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rss  Vol. XVII - Nº 280         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 12 de Abril de 2021
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Editorial

Esquerda, volver!

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

« É não ter coração, não ser-se socialista aos vinte anos. Mas continuar a sê-lo aos quarenta é não ter cabeça» – George Clémenceau, estadista francês.

A noção de «direita» e «esquerda» vem-nos da França, do tempo em que o sistema monárquico vivia os seus últimos estertores. Na altura dum debate na Assembleia Nacional sobre a constituição do país, os deputados que defendiam o poder monárquico estavam sentados à direita do presidente e os deputados que defendiam a democracia popular, à sua esquerda.

Desses tempos ficou-nos a tradição de considerar a direita como o campo dos conservadores e a esquerda o campo dos progressistas.

Até ao fim da Guerra-fria, a direita era o bloco que se identificava com os valores individualistas e liberais do capitalismo, a esquerda com os valores da democracia humanista, progressista e internacionalista.

Esta dicotomia – para muitos, símbolo de separação entre os bons e os maus – servia também de muleta ideológica à qual se encostavam sobretudo, com fé, os ansiosos de compreenderem o mundo em que viviam. A grelha de análise que lhes oferecia, tanto um campo como o outro, dava-lhes resposta simples a questões complexas como a exploração dos mais fracos pelos mais fortes, a inequalidade das nações, a existência da fome, da doença e do analfabetismo.

Com a queda do Muro de Berlim e a descoberta dos crimes cometidos em nome do socialismo soviético, a esquerda passou a identificar-se sobretudo como antiamericana. A direita, essa, ramificou-se em vários matizes, indo do individualismo libertário ao mais acérrimo defensor do capitalismo ultraliberal, passando por movimentos ecologistas, vegetalistas, animalistas ou fanáticos religiosos.

Para a esquerda de hoje, a ideologia resume-se, grosseiramente, a isto: tudo quanto diga respeito aos americanos e aos seus aliados, eis o inimigo a abater; tudo quanto se oponha aos americanos e aos seus aliados, eis a vítima a defender e a apoiar. Como liminarmente enunciou Fidel Castro, «quem não é por mim é contra mim».

Só assim se compreende a solidariedade da esquerda ocidental com os islamitas – porque antiamericanos – e a sua visceral animosidade contra os israelitas – porque pró-americanos.

Inútil avançar argumentos para denunciar as contradições desta esquerda. Como em todas as ideologias, não é preciso argumentar para justificar as suas adesões partidárias. É uma prova de fé, o que está nas antípodas do raciocínio lógico, isento e ponderado que devia ser o apanágio, sobretudo, daqueles que têm o poder e o dever de formar a opinião dos cidadãos, os jornalistas.

Efetivamente, uma boa parte da classe jornalística do mundo ocidental – manifestamente mais inclinada à esquerda do que à direita – não perde uma ocasião para denunciar a política de Israel mas raramente para denunciar a barbaria que se regista no mundo arábio muçulmano, indo ao ponto de mentir por omissão.

Vêm estas considerações a propósito dum artigo devastador publicado em inglês no jornal «Arab News» por um general reformado do exército da Arábia Saudita, sobre o conflito entre árabes e israelitas, no qual o autor se interroga sobre a identidade do verdadeiro inimigo do mundo árabe. Infelizmente não houve eco de tal escrito na dita grande imprensa. Foram sobretudo os blogues ditos de direita que lhe deram alguma cobertura.

Este artigo – www.arabnews.com – merece ser lido por todos quantos dão alguma importância aos factos, independentes das ideologias, sobretudo quando vêm diretamente do mundo arábico e escrito por alguém que conhece bem a política do médio oriente por dentro.

A ideia central do articulista anda à volta deste parágrafo – «The Arab world has many enemies and Israel should have been at the bottom of the list. The real enemies of the Arab world are corruption, lack of good education, lack of good health care, lack of freedom, lack of respect for the human lives and finally, the Arab world had many dictators who used the Arab-Israeli conflict to suppress their own people. These dictators» atrocities against their own people are far worse than all the full-scale Arab-Israeli wars.» (1)

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1) Em tradução caseira – «O mundo árabe tem muitos inimigos e Israel devia ser o último da lista. Os verdadeiros inimigos do mundo árabe são a corrupção, a falta de instrução, a falta dum bom sistema de saúde, a falta de liberdade, a falta de respeito pela vida humana e, por fim, o mundo Árabe tem demasiados ditadores que têm usado o conflito arábio israelita para eliminar o seu próprio povo. As atrocidades destes ditadores contra as suas gentes são, de longe, piores que todas as guerras juntas que tem havido entre Árabes e Israelitas.»

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« É não ter coração, não ser-se socialista aos vinte anos. Mas continuar a sê-lo aos quarenta é não ter cabeça» – George Clémenceau, estadista francês.
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