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rss  Vol. XV - Nº 253         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 03 de Junho de 2020
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Organizado pelo LusoPresse

I Encontro dos Organismos Comunitários da Lusofonia do Quebeque

Com opiniões convergentes

Raquel Cunha

Reportagem de Raquel Cunha

Muito se disse durante o I Encontro dos Organismos Comunitários da Lusofonia do Quebeque. Terminado o debate corremos a saber as opiniões de vários intervenientes.  

Será verdade que nas malas de cartão as saudades já não têm lugar, que no espírito dos jovens luso-canadianos o Portugal antigo já não existe? Será preciso abrir as portas das nossas associações para manter viva a solidariedade e o espírito português? Concordam com a criação de um organismo transversal que coordene as atividades? O que pretendem fazer nesse sentido? Irá mesmo acontecer, ou ficará tudo no ar?

Para Marilda Carvalho, da Associação Arena das Artes, tudo passa pela Lusofonia. Hoje em dia com a emigração aberta no Brasil e com a nova vaga de emigração qualificada portuguesa,  só a cultura e a união entre as entidades podem fazer a ponte entre os continentes. Só ela pode divulgar o tão rico legado lusófono e nele fazer novas fusões. É preciso estar aberto e fazer com que haja vida dentro da comunidade, não só para quem é lusófono e procura a sua zona de conforto, mas também para os quebequenses para que se encham as casas, se criem novos polos de entretenimento e sobretudo que se passe a palavra. Só assim, através da cooperação entre os organismos, tantos com espaços tão pouco aproveitados, se pode rentabilizar o saber e a arte, a cultura como fonte intercultural e geracional. Realça que o encontro foi «proveitoso, tocaram-se assuntos centrais e procurou-se criar uma união em torno dos objetivos comuns da Lusofonia, em torno da abertura de uma nova perspetiva de futuro».

Já Francisca Reis, do Grupo dos Amigos de Rabo de Peixe defende que «o colóquio foi fabuloso», mas preocupa-a a escolha da direção do futuro organismo de cúpula. «Se vamos ter representantes de todas as associações, o que acho muito bem, devíamos também ter eleições abertas ao público não associado, uma vez que somos 60 000 portugueses em Montreal e todos deveriam ter uma voz. Para mim, as eleições da presidência desse novo organismo deviam estar abertas ao público». 

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Intervenção de Joaquina Pires
Foto: Jules Nadeau, LusoPresse

Joaquina Pires afirma que tudo o que foi dito «dá pano para mangas». Contudo foi um «debate civilizado, que deve ter continuidade e que agora é dever dos diversos organismos levar o plano adiante». Foram lançadas as hastes para a fogueira mas nada «está bem claro na cabeça das pessoas sobre o que fazer a seguir. Para que haja continuidade, as pessoas devem ir para o próximo Encontro bem preparadas, com propostas concretas». As organizações, segundo ela, devem também ter maior conhecimento do funcionamento dos organismos e sobretudo perceber como o sistema aqui no Quebeque funciona, para que não dependam somente de Portugal e dos portugueses.

Benjamim Moniz, da Casa dos Açores, concorda que a iniciativa foi positiva e que existe a problemática de que «se não se fizer nada, metade do que existe desaparecerá daqui a 10 anos». Por isso espera por continuidade, mas defende que deveria haver «não uma, mas duas casas: Uma dos Açores e outra do Continente e Madeira».

Já Manuela Pedroso, do Centro de Apoio à Família, afirma que apesar do Encontro ter sido positivo, é preciso ter em conta a dicotomia entre açorianos e continentais, já que esta é uma realidade dentro da comunidade que tem de ser ultrapassada, embora confesse que «ainda há um longo caminho a percorrer».

 

i encontro organismos 2
Foto: LusoPresse

É altura de procurar um jovem, só três compareceram no debate, e por isso falei com Luís Lopes, auxiliar na representação da Caixa Desjardins Portuguesa. O Luís afirma que «Há vontade de construir algo, de não ficar só na troca de ideias, mas é preciso gerar desses encontros algo de sólido, de mais concreto». Os assuntos debatidos foram de «extrema importância e estavam bem definidos». Foi um debate profissional e bem construído e sente-se feliz por ter participado. Contudo, critica o facto de algumas associações terem utilizado o espaço para fazerem auto publicidade, gastando tempo, «não era o lugar nem o momento para isso».

