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rss  Vol. XVII - Nº 282         Montreal, QC, Canadá - sábado, 24 de Outubro de 2020
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Editorial

Habemus Papam

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

Ao anunciar a sua demissão, o papa Bento XVI sabia bem que iria criar uma profunda celeuma no mundo em geral e católico em particular. Nem foi preciso esperar muito para que a Net se encarregasse de nos trazer as mais corrosivas notícias de complô e as razões secretas desta inédita iniciativa do papa, a primeira nos últimos 600 anos da igreja católica romana.

Em resumo, as notícias apócrifas tendem a levar-nos a crer que o papa demissionário fê-lo pela sua incapacidade a gerir a crise da igreja, devido aos escândalos do Banco do Vaticano, à divulgação de documentos secretos e aos crimes de pedofilia que têm vindo a manchar a reputação dos padres católicos. No meio deste arrazoado há realmente vários elementos factuais que poderiam justificar o gesto de Bento XVI, caso a instituição que ele representa fosse uma mera empresa pública, mas não é, e o mais plausível é que se trate pura e simplesmente das razões que ele próprio invocou, a sua idade e o seu estado de saúde.

Seja como for, eis uma excelente ocasião para que a Igreja de Roma reponha na ordem do dia o Aggiornamento que o Concilio Vaticano II se propunha levar a cabo ou seja, arejar, modernizar, rever as práticas e os dogmas em que o Vaticano, à sombra dos seus guardas suíços, se empederniu.

Mas não só os dogmas e os ritos. Sobretudo, a cultura católica que, não obstante as profundas transformações que o protestantismo, desde a Reforma, trouxe ao mundo de hoje, se mantém refém da sua revindicação de ser a única igreja na linha da sucessão apostólica de São Pedro, arrogando-se assim todos os direitos e prerrogativas na condução das almas cristãs.

Para nos situarmos numa perspetiva histórica, convém lembrarmo-nos como nasceu a instituição tal como a conhecemos hoje, com toda a sua hierarquia, léxico, ritos e símbolos largamente copiados do poder temporal. Comecemos por nos lembrar que os cristãos primitivos foram perseguidos durante mais de três séculos pelo império romano que via na nova religião uma ameaça aos deuses e aos ritos pagãos de que dependia a ordem social do império. Foi só no ano de 313, com a conversão do imperador Constantino, que este resolveu conceder a liberdade de culto aos seus irmãos na fé. Menos de um século depois, no tempo do imperador Teodósio, o cristianismo passou a ser a religião oficial do império, como forma de manter a unidade politica e social dentro das suas fronteiras.

Esta preponderância da igreja cristã sobre os cultos pagãos da época, obrigou os teólogos da nova religião a fazer mil malabarismos intelectuais para incluir nos ritos cristãos práticas milenárias que o catecismo primitivo não conseguia erradicar. Um dos mais controversos destes ritos foi o da conversão da veneração da «Madona col Bambino» que se espalhava por toda a bacia do Mediterrâneo, ao culto da Virgem Maria com o Menino Jesus e que ainda hoje separa bastante os católicos dos protestantes. O Natal surgiu igualmente da cristianização de outra tradição pagã, a da festa do solstício de inverno entre os nórdicos.

Outro aspeto controverso do catolicismo é o do celibato dos padres. Ora acontece que esta tradição entrou muito tardiamente nos costumes da Igreja como comportamento obrigatório a todos os clérigos, ou seja no século XIII. Durante os primeiros mil e duzentos anos da igreja cristã, os padres, os bispos, cardeais e até os papas podiam casar-se e ter filhos. A razão subjacente ao celibato foi a de impedir que o espólio da Igreja fosse herdado pelos filhos dos clérigos e deste modo permitir à Igreja a capacidade de acumular e alargar o seu poder temporal.

Mas a maior controvérsia vinda a lume sobre a tradição da igreja romana foi a de impedir que os cristãos acedessem aos livros sagrados do antigo e novo Testamento. Foi esta a razão de ser da Reforma de que nasceram as igrejas protestantes. Para estas só a Bíblia tem autoridade moral para inspirar o cristão. Para o católico, que até meados do século passado só tinha acesso à palavra bíblica em latim, a prática religiosa tem-se reduzido à observação dum conjunto de ritos e tradições, por vezes a rasar a idolatria.

O protestantismo veio na verdade criar uma nova cultura cristã onde o crente se assume como o principal interessado no seu diálogo com o sagrado. As consequências de uma tal filosofia de vida têm tido repercussões inestimáveis no mundo cristão desde Lutero até aos dias de hoje.

Não falta mesmo quem afirme que o capitalismo e o individualismo tiveram a sua semente nesta postura dos novos cristãos. O facto é que é nos países de tradição protestante onde se verifica uma maior cultura do empreendedorismo e da redução do papel do Estado, onde são as organizações religiosas que assumem a solidariedade para com os mais vulneráveis da sociedade.

A contrapartida da liberdade individual e intelectual do protestantismo tem sido a sua dispersão por mil e uma capelinhas onde a falta dum líder moral de cúpula leva muitas vezes a derrapagens ideológicas de que são testemunhas os militantes assassinos pró vida americanos, entre outros. Do mesmo mal sofrem as igrejas islamitas.

Esta é uma das grandes vantagens da Igreja de Roma, a de ter um poder centralizado capaz de influenciar moral e espiritualmente uma grande massa de crentes. Sem esta força moral, o mundo ocidental ainda estaria hoje a negar a teoria da evolução das espécies, a pôr em causa a primazia da razão e da lógica a favor das crenças geradas pela ignorância.

Não admira pois que muitos cristãos de hoje, qualquer que seja a sua confissão, e até mesmo os agnósticos, estejam ansiosos para ouvir o tradicional «Habemus papam» e que o novo eleito traga à Igreja de Roma a abertura, a modernidade e as reformas urgentes para fazer esquecer a inoperância dos últimos pontífices. A Civilização universal ser-lhe-á credora.

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