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rss  Vol. XVI - Nº 256         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 01 de Março de 2021
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Palavras e ideias

Lixo, não!

Duarte M. Miranda

Por Duarte M. Miranda*, especial LusoPresse

Eu não fiquei nada admirado quando, há apenas alguns dias, a agência de notação financeira Fitch decidiu baixar a sua nota de apreciação sobre a dívida de Portugal para a categoria de «lixo». Afinal, uma outra agência, a Moody's, já tinha servido o mesmo tratamento ao nosso país em julho passado. Era uma questão de tempo antes que outras agências seguissem o mesmo caminho. Chocou-me, no entanto, a constatação da utilização do termo «lixo» nos Média para descrever a qualidade dos instrumentos financeiros que circulam com a promessa de re-embolso do Governo de Portugal. A Fitch estava a dizer aos investidores que não é uma ideia lá muito boa a de investir nesses instrumentos da dívida portuguesa. É como estivesse a dizer « Olhem que Portugal pode vir a ser um país "caloteiro"! »

O termo «lixo» é uma tradução/adaptação literal da expressão inglesa, «junk», utilizada para descrever o alto nível de risco de instrumentos financeiros de má qualidade, emitidos por devedores em má situação económico-financeira. Segundo a Moody's e a Fitch, este é agora o caso da dívida de Portugal. Prefiro a expressão francesa, «spéculative», utilizada quanto a ela nas mesmas circunstâncias, e que, a meu ver, é mais adequada do que «lixo» ou «junk» para caracterizar o aperto financeiro em que se encontram países como Portugal. Mas, a verdade é que a qualidade das obrigações do Tesouro de Portugal é muito preocupante para quem as tem em mão, e não é lá muito atraente mesmo para quem está considerando investir em situações de maior risco, que cheguem a oferecer rendimentos muito mais elevados do que aqueles pagos em obrigações de excelente qualidade. A título de exemplo, Portugal terá de pagar mais de 13 % nestes dias, para obrigações de 10 anos, enquanto a Alemanha e o Reino Unido só teriam de pagar menos de 2,5% para o mesmo prazo. Mas, mesmo assim é quem tenha nervos de aço...

Ai de quem achar, sem qualquer hesitação ou reserva que seja, por patriotismo ou por falta de capacidade de avaliação, que, afinal, o grande Portugal é sinónimo de investimento seguro! A realidade é que sem o apoio da UE, e em particular de países como a Alemanha ou a França, o nosso país tropeçaria sem qualquer dúvida, e não teria, provavelmente, como evitar de dar uma certa forma de calote aos seus credores e investidores nacionais e internacionais. Àqueles e àquelas que andam a rezar para que as coisas continuem mais ou menos «seguras» em Portugal, melhor seria, talvez, que rezassem para que a Alemanha e a França, por exemplo, não venham a ter seus próprios problemas financeiros e socioeconómicos, que os obriguem a desistir de ajudar as outras economias da União em dificuldade! Seria uma catástrofe tanto para Portugal como para outros países em dificuldade. Basta pensar na situação de países como a Grécia, e no que se está desenvolvendo mais recentemente em economias como as da Espanha e até mesmo da Itália. Quem diria?

Os noticiários falam de Portugal, da Grécia, da Espanha, da Itália, etc., para relatar as dificuldades económicas desses países. Parece-me que só se referem aos seus povos, os Portugueses, os Gregos, os Espanhóis, os Italianos e os outros quando há alguma demonstração de insatisfação e fúria por parte dos cidadãos desses países em relação à atuação e às decisões dos seus governos respetivos. Raramente referem-se ao povo para descrever as grandes dificuldades que, nos olhos dos Média, são problemas dos governos e dos governantes desses países. Que nada! Não é o Governo de Lisboa que está sentindo os principais efeitos das dificuldades financeiras e económicas que assolam Portugal. São os Portugueses, e mais particularmente ainda os que compõem as classes média e baixa do país. São os trabalhadores! São as pequenas e médias empresas! Ao fim de contas, se houvesse o tal calote, os dedos dos credores afetados apontariam para toda a nação, e não só para os governantes que, no fim, não terão conseguido dar conta do recado.

Vamos esperar que os Portugueses farão prova de grande lucidez, acompanhando com calma as medidas que o governo nacional virá tomando, sem deixar, no entanto, que decisões irresponsáveis e sem qualquer mérito venham afetar ainda mais as suas vidas e o seu bem-estar. Deverão, por outro lado, apoiar também, sem reservas, aquelas decisões do governo - quão duras e exigentes que possam vir a ser! - que serão necessárias para impedir que o país caia no calote e no isolamento internacional que o acompanharia. Mais ainda, os Portugueses não poderão, tão pouco, jamais perder de vista que, afinal, os problemas muito sérios que o país enfrenta não são só a culpa do governo e dos governantes, atuais e passados, mas são também a culpa de todo um povo que elegeu e tolerou gestores públicos incapazes e sem visão, durante décadas de irresponsabilidade, e que até se aproveitou dos benefícios passageiros que o laxismo da administração pública parecia proporcionar-lhe. Não faltarão proponentes de ações e gestos irresponsáveis e marginais, que só acrescentarão às dificuldades da sociedade portuguesa e a discórdias inúteis e fúteis. Não faltam já, sem dúvida alguma, anarquistas em ação e em mal de criar confusão no seio dos elementos mais frágeis da sociedade. Oxalá que venham a ser desmascarados e afastados sempre que apareçam, e oxalá que gente de bom senso e perspicaz, capaz de muito pragmatismo, venha a ocupar o maior espaço possível e incentivar um diálogo, talvez jamais visto, na sociedade portuguesa. Viva Portugal!

"Um povo que valoriza os seus privilégios acima dos seus princípios, cedo perde os dois.» Dwight Eisenhower

* Conselheiro para a internacionalização da Economia Portuguesa no Canadá.

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