendo também chamado de «pirão de nylon» por causa da sua transparência.

O facto é que o «pirão» faz parte da dieta alimentar do pescador, das famílias do nosso litoral catarinense ao longo das gerações, que tiveram na sua formação cultural a contribuição dos povoadores açorianos aqui chegados entre 1748 a 1756. Por isso é muito comum se ouvir dizer que é um «costume açoriano».

O que não é a mais pura verdade. Mas, é bom esclarecer este «ser ou não ser um costume de origem açoriana.»

Na verdade, os nossos povoadores açorianos do Século XVIII não trouxeram na sua bagagem o hábito de comer farinha de mandioca porque nos Açores não tinham este costume. Eles não conheciam a mandioca. E, até os dias de hoje não têm este hábito. Então, de lá não veio… 

Mas, temos a outra face da história... Que é o da contribuição no hábito que ser tornou uma marca típica da comida do nosso ilhéu. Afinal, vem da onde?

O uso da mandioca é uma herança da cultura indígena. Os açorianos usavam o trigo. Chegaram aqui e tentaram muito cultivar o trigo que era a base do seu sustento ao lado dos inhames, das batatas, dos peixes de alto mar e da carne. Trouxeram na sua bagagem a tecnologia dos engenhos. Infelizmente, não alcançaram o resultado esperado por eles e pelo Rei de Portugal. Porque a nossa terra não era boa para o cultivo do trigo. Passaram a plantar a mandioca (hábito alimentar indígena) e produziram uma farinha tão fina quanto o trigo. Basta observar e constatar que a nossa farinha de mandioca é famosa em todo o Brasil por sua qualidade e textura suave.

Assim, com os índios, aprenderam o uso da mandioca na alimentação como o pirão d'água (escaldado e frio), o bijú, o piroca (pirão feito com leite) entre outros pratos, e daí em diante foram desenvolvendo uma culinária local típica, misturando os seus saberes das nove ilhas vulcânicas do além-mar com os saberes dos nossos índios.

Tanto é a «mais pura verdade» que em 1797 havia em Desterro 17 atafonas de moer trigo e 87 engenhos de mandioca. Por este dado se constata a insistência dos açorianos com o cultivo do trigo, a sua tradição cultural e a crescente transformação da mandioca em farinha, que era uma cultura nativa, herdada dos indígenas. Podemos dizer que os nossos engenhos de mandioca foram desenvolvido a partir da tecnologia dos indígenas no manejo da raiz de mandioca com o know-how dos moinhos de trigo dos açorianos.

Conclui-se que os nossos ilhéus e seus ancestrais açorianos aqui chegados cultivaram o hábito de comer farinha de mandioca e, sem dúvida, que a excelência da nossa saborosa farinha se deve ao aperfeiçoamento do processo de moagem de mandioca dos indígenas pelos povoadores açorianos, que eram detentores de larga experiência com o trigo lá nos Açores, no Atlântico Norte.

Crónica
Um pirão d»água bem escaldado, quase transparente, acompanhando uma pescada branca frita ou assada é mesmo uma delícia.
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