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rss  Vol. XVI - Nº 262         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 21 de Outubro de 2014
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Círculo de Leitura Europeu - Lisez le Portugal

A COSTA DOS MURMÚRIOS - (Le rivage des murmures)
romance de Lídia Jorge lido por Luís Aguilar

Vitália Rodrigues

De Vitália Rodrigues



 

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Foto: Vitália Rodrigues
Assistência no «Carrefour des arts et des sciences» da Universidade de Montreal, na sessão do Círculo de Leitura Europeu integrado no projeto «Lisez L'Europe»

Realizou-se no passado dia 14 de março, no «Carrefour des arts et des sciences» da Universidade de Montreal, mais uma sessão do Círculo de Leitura Europeu integrado no projeto «Lisez L'Europe», dedicada esta a «Lisez le Portugal». Nesta sessão, Luís Aguilar, professor responsável pelos Estudos Portugueses e Lusófonos da Universidade de Montreal e docente do Instituto Camões, apresentou a obra «A Costa dos Murmúrios» («Le Rivage des murmures», em francês) da escritora Lídia Jorge, nascida no Algarve e considerada uma das grandes revelações da literatura portuguesa pós Revolução dos Cravos de 1974. Publicada em 1988, «Le rivage des murmures», uma das obras centrais da escritora, cuja ação decorre já nos finais da guerra colonial nos anos setenta, apresenta-se como uma espécie de testemunho vivido no momento da queda do «Portugal imperial de aquém e de além-mar em África, do Minho a Timor». Mais concretamente, a ação passa-se em Moçambique e tem como palco privilegiado o Hotel Stella Maris, local onde as mulheres dos oficiais permanecem quando os maridos partem para missões no mato. 

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Nesta sessão, Luís Aguilar, professor responsável pelos Estudos Portugueses e Lusófonos da Universidade de Montreal e docente do Instituto Camões, apresentou a obra «A Costa dos Murmúrios» («Le Rivage des murmures», em francês) da escritora Lídia Jorge

A personagem central é Evita, que vai para Moçambique, onde casa com um militar, dando-se progressivamente conta das mudanças que nele ocorrem e, consequentemente, das mudanças nas próprias relações do casal. Uma simples (para alguns complexa) coincidência: tal como a personagem principal da ação narrada e ficionada de, «A Costa dos Murmúrios», também Lídia Jorge se encontrava em Moçambique, onde colecionava murmúrios sobre o que ouvia (berros, resmunguices, lamentações, queixumes, afirmações categóricas, ordens definitivas, expressão de valores absolutos), via (através da nuvem esverdeada de gafanhotos), cheirava (aquele cheiro irreproduzível da tapeçaria de odores, que se separam, que se juntam), apalpava, o que sentia. Coincidências entre a autora e a autorada, que remetem a obra para a autobiografia? É de somenos, considera o leitor, aqui na pele de Luís Aguilar.


Se tudo coincide, se tudo é tão factual como a nuvem de gafanhotos, por que se fala de ficção? Para decifrar a realidade, considera o leitor, que acrescenta: é a realidade da realidade e citando Lídia Jorge: «A ficção é muito mais intensa que a vida». «De um rasgão no real», diria Eduardo Prado Coelho. E depois há a questão sobre quem narra, nomeadamente na primeira e na segunda partes da obra. Na primeira, no texto «Os Gafanhotos» o narrador é exterior à ação e fala na terceira pessoa sobre um conjunto de episódios protagonizados por Evita e questionados por Eva Lopo, duas décadas depois, que na segunda parte, lê, ela mesma a narrativa «Os Gafanhotos», reavivando a memória, tecendo ao mesmo tempo, na primeira pessoa, várias interpretações sobre a narrativa primeira fazendo «zoom», às vezes vários, sobre o mesmo troço da narrativa, aumentando ou aproximando cada imagem e ao mesmo tempo comentando as mais que certezas, as hipóteses do que se passou verdadeira e ficcionalmente. Corrigir a narração primeira? É o leitor, de novo, questionado. - «Deixe ficar aí, suspenso, sem qualquer sentido útil, não prolongue, não oiça as palavras. A pouco e pouco as palavras isolam-se dos objetos que designam, depois das palavras só se desprendem sons, e dos sons restam só os murmúrios, o derradeiro estádio antes do apagamento - disse Eva Lopo, rindo». Ri também o leitor. Ri Luís Aguilar, ele próprio protagonista da sociedade colonial, estando em Angola no tempo narrado por Lídia Jorge. «Assim não era possível atingir toda a verdade porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam» - disse um dia Carlos Drummond de Andrade. Poderia bem-estar a referir-se à obra «A Costa dos Murmúrios».

Durante a sessão, Luís Aguilar, serviu-se de algumas imagens do filme de Margarida Cardoso, com o mesmo nome, legendado em francês, e destacou as diferenças entre os dois produtos artísticos, o fílmico e o literário.

Os últimos trinta minutos da sessão foram dedicados ao debate e a respostas às questões levantadas pelos participantes que tinham lido o romance. Alguns dos presentes, que não tiveram a oportunidade de lê-lo antes, foram contagiados pelas retroações positivas e apaixonadas dos leitores e, este mês os já numerosos leitores de Lídia Jorge nestas terras da América do Norte vão, certamente, aumentar.

É de realçar a presença significativa e interessada de elementos da diáspora, que não pouparam elogios às várias narrações em apreço sublinhando a importância de iniciativas deste teor, como forma de internacionalização da cultura portuguesa, em geral. E, de facto, assim é: de quase ausente nestas terras a literatura portuguesa tem-se afirmado nesta terra nos últimos quatro anos.

É de sublinhar a presença da escritora portuguesa em dois acontecimentos literários de relevo em Montreal: a sua presença no último «Festival Internacional de Literatura de Montreal» em setembro último, no «Festival de Literatura Metropolis Bleu» em abril de 2010 e neste mesmo ano, nas comemorações do «Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor» de «Lisez l'Europe».

O «Círculo de Leitura Europeu» integra o «Projeto Lisez l'Europe», que se reúne todos os meses para discutir uma obra europeia contemporânea de relevo de um dos países membros: Alemanha, Catalunha, Espanha, França, Itália, Portugal, Suíça e muito em breve também a Áustria. Cada país é representado por um instituto e ou consulado. Portugal está representado pelo Instituto Camões, pelos Estudos Portugueses e Lusófonos da Universidade de Montreal e pelo Consulado-Geral de Portugal em Montreal. A próxima sessão realiza-se no dia 22 de abril, às 14h00, no «Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor», integrado no «Festival de Literatura Metropolis Bleu», no Hotel Opus, sito no 10 Sherbrooke Ouest de Montreal. São todos bem-vindos e pede-se a cada participante que traga um livro de literatura a fim de ser trocado por outro trazido pelos outros participantes.

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