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rss  Vol. XV - Nº 253         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 03 de Junho de 2020
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I Encontro dos Organismos Comunitários da Lusofonia do Quebeque

Ainda é possível salvar o movimento associativo lusófono

Inês Faro

Reportagem de Inês Faro

A sala principal da mais antiga associação portuguesa em Montreal, na Saint-Urbain (Associação Portuguesa do Canadá), foi o sítio escolhido para pensar o futuro das associações lusófonas no Quebeque. O I Encontro dos Organismos Comunitários da Lusofonia do Quebeque - Problemas e perspetivas em debate, realizou-se no passado domingo, dia 16 de outubro, na Associação Portuguesa do Canadá. A adesão ficou acima das expectativas, com a participação de 18 das 21 associações contactadas. «É compensador ver que as pessoas responderam ao apelo e estão com vontade de olhar para o futuro tendo em conta a experiência do passado», destacou a moderadora do debate, Clementina Santos, Conselheira da Comunidade Portuguesa em Montreal. Marilda Carvalho da Arena das Artes trouxe a visão da comunidade brasileira e notou-se a ausência dos representantes da comunidade angolana, também convidados. O balanço foi positivo, tendo ficado já o compromisso para o II Encontro para breve, também dinamizado pelo LusoPresse.

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Carlos Vicente, Emído Santos, Adélia Ferreira, Anne Marie Rodrigues, Fernando Faria, Liberal Miranda
Foto: Jules Nadeau, LusoPresse

«Todo o esforço e investimento nesta iniciativa é uma forma de agradecimento à comunidade», disse Carlos de Jesus na abertura do Encontro. O diretor do LusoPresse salientou que esta palestra se insere no programa das atividades comemorativas do 15° aniversário do jornal (que se realiza a 1 de dezembro) e tem como objetivo responder às necessidades da comunidade. O cônsul-geral de Portugal em Montreal, Fernando Demée de Brito, também presente, reforçou a ideia da necessidade de dar um rumo ao futuro do associativismo em Montreal. O evento contou ainda com um convidado especial, o Professor Victor Pereira da Rosa, autor de 25 livros, entre eles, «Les Portugais du Québec» (1980). Com estudos na área da imigração e das comunidades portuguesas no Canadá, Victor Pereira da Rosa começou por destacar a importância e a necessidade do envolvimento dos jovens luso-descendentes na vida associativa. 

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José Freitas, Lina Pereira e Manuel Moura
Foto: Jules Nadeau, LusoPresse

 O Professor da Universidade de Otava deu os exemplos das comunidades portuguesas na África do Sul e na Venezuela onde só existem duas grandes associações portuguesas, como modelos possíveis ou alternativas para se pensar o movimento associativo no Quebeque.

 

Que futuro para os organismos de língua portuguesa no atual contexto?

A falta de participação dos jovens foi o primeiro tema debatido. A perceção das associações presentes foi semelhante: o que se passa hoje nas associações é também o reflexo do desinteresse dos mais jovens pela vida associativa e comunitária. Francisco Salvador da Associação Portuguesa de Lassalle defende que o afastamento da juventude se explica em parte pelo contexto em que cresceram. «Os filhos e netos dos pioneiros ainda participam na saudade e nostalgia portuguesa, mas os descendentes cresceram num outro contexto, com outra língua, outra cultura», disse. «Em vez do ai malhão, malhão preferem o rock e a música canadiana», acrescentou.

Para Lina Pereira, a responsabilidade pela falta de motivação dos jovens está também relacionada com o pouco espaço que lhes é dado. «Os mais velhos não estão prontos para aceitar a escolha dos jovens. Não há espaço para as ideias dos jovens. As festas são sempre iguais e eles não participam porque não são ouvidos», disse. Depois de apresentado o problema, alguns dos participantes partilharam caminhos possíveis baseados nas suas experiências.

