logo
rss  Vol. XVII - Nº 282         Montreal, QC, Canadá - sábado, 24 de Outubro de 2020
arrowFicha Técnica arrowEstatutos arrowPesquisar arrowContactos arrowÚltima hora arrowClima arrowEndereços úteis
Partilhe com os seus amigos: Facebook

A Perspectiva das Coisas, uma lição do Mestre

Por Lélia Pereira da Silva Nunes*

Coisas que não achava destino e nem lugar para guardar na nossa casa de Florianópolis e não querendo-me desfazer delas fui levando para São Joaquim e guardando na casa da fazenda. Depositei tudo numa canastra de couro (espécie de baú) e vez que outra resolvo abrir aqueles preciosos guardados e, entre a poeira e os paranhos, vou descobrindo meus pequenos tesouros da juventude esquecidos no sótão da velha casa.

Coisas tão minhas e lembranças tão fortes que chego a ouvir os sons das vozes. Respiro fundo, fecho os olhos, revisito tudo… No passar do tempo fui acumulando estórias e mais estórias agora puxadas para o presente como um balaio de siri, puxa um e os outros vem agarrados atrás.

Entre tantas coisas espalhadas no meio do tapete de Kilim e que começo a devolver ao baú das recordações está uma pequena pilha de revistas intituladas Mestres da Pintura. Deparo com uma gravura já esmaecida de uma pintura de Henri Matisse (1869-1954) estampada numa das capas, a belíssima Natureza-Morta, Ramo de Dálias e Livro Branco, 1923, óleo sobre tela 50,2x61 cm. Obra de arte que tanto me encantou quando visitei, em novembro de 2011, a exposição A Perspectiva das Coisas sobre o tema A Natureza-Morta na Europa (séculos XIX-XX) na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, na companhia dos amigos Hélia e Eduíno de Jesus.

Lisboa emergia naquele novembro com ares de outono-inverno reservando-me breves momentos de um sol tímido que iluminava e animava antigas fachadas, intensificando os verdes dos jardins. Por aqueles quadros de natureza viva cujo cenário é Lisboa cheguei à Fundação Calouste Gulbenkian de boleia com Eduíno de Jesus. Uma boleia que continuaria por dentro do Museu, numa visita guiada aos quadros de Natureza-Morta reunidos numa significativa mostra organizada por temas e disposta em doze núcleos da representação das «coisas» sob diferentes olhares ou perspetivas.

Segui o itinerário do Eduíno, e núcleo após núcleo bebi das suas explicações, mergulhei nas palavras do crítico de Arte e adentrei no labirinto de tanta cor e luz atenta a cada observação do amigo. Suas palavras chamavam minha atenção às transformações sofridas pela natureza morta na modernidade, a reinvenção da forma por Paul Cézanne (1839-1906) e a sua insistência de que «para nós, a Natureza é mais profundidade do que superfície». Avanços em direção aos pintores do confronto alternativo com a tradição académica, como fez Gustave Courbet. Recuos para mais um olhar à Natureza-Morta com Pote de Gengibre e Beringelas de Paul Cézanne.

Estavam expostos nos salões do Museu da Gulbenkian pintores de grande referência, como Rembrandt, Goya, Léger, Manet, Renoir, Monet, Van Gogh, Gauguin, Cézanne, Picasso, Juan Gris, Salvador Dalí, Matisse, Magritte, Duchamp, Braque, Picasso. Incluía, ainda, os modernistas portugueses, Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana e Mário Eloy e Maria Helena Vieira da Silva. Enfim, cerca de 70 artistas e 93 obras provenientes de museus, instituições e coleções privadas de todo mundo.

Eu me achava em estado de graça absoluta… Acabara de admirar a Édouard Manet e seu lindo Flores numa Jarra de Cristal, de uma transparência incrível e de tanta habilidade na materialização das coisas como o fez Chardin ou Eugène Delacroix, e as maravilhosas e indescritíveis pinturas de flores transbordando em cores vibrantes e cheias de luz de Renoir, Claude Monet e, também, do holandês Vincent van Gogh numa deslumbrante exploração da Natureza, no repensar o espaço e no exprimir o sentimento humano nas suas fascinantes pinturas: Vaso de Girassóis de Monet, Ramo de Castanheira em Flor de Van Gogh, e o Vaso de Flores de Renoir (flores do campo, singelas como as flores de Maçanilha). Por Deus, que lindos!

O Cesto de Limões e Garrafa de Van Gogh permitia uma interpretação literária de sua linguagem drama (coisa e artista), enquanto a Natureza Morta com Leque de Gauguin misturava culturas ou remetia para o exótico Taiti. Ou, ainda, as cenas de caça e o animal imolado representadas nas pinturas de Goya (Natureza-Morta com Lebres) e de Rembrandt (Pavoas Mortas) que tanto admirei sem um minuto sequer descansar os olhos daqueles jogos de luz e cores. Um verdadeiro festival para olhar nessa contínua mutação do género dentro da modernidade vencendo desafios revelados em obras inspiradas no Cubismo, Futurismo, Construtivismo e Surrealismo, visíveis em Magritte ou Picasso. Até tudo isso convergir no contemporâneo Nicholson que reverencia os valores tradicionais da natureza-morta.

As horas passavam e nós seguíamos em passos lentos que bem lembravam o ritual da via-sacra. E era mesmo um circuito sagrado, mágico, fascinante que fui adentrando encantada pelas mãos do Eduíno e da boa Hélia que a tudo acompanhava ora ao nosso lado, ora mais à frente nos aguardando pacientemente.

Estar ali na companhia do Eduíno era mesmo um privilégio e vi que muitas pessoas que visitavam a exposição começaram a perceber que «aquele simpático senhor» sabia tudo e foram se chegando de mansinho. Teve mesmo um grupo de jovens estudantes que deixaram a professora falando sozinha e se viraram acintosamente para escutá-lo em respeitosa admiração. Comecei a rir deliciada da cara de espanto do querido amigo. Sua figura pequena agigantou-se, sua aura brilhou. Me emocionei. Amei estar ali vivendo aquele momento único. Só não digo que foi coisa do Divino. Não foi, não. Pois, Divino estava sendo o próprio Eduíno em sua lição de mestre.

Em verdade, uma tarde tão maravilhosamente vivenciada bem que poderia ter um dedinho de São Martinho, afinal era seu dia.

Naquela noite, na Casa dos Açores de Lisboa, no Magusto de São Martinho, relembramos a monumental exposição em companhia de amigos que também bebiam as sábias palavras de Eduíno de Jesus. Um dia como esse só poderia terminar assim: com as lições do mestre num Magusto de São Martinho a ouvir tocar o guitarrista micaelense José Pracana.

* Texto para Eduíno de Jesus.

Crónica
Coisas que não achava destino e nem lugar para guardar na nossa casa de Florianópolis e não querendo-me desfazer delas fui levando para São Joaquim e guardando na casa da fazenda.
A Perspectiva das Coisas sob o olhar do Mestre doc2 .doc
no
O tempo no resto do mundo

Arquivos

Acordo Ortográfico

O que é o novo acordo?

O LusoPresse decidiu adotar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.

Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2020