logo
rss  Vol. XVII - Nº 280         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 12 de Abril de 2021
arrowFicha Técnica arrowEstatutos arrowPesquisar arrowContactos arrowÚltima hora arrowClima arrowEndereços úteis
Partilhe com os seus amigos: Facebook

Fátima Sequeira Dias – História e estórias, sorrisos e saudades

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

Os relatos médicos do comum amigo Carlos Arruda vinham chegando cada vez mais tristes e o desenlace era de prever. Mas nunca se espera porque, como me disse a D. Mariana, mãe da Fátima, da última vez que com ela falei ao telefone, «a esperança é a última coisa a morrer». Todavia a notícia fatal acabou por chegar, uma vez mais pelo meu interlocutor privilegiado. Disparei em segundos uma mensagem para uma rede de amigos e admiradores da Fátima:

Amigos,

Este e-mail é para dar a vocês a notícia triste do falecimento da Professora Fátima Sequeira Dias. Acabam de me comunicar e, embora a esperasse porque tenho acompanhado o definhar-se dela, havia sempre uma luzinha de esperança. Agora não há mais.

FatimaSDias2010 -S.Miguel.jpg
Pelo menos duas vezes a Professora Fátima Sequeira Dias esteve em Montreal.

Foi-se aquele poço de energia, aquela jovialidade, aquela boca de trapos, trabalhadora incansável, investigadora a sério, curiosa ao extremo, persistente vasculhadora de documentos, generosa e divertida, divertida, divertida. Ela que nos contagiava com a sua vivacidade, apagou-se.

Aqueles que os deuses amam eles levam-nos jovens.

Saudades vai deixar. E muitas. Esteve aqui na Brown três meses na primavera e conquistou meio mundo.

O abraço que era para ela vai para vocês.

Em minutos chegavam de volta ecos em tom semelhante. Da Professora Maria Eugénia Mata, da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa:

Não sei o que dizer, não tenho palavras. Choro a Fátima. Não sou corajosa, não consigo imaginar que a não volto a ver.

Sempre na esperança parece que nunca acreditei também.  Lembro-me de tantas coisas bonitas com ela!

Pouco depois, era do Professor José Luís Cardoso, do Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa:

Sim, também fui acompanhando com enorme mágoa a doença galopante e tão injusta da Fátima, uma pessoa que muito admirei pela sua imensa generosidade e alegria de viver. E um sentido de humor contagiante e único.

Um amigo nosso, Antonio Alves Caetano, escreveu uma mensagem sentida que vou seguidamente reencaminhar.

 

E de imediato chegava também esse e-mail, que agora aqui transcrevo parcialmente:

Nesta hora dolorosíssima sequemos as lágrimas e bendigamos ter feito parte das nossas vidas. Foi uma bênção que recebemos. Se fui encaminhado para a História Económica apenas para disfrutar da sua amizade, valeu a pena.

Por pouco tempo me foi possível beneficiar da sua alegria, inteligência, sentido de humor, poder de argumentação, fluidez expositiva, generosidade, bem-querer. Mas, foi tempo maravilhoso.

A sua generosidade foi ao ponto de me considerar pai adoptivo. […], Que maravilhosa filha me foi dada por acrescento!

[…] Cumpre-nos fazer tudo para perpetuar a memória da insigne historiadora Fátima Sequeira Dias.

Ainda há menos de um ano a Fátima estivera três meses em mini-sabática aqui na Brown como bolseira da FLAD. Parecia uma criança com tanto tempo livre para investigar e um mar de livros nas bibliotecas à sua espera. Voava aí pelas ruas e relvados, conheceu meio mundo, distribuiu saber em palestras e sorrisos gratuitos pelas pessoas com quem se cruzava. Um dia entrou no gabinete e contou, preocupada, à Armanda Silva, administradora do Departamento, que tinha ido ao banco e não conseguira fazer contas pois esquecera-se dos números e que já antes, num almoço com um amigo americano, quisera falar inglês sem conseguir, esquecida de tudo o que aqui tinha aprendido. Eram sinais graves do princípio de uma tragédia, naquele momento ainda inimaginável.