 

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Carlos de Jesus, Raquel Cunha, Cônsul-geral Fernando Brito, Norberto Aguiar, Victor Pereira da Rosa, Inês Faro e Clementina Santos
Foto: Jules Nadeau, LusoPresse

Anne-Marie Rodrigues do Centro de Ação Sócio-Comunitária de Montreal (CASCM) defendeu a abertura por parte dos mais velhos no sentido de conquistar as novas gerações. «É necessário perguntar aos jovens o que eles querem, mostrar abertura e assim representar a sociedade de hoje». A influência dos pais também pode ser determinante, de acordo com o professor José Barros da Escola Santa Cruz e Lusitana. «Os pais têm um papel preponderante. No caso das escolas comunitárias os alunos são sobretudo filhos de ex-alunos», disse. Manuel Moura da Caixa Portuguesa partilhou ainda o exemplo de estratégias que a Caixa utilizou para conquistar novos membros, como por exemplo a atribuição de bolsas de estudo, sessões de educação para a poupança, etc. Emídio Santos do Clube Portugal Montreal falou ainda do Rancho Folclórico que conta com 80 jovens, como um exemplo de que há jovens motivados para participar em certas atividades.

Outro dos assuntos abordados neste ponto foi a falta e a formação de dirigentes. O representante da Associação de Pais de Montreal levantou o problema da sucessão na direção da Associação e da necessidade de se recorrer a um organismo que responda às necessidades de formação e apoio aos dirigentes associativos, preocupação, aliás, partilhada por outros participantes neste encontro. No seguimento deste debate, Clementina Santos confirmou que existe já um serviço deste género prestado pelo governo Português e que para mais informações as associações se podem dirigir à Conselheira das Comunidades.

No encerramento do primeiro ponto em discussão e numa tentativa de resposta à difícil pergunta «Que futuro para os organismos de língua portuguesa no atual contexto?», o Professor Víctor Pereira da Rosa deixou uma mensagem: «As associações precisam de abrir as suas janelas e as suas portas, há muito bolor».

Relacionamento dos organismos entre si.

 

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Intervenção de Joaquina Pires
Foto: Jules Nadeau, LusoPresse

O primeiro ponto levantado pelos participantes foi a comemoração do Dia de Portugal com atividades em Laval e em Montreal em simultâneo. Apesar do tom de diálogo personalizado, serviu como ponto de partida para discutir a problemática da coordenação de atividades entre associações. Manuela Pedrosa do Centro de Apoio à Família (CAF), salientou a falta de interesse das associações pelas atividades promovidas por umas e por outras. A indisponibilidade dos dirigentes e a impossibilidade de responder a todas as solicitações, sobretudo porque há muitas atividades que se sobrepõem, levou a conversa para a segunda alínea: refletir sobre quais os canais de comunicação mais eficazes. Concluiu-se que a personalização dos contactos seria a forma ideal, no entanto utópica, de interação entre as diferentes associações. O caminho deverá ser o de reforçar os laços entre os organismos, através, por exemplo, de uma espécie de «Livro do Galo» onde constassem todos os contactos pessoais dos dirigentes, assim como emails. Foi também sugerida uma plataforma virtual informal, como o Google Calendar, para que seja possível coordenar as atividades. Fundamental para já é trabalhar no sentido de optimizar a eficácia dos canais de comunicação entre as associações.

 

marilda carvalho, jorge pina
Intervenção de Marilda Carvalho
Foto: Jules Nadeau, LusoPresse

Norberto Aguiar editor do LusoPresse também interveio no debate para falar sobre as diferenças entre os organismos de «porta aberta» - os que têm espaço físico e atividades regulares; e os organismos de «porta fechada» - aqueles que funcionam pontualmente através da promoção de uma ou duas festas anuais. O representante da Associação Portuguesa do Divino Espírito Santo de Hochelaga defendeu que os dois tipos de organismos se deveriam unir e que os grupos que funcionam pontualmente deveriam recorrer às associações com espaço físico para promoverem as suas festas. O apelo foi comum a vários participantes, e ficou a mensagem de que a união e entreajuda seria assim o caminho para uma maior harmonia no mundo associativo lusófono.

Para o Professor Pereira da Rosa, um dos entraves a uma maior união e coordenação de associações é a polarização entre açorianos e continentais. Outro dos problemas, levantado também por Adélia Ferreira do CASCM é a quantidade de associações que se explica também pela vontade de todos quererem ser presidentes na sua freguesia, em vez de uma concentração de esforços e divisão de tarefas (modelo norte-americano).

Necessidade ou não de se criar um organismo de cúpula?

A questão é tão antiga como a existência das próprias associações, mas torna-se mais pertinente no contexto atual. A descentralização e o envelhecimento da comunidade portuguesa reflete-se no sucesso (ou insucesso) das associações. Se outrora havia público para os diferentes organismos, hoje o número reduzido de sócios e a falta de meios de subsistência das associações obriga a um reajustamento de prioridades e soluções.

