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rss  Vol. XVII - Nº 280         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 12 de Abril de 2021
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Neves Rodrigues:

Um Anarca - Individualista!

Fernando Pires

Por Fernando Pires

Agora que o José das Neves Rodrigues já cá não está, gostaria de aqui lhe prestar homenagem como homem de ideias, mas pessoa não muito metódica e organizada para por essas ideias em prática!

No entanto, há aqueles que não fazem distinção entre a ação e as ideias! Foi o caso da data da fundação da Caixa dos Portugueses pelo (Ti) Neves, que os impostores têm atribuído a outros! A Caixa é uma criatura da ida do (Ti) Neves a Lévi para tratar da sua fundação em 1968 (se a memória não me trai). Recordo um dia desse ano, à mesa do café na Bodega, com o (Ti) Neves e o Sr. Jorge Trindade, dois entusiastas na implicação do cooperativismo económico. Dizia-me ele na altura: Amanhã vou a Quebeque para tratar da incorporação de uma cooperativa de habitação dos Portugueses. O Sr. Trindade seria o «desenhador» do projeto que alimentava o ideal do (Ti) Neves! Recordo também de ele me ter trazido de Quebeque um livro sobre o Cooperativismo na Europa, e sobre as Caixas Populares no Quebeque, fundadas pelo cooperativista Alphonse Desjardins.

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Neves Rodrigues à fala com o grande escritor libertário, Noam Chomsky, na Livraria Champigny (St-Denis), em 1965.

O espírito contra a ditadura de Salazar sempre animou este homem. Alguns dirão: o que é que a ditadura tem a ver com o (Ti) Neves e a fundação da Caixa? Se calhar até tem! Porque a injustiça que nos rodeia, tanto a nível mundial como nacional, era a sua preocupação e a motivação social era o seu ideal. Foi ele que registou também o Movimento Democrático de Montreal em 1965. Assim como também com outros fundou a Revista A Portinhola. Ele e o seu amigo esperantista Gastão Florêncio, participaram no aparecimento do Clube Esperantista do Quebeque durante a Exposição Universal de Montreal em 1967. Quanto à cooperativa do livro que tentamos criar com a abertura de uma conta na Caixa, essa coitada, nunca aprendeu a gatinhar! O Neves depois que deixou o seu São Bartolomeu no Algarve, emigrou para o Montijo para aprender a arte de tipógrafo. Aí aprendeu essa arte, uma das profissões mais conscienciosas, esclarecidas e bem informadas socialmente e politicamente na altura, no nosso País. No Montijo colaborou no jornal A Gazeta, fundando ainda o Ateneu do Montijo. O «anarquismo» do (Ti) Neves não era um anarquismo da pólvora, era um «anarquismo libertário» e criativo, como o de outros homens por esse mundo fora, que para além do chamado «conceito» de caos, de niilismo e de bagunça, aos quais muitos se referem; o (Ti) Neves manteve-se sempre idealista pelo interesse do saber, do conhecimento, cooperando a melhorar a injustiça.

Muitos desses tipógrafos e suas mulheres eram pessoas de ideias. Em Portugal foram deportados para a Ilha do Pico em 1931 com mulheres e filhos. Outros grupos de presos políticos de ideal libertário foram deportados para a Ilha Terceira, depois desterrados para o Tarrafal. Alguns deles comunistas, como por exemplo o matemático Bento de Jesus Caraça, foram aí parar. A ditadura militar do Sidónio Pais prescreveu como solução à miséria em Portugal «resolver» o problema com as sopas da tropa e um «casqueiro» por dia, como alimentação!

O (Ti) Neves não só tinha imagens de um utopismo coletivo, que era também o do sindicalismo espanhol, que se bateu contra o fascismo de Franco durante a Guerra Civil de Espanha. Muitos homens de valor, como por exemplo Abel Salazar, que era um dos grandes homens de quem o (Ti) Neves muitas vezes me falava com grande admiração. Este democrata foi um dos grandes portugueses que o ditador não «prendeu», mas mandou encurralar com a portaria da lei N-5 em 1931, para que ele se não pudesse ausentar do País. Salazar, professor, médico, cientista, artista, investigador, e fundador do Instituto de Histologia na Universidade do Porto, foi-lhe também proibido frequentar a biblioteca da Universidade, e afastado da cátedra do laboratório da Universidade.

O Neves era um observador da Natureza e do comportamento animal. Várias vezes me falou de viagens que fazia a cavalo de um jumento na sua terra. Dizia ele, o burro quando chegava à passagem de nível parava logo automaticamente. Este exemplo era para ele uma analogia entre o animal e certos homens!

Deixo aqui este testemunho de um homem com quem era difícil trabalhar em equipa; mas que em alguns casos, quando se rodeava do Luís Soares este servia-lhe de alavanca metódica! Para além de tudo isto, o (Ti) Neves foi para mim fonte de inspiração pelo meu interesse pela leitura, à procura do saber, e do conhecimento, tentando assim saber cada vez mais! Devo-lhe a ele ter lido livros que ele mandava vir do Brasil, e de assim poder já em 1967, ler a Reforma Agrária em Portugal de Álvaro Cunhal, onde tive conhecimento que nos anos 40, em Soajo, e no País, a chamada «água de unto» e o «casqueiro», não tinham calorias suficientes para alimentar homens que nunca foram meninos.

Bem-haja!

Ref.: A Oposição Libertária em Portugal, Edgar Rodrigues.

Editora Sementeira, SCARL, Dezembro 1982.

Crónica
Agora que o José das Neves Rodrigues já cá não está, gostaria de aqui lhe prestar homenagem como homem de ideias, mas pessoa não muito metódica e organizada para por essas ideias em prática!
O Neves Rodrigues.doc
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