A Brianna, luso-americana vinda para a Brown sem uma palavra de português, conheceu-a, conviveu com ela e ficou fã incondicional. Dela chegou-me este mail:

Muito obrigada. Hoje tenho um grande peso no fundo do meu estômago. Tenho saudades dela. Nos três meses que esteve aqui, marcou-me com o seu espírito, com a sua bondade, com o seu carinho... e o seu sorriso. Que belas recordações que tenho dela... e de tantas, tantas risadas! 

De Fairhaven, Massachusetts, escreve-me a Prof. Lisa Godinho, que não fazia ideia do seu estado de saúde:

Ouvi-a numa palestra sobre os judeus em S. Miguel, muito alegre, muito cheia de vida, uma simpatia.

Que grande, enorme pena.

Da Professora Lélia Nunes, de Santa Catarina, e frequente visitante nos seus Açores adoptivos:

Hoje passei o dia como aquele cachorro que caiu do caminhão de mudança e ficou ao léu. Vaguei distraída o dia todo e o meu olhar estava lá em Ponta Delgada, na cara da Fátima, lembrando-a. A risada, a debatedora, a defensora ferrenha de suas ideias, as últimas conversas, as últimas notícias. Passei o dia no ar, inconformada. Sinceramente, pensei que ela era tão forte e guerreira que ia vencer a batalha. Pura energia. Não tinha meia palavra com ela, era tudo ou nada. Tinhosa. E quando subia nas tamancas, uiiiiiii sai de baixo.

Investigadora preciosa, enérgica, exigente. Era ela, a Fátima e não precisa acrescentar mais nada.

Soube, quando a madrugada ia alta e hoje corri e escrevi ao Daniel [de Sá] e depois ao Urbano [Bettencourt], aflita.

Os dois contaram, ambos transtornados pela perda tão querida. A colega, a amiga e a menina que o Daniel vira crescer e que tinha grande orgulho da sua trajetória profissional e da pessoa formidável que era. Não é Daniel?

[…] Era boa encrenca pois estava sempre a fazer, buscar, estudar, trabalhar, lutar. Viva sempre. Generosa, isso sim. Divertida e muito comunicativa, Agregava. Gostava de receber, de ter os amigos em casa em longos saraus onde deixava todos muito a vontade.

De novo da Prof. Maria Eugénia Mata:

Hoje é um dia mesmo assim, como diz este «poema» à Fátima. Sempre a admirei muito, porque ela era uma força da Natureza. Desde 1986 que privo com ela, e almoçámos na Baixa não muito antes de ir para a Brown. […] Por mail, percebi que estava muito atarefada antes da partida, e tudo isto foi uma sucessão de más surpresas. Era minha vontade estar no funeral da Fátima. Problemas aqui impedem-me de voar para lá, mas estou com a cabeça nela e na nossa amizade. Para além dos seus méritos académicos ela era uma mulher muito bonita, e a sua obra-prima, para mim, é o livro sobre a mulher. Marca a introdução da verdadeira gender history de qualidade, em Portugal. Pela ousadia e pelo rigor sociológico. Não há comparação.

Tal como no caso do artigo que a Professora Leonor Sampaio da Silva, sua amiga e colega na Universidade dos Açores, publicou no Correio dos Açores no dia do funeral intitulando-o «Isto não é um obituário», também este não pretende sê-lo. Nem venho enumerar a longa lista de livros e artigos científicos que escreveu, nem os cargos de prestígio que desempenhou. Dos livros, referirei apenas um que ela se divertiu muito a escrever: O Dicionário Sentimental da Ilha de S. Miguel, exemplo do seu estilo de quebra-barreiras, mas também de uma total ausência de complexos, pois ela usava orgulhosamente o sotaque da ilha. Lá narra uma história que a Fátima se deliciava a contar. Num café de província algures nas Beiras, pediu um galão, um bolo de arroz e não sei que mais. Surpreendida, a senhora reagiu: Ah, mas que xotaque tão exquejito! Ao vivo, a Fátima contava e dava uma gostosa gargalhada. Todas as vezes. Estou ainda a ouvi-las, aqui de longe. Com saudade. Muita.

Crónica
Os relatos médicos do comum amigo Carlos Arruda vinham chegando cada vez mais tristes e o desenlace era de prever.
Fatima Sequeira Dias.doc
no
O tempo no resto do mundo

Arquivos

Acordo Ortográfico

O que é o novo acordo?

O LusoPresse decidiu adotar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.

Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2021