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rss  Vol. XVII - Nº 280         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 12 de Abril de 2021
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Expertalhão

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

O país boquiabriu-se. Ainda lhe faltava mais essa. Então as televisões, os jornais de referência, as instituições de peso deixam-se levar pelas patranhas de um suposto consultor do Banco Mundial e da ONU, além de professor de uma inexistente universidade americana, como se nunca ninguém tivesse ouvido falar em background checking?! Desta minha distância transatlântica, dava para suspeitar que um dia algo assim viria a acontecer, pois volta e meia passa por aqui alguém que dorme uma noite num hotel perto de Anything University e regressa a Portugal especializado em Qualquercoisologia. A comunicação social ajoelha-se e planta-lhe o microfone no verbo recheado de platitudes salpicadas de impressivos know hows, bites e b.s.tology. O resto é um rolar de tapetes vermelhos e vénias.

No meu gosto de colecionar estórias, cá tenho umas quantas cujos protagonistas poderia carecar, não fora o meu pouco interesse em vestir a farda de polícia de canudos. (Ainda ontem tive conhecimento de uma figura mediana que ostenta no seu currículo uma licenciatura na Brown e, no entanto, o nome dele não figura – fui verificar – em nenhum registo oficial da Universidade.)

Nada disto, porém, se leia como condenação exclusiva dos média para ilibar a comunicação social porque ao fim e ao cabo o vilão não foi quem andou de microfone na mão a sorver-lhe respostas, mas sim o autoproclamado especialista da ONU, Mr. Silva, Artur Baptista, inventor de uma universidade americana, entre várias outras criações de não menor dimensão. Descoberta a burla, o senhor, segundo leio nos jornais que por via eletrónica aqui arribam, queixa-se de ser «vítima de um julgamento sumário» e de que a plebe está agora a vitimá-lo, infringindo-lhe a pena de «linchamento de caráter» – e a referência é devidamente emoldurada historicamente - «no pelourinho da praça pública», com a agravante de lhe ter estragado por completo o Natal. E naturalmente a passagem de ano, acrescento eu. Blogues há que, aproveitando as fragilidades exibidas por alguns bastiões do sistema, prosseguem de microfone em riste direitinho à boca do senhor. Ou, pelo menos, em cata da voz dele, porque entretanto o alegado luminar eclipsou-se. Num país que já teve um primeiro-ministro e tem um ministro de aviário, cujos currículos a comunicação nunca investigou atempadamente, nada nos devia já surpreender. Estamos por tudo e dificilmente nos surpreenderemos com novas imposturas.

Não é fácil, porém, ignorar de todo figuras destas. Por isso, o nevão de ontem que me mantem aconchegado à lareira, deixou-me aqui a ponderar as diversas facetas deste imbróglio, e sobretudo a sondar cenários que me permitam compreender a posição do vigarista. Li comentadores que traçaram semelhanças com o que Alan Sokal fez há anos às verborreias desbragadas de certos tudólogos culturais, esperteza que tivera, aliás, já o seu precedente em Stanislav Andreski que, no seu Social Science as Sorcery (1972), conta a partida que pregou a alguns pomposos convencidos. Mas tanto ele como Sokal fizeram-se, ou armaram-se, em burlões apenas temporariamente e com o intuito específico de desmascararem a nudez do rei. Foram eles próprios que, conseguido o almejado objetivo, revelaram publicamente as suas intenções de lobos em pele de cordeiro. Quer dizer: revelaram o truque. No presente caso, por mais voltas que dê aos meus raciocínios éticos, só me faz sentido comparar o papel desempenhado por A. Baptista da Silva com o do indivíduo que assassinou os pais e, levado ao tribunal como criminoso, optou por ser advogado em causa própria. Em sua defesa, implorou clemência. Tivesse o meretíssimo juiz pena dele, coitado, em situação miserenta, triste deveras, agora órfão de pai e mãe.

Crónica
O país boquiabriu-se. Ainda lhe faltava mais essa. Então as televisões, os jornais de referência, as instituições de peso deixam-se levar pelas patranhas de um suposto consultor do Banco Mundial e da ONU, além de professor de uma inexistente universidade americana, como se nunca ninguém tivesse ouvido falar em background checking?!
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