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rss  Vol. XVI - Nº 270         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 03 de Junho de 2020
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António Damásio:

As Competências Emocionais na Educação

Luís Aguilar

Entrevista conduzida por Luís Aguilar

A convite do Instituto das Ciências Cognitivas da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade do Quebeque de Montreal (UQÀM), António Damásio deu uma conferência de abertura, a que assistiram cerca de 300 pessoas, intitulada «Feelings and Sentience», integrada no programa da Escola de Verão em Ciências Cognitivas sobre «A Evolução e a Função da Consciência». À margem da conferência tivemos o privilégio de conversar e entrevistar o diretor do Instituto do Cérebro e Criatividade, sito em Los Angeles, EUA, que é hoje considerado um cientista de referência no campo das neurociências.

Antonio Damasio 2.jpg
António Damásio

LusoPresse: – Começamos por lembrar o roteiro para a Educação Artística da UNESCO que tem António Damásio como uma das principais referências.

António Damásio: – Ah sim!? Não sabia que vinha citado nesse documento.

LP: – Nesse roteiro ficamos a saber que o António Damásio considera existir uma primazia dada ao desenvolvimento das capacidades cognitivas em detrimento da esfera emocional.

AD: – Existe, com efeito, hoje em dia uma separação cada vez maior entre o desenvolvimento cognitivo e o emocional, que reflete o facto de, nos ambientes educativos, se atribuir uma maior importância ao desenvolvimento das capacidades cognitivas, valorizando menos os processos emocionais, o que contribui para o declínio do comportamento moral da sociedade moderna.

LP: – Pode-se então considerar que as competências emocionais, a inteligência emocional ou mesmo a alfabetização emocional são, nessa ótica, imprescindíveis a qualquer processo educativo?

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No fim de uma boa conversa entre António e Hanna Damásio e Luís Aguilar um belo testemunho da expressão dos sentimentos de emoções.
PhotoByVitália Rodrigues - LusoPresse

AD: – Sim, claro. Posso confirmar a importância decisiva que as competências emocionais têm em todas as aprendizagens fundamentais e, consequentemente, na forma como vivemos as nossas vidas. O desenvolvimento emocional faz parte integrante do processo de tomada de decisões e funciona como um vetor de ações e ideias, consolidando a reflexão e o discernimento. Sem um envolvimento emocional, qualquer ação, ideia ou decisão assentaria exclusivamente em bases racionais. Um saudável comportamento moral, que constitui o alicerce sólido do cidadão, exige a participação emocional. Continuo a pensar que se privilegia em demasia as atividades ou competências cognitivas em desfavor das emocionais e, no entanto, aquelas não se desenvolvem sem estas.

LP: – Não há, neste momento, definição curricular que hoje não esteja organizada por competências, como outrora o esteve por objetivos ou por centros de interesse, mas, raramente, para não dizer nunca, os planos curriculares contemplam uma área de competências emocionais: estas aparecem diluídas numa área demasiado ampla das competências-chave ou competências para a vida.

AD: – E olhe que não ficam nada mal albergadas nesse amplo teto. Repare que as competências emocionais não podem ser dissociadas das competências sociais. Se nessa organização curricular de que me fala têm dificuldade em arrumar as competências emocionais, é só colocar, por exemplo, competências sociais barra emocionais.

LP: – Um referencial de competências que sirva de base a uma organização curricular é sempre artificial uma vez que, todas as competências estão interligadas e intercomunicam. Se aparecem separadas nos referenciais de competências é apenas por razões de sistematização. A haver uma área de competências emocionais, que indicadores ou índices poderíamos enumerar? As que descreveu na sua conferência?

AD: – Sem sombra de dúvida. Mas insisto as emoções/sentimentos que listei (alegria/felicidade, medo/pânico, cólera, tristeza/dor profunda, compaixão, admiração, desprezo, repugnância, orgulho, vergonha/embaraço) só têm sentido se associadas ao campo social porque é, efetivamente, na relação com os outros que as emoções e os sentimentos emergem e é também nesse sentido que elas nos podem encaminhar para o bem-estar. As competências emocionais são, geralmente, competências sociais porque grande parte daquilo que conta são as coisas que ocorrem na esfera social e que têm um fundamento emocional extremamente importante. São competências que têm a ver com a empatia... Essas competências são absolutamente vitais. Não se pode ser um ser humano produtivo limitado pela insegurança. Ao promover-se o desenvolvimento emocional, pode proporcionar-se um maior equilíbrio entre o desenvolvimento cognitivo e o emocional, contribuindo-se, assim, para o desenvolvimento de uma cultura da paz.

Nota: A segunda parte desta entrevista será publicada no nosso próximo número.

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