Defende a criação de um edifício e organismo comum e argumenta que se fosse há 10 anos não acreditaria nessa possibilidade, mas que agora, dada a grave situação da comunidade, «será mais que possível, será necessário para a sua própria sobrevivência».

 

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Foto: LusoPresse

Argumenta que como jovem não se sente identificado com a comunidade, que vive presa a um passado que para ele não faz sentido. Defende como a Marilda Carvalho que a cultura é a via da modernidade e a ligação à pátria, que com espetáculos, cinema, música e fusões culturais, os jovens podem frequentar os espaços associativos durante o fim de semana e sentirem-se dessa forma mais incluídos na cultura lusófona. Sim, realça a Lusofonia, porque acredita que precisamos do Brasil e da sua energia para sobreviver e para atrair gentes de todas as etnias aqui de Montreal.

Sentei-me na mesa onde estavam os representantes do Centro Comunitário de Anjou. A opinião foi mais uma vez a mesma. O Colóquio foi muito bom, muito bem organizado e deveria haver mais iniciativas do género. É contudo necessária a dita continuidade para que se faça algo de concreto. «É sempre bom falar das coisas, partilhar os problemas e procurar soluções. Vai ser difícil mas havemos de lá chegar. Se não houver princípio, não vai nunca haver fim» e esse, segundo eles, foi o princípio necessário para que se comece a caminhada na direção de um futuro melhor para a comunidade lusófona.

O Professor José Barros, representando a Missão de Santa Cruz, afirma estar contente com o projeto embora destaque o seu caráter «idealista». Mas acredita «piamente no sucesso deste evento, e na procura de soluções. Acredita sobretudo que é necessário fazer todos os possíveis para que resulte».

Outro jovem, sentado na mesa do Centro de Apoio à Família, argumenta que sim, que foi um encontro positivo, que é bom que se pense na construção de um edifício comum e realça a falta de jovens nos quadros associativos portugueses.

 

consul fernando brito, v.p.rosa, clementina santos, norberto aguiar
Cônsul-geral de Portugal, Dr. Fernando Brito, com Victor Pereira da Rosa, Clementina Santos e Norberto Aguiar
Foto: Jules Nadeau, LusoPresse

Por fim, consegui um momento com o cônsul-geral de Portugal em Montreal, o Dr. Fernando Demée de Brito, para quem o debate foi interessante e realça que depende dos portugueses da comunidade fazerem algo para melhorar a situação que vivem. «É deles que deve vir a vontade de mudar. Se houver vontade as coisas irão para a frente. É preciso sobretudo que haja diálogo. Foi aqui acesa uma pequena faísca, é necessário agora alimentar o fogo». Acredita ser essencial para a sobrevivência do legado português em Montreal que se fomente a «abertura de espírito e dos corações, que se abram as janelas para entrar ar fresco e as portas aos nossos jovens. É preciso também unir os açorianos e continentais, respeitar as diferenças e construir um polo lusófono comum. É que, na verdade, somos todos portugueses. Espero sinceramente que haja continuidade neste projeto».

 

i encontro organismos
Foto: LusoPresse

Interroguei todos os presentes e todos estavam dispostos a apresentar o que aqui foi proposto às direções das respetivas associações, argumentando que esperavam o voto positivo e que tudo fariam nesse sentido. Foi unânime a necessidade de revitalizar a nossa comunidade, de por ordem nas coisas e de criar algo em grande que nos represente. «Se os italianos e os gregos conseguiram, porque não nós? Porquê havemos de ser sempre os pequeninos? Não será altura de fechar as capelas e erguer por fim uma catedral?», sugeriu Francisco Salvador. Fica no ar a questão e rezamos aqui no LusoPresse que não termine tudo nas nossas tão conhecidas águas de bacalhau.

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