 

ricardo santos jornalista do dn, ines faro do lp e carlos ferreira
O jornalista do Diário de Notícias, Ricardo Santos em companhia da nossa repórter Inês Faro e de Carlos Ferreira, do Café Ferreira
Foto: Jules Nadeau, LusoPresse

Este foi o ponto do debate que talvez tenha mobilizado mais os participantes. Desde a proposta de um organismo cultural de referência que dê ajuda às associações, ao projeto de um espaço físico que ao mesmo tempo albergasse todas as associações e respeitasse a sua individualidade, apresentado por Anne-Marie Rodrigues do CASCM. Nesse sentido, Emídio Santos do Clube Portugal de Montreal relembrou as tentativas falhadas de formar uma federação dos organismos portugueses e apelou uma vez mais à união e ao crescimento conjunto. A ideia foi também abordada por Manuela Pedrosa do Centro de Ajuda à Família que defendeu a necessidade de militar por um objetivo comum e acrescentou ainda uma solução possível para um organismo de cúpula assente num modelo de presidência rotativa, à semelhança do que acontece na Presidência da União Europeia. Fernando Salvador da Associação de Lassalle insistiu num organismo onde todas as associações estivessem representadas sob a direção de uma presidência independente.

O debate levantou ainda a discussão e a divisão de opiniões entre a necessidade da criação de um «organismo-mãe» que fosse representativo de todas as associações por um lado, e a assimilação de todas as associações num só organismo como por exemplo uma «Casa de Portugal» só ou numa «Casa de Portugal» e uma «Casa dos Açores», por outro. Houve quem contestasse esta ideia de assimilação, argumentando que é na alteridade que a criatividade tem espaço para crescer.

O cônsul Fernando Demée de Brito apelou uma vez mais no sentido da união para trabalhar para o bem comum e combater o imobilismo em que hoje se encontra o mundo associativo português. O cônsul de Portugal em Montreal reforçou a ideia de que um organismo de cúpula representaria não a perda de identidade das associações, mas, ao contrário, contribuiria para o reforço dessa mesma identidade através de uma estrutura que representasse e velasse pelos interesses de todos.

Notas finais

O I Encontro dos Organismos Comunitários da Lusofonia do Quebeque encerrou com unanimidade. Nesse sentido, o II Encontro servirá para traçar as linhas de um projeto. As três possibilidades de concentração de esforços em discussão serão: 1) a constituição de um organismo de cúpula que represente todos os organismos lusófonos; 2) a formação de uma Casa de Portugal; 3) a criação de uma Casa de Portugal e de uma Casa dos Açores.

O Professor Víctor Pereira da Rosa felicitou os participantes e a organização pelo sucesso deste I Encontro, destacando quatro pontos para reflexão: 1) um sistema de liderança em rotação no sentido de combater o egocentrismo que possa existir nalgumas direções; 2) a aquisição de um prédio que dê espaço a todas as associações, apesar do grande risco que esse investimento implicaria; 3) a integração das diferentes comunidades lusófonas neste processo, e por último, 4) a necessidade de se encorajar mais a participação das mulheres.

Finalmente, as grandes lições a tirar deste I Encontro dos Organismos Comunitários da Lusofonia do Quebeque foram que só através da colaboração dos organismos, da motivação e da persistência na prossecução de objetivos comuns é possível salvar o mundo associativo lusófono no Quebeque.

Nota:

O I Encontro dos Organismos Comunitários da Lusofonia do Quebeque insere-se no quadro das comemorações do 15° aniversário do LusoPresse. Encontram-se já à venda os bilhetes para a segunda atividade promovida pelo jornal. A festa que assinalará os 15 anos desde a fundação do LusoPresse realiza-se no dia 26 de novembro, às 19h00, no Château Princesse e contará com a presença do ex-jogador Pauleta, e os cantores Paulo Ramos e Sara Franco, entre outros convidados. Para mais informações contacte Ludmila Aguiar (514-575-4721) ou Anália Narciso (514-814-8067).

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Acordo Ortográfico

Apesar das resistências encontradas na imprensa portuguesa em geral, o LusoPresse decidiu adoptar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa pelas razões que já tivemos a oportunidade  de referir noutro local.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.
 
Carlos de Jesus
Diretor

 
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