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rss  Vol. XV - Nº 253         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 03 de Junho de 2020
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Arquipélago da saudade

Inês Faro

Por Inês Faro

Fugindo à pobreza, milhares de açorianos deixaram a sua terra em direcção ao novo mundo, durante a segunda metade do século XX. Espalhados pelo Canadá, E.U.A., Brasil e Bermudas, os emigrantes habitam hoje um espaço simbólico entre a terra que os viu nascer e o país que os acolheu. O Arquipélago da saudade é constituído por ilhas de memórias que mantém viva a identidade de um povo.

Entre a ilha verde e os montes brancos

Anos 60

ilha verde
Ilha verde. Vista da Lagoa, São Miguel. (ao lado do primeiro ponto, ilhas verde aos montes brancos)
Foto: Inês Faro, LusoPresse

Quando desceu do avião, Leonardo Soares, então com seis anos, nem sentiu o frio nas pernas destapadas, tinha trazido consigo o calor de São Miguel. Estávamos a 3 de Dezembro de 1964 e a família de Leonardo foi recebida em Montreal por grandes montes brancos. «Só depois é que percebemos que era neve», conta. Para trás tinha ficado não só o calor, mas a casa e o passado em Rosário da Lagoa. Leonardo não se lembra do que lhe foi dito quando entrou no avião e só durante a adolescência compreendeu as razões que levaram os seus pais a emigrarem para o Canadá. «Os meus pais contaram-nos mais tarde que passávamos muitas dificuldades nos Açores. Eles vieram para Montreal para darem aos filhos uma oportunidade de irem para a escola e de terem um futuro melhor», diz Leonardo. O rapaz de 6 anos foi um dentre milhares de açorianos que se mudou para o Canadá durante o período áureo da emigração açoriana dos anos 60.

«O contexto dos anos 60 e 70 incentivava à emigração», explica o sociólogo Eduardo Ferreira do Centro de Estudos Sociais da Universidade dos Açores. Entre os anos 1962 e 1971 conta-se a maior saída de açorianos: 80.537, entre os quais mais de 50.000 que partiram da ilha de Leonardo Soares, São Miguel (Mendonça e Ávila, 2002). Os problemas sociais e económicos que se vinham avolumando desde as décadas anteriores motivaram milhares de açorianos a procurar melhores condições de vida. «Durante muito tempo a estrutura económica assentou na agricultura, havia também uma distribuição muito desigual da propriedade e a economia açoriana dependia das estações do ano e de factores naturais [secas, terramotos, vulcões, etc.]», diz Eduardo Ferreira. «Verifica-se então uma situação generalizada de pobreza, juntamente com uma enorme precariedade laboral e a subida do nível de vida», acrescenta o sociólogo. «Quando os sapatos tinham as solas rotas, punham-se meias solas, e os fatos passavam do irmão mais velho para o mais novo», conta o advogado micaelense Carlos Melo Bento. «Sou do tempo em que se morria à mingua no cais da ilha de São Jorge porque não havia antibióticos na farmácia e o mar estava bravo», acrescenta. Contribuiu ainda para este cenário de grandes dificuldades, a depressão demográfica dos anos 50. O crescimento populacional tinha atingido o expoente máximo no século XX. «Haveria nessa altura cerca de 317.000 habitantes e hoje não chegam aos 250.000», explica Eduardo Ferreira, doutorando em Sociologia das Migrações. «A somar ao excesso populacional, havia também dificuldade em emigrar para os E.U.A., por via da redução das quotas de entrada e das exigências feitas aos potenciais emigrantes», diz Eduardo Ferreira. «Depois da Segunda Guerra Mundial, os E.U.A começam a abrir lentamente as suas portas, mas o sistema de quotas apenas acabou em 1965. Entretanto, nos anos 50 a América do Norte passa a ter uma alternativa», acrescenta. Em 1953, o Canadá assina um acordo com o governo português permitindo a entrada de emigrantes e em 1954 o grande Norte acolhe o primeiro contingente de açorianos. Leonardo Soares chegará ao Canadá dez anos mais tarde.

O rapaz de seis anos começa primeiro por trocar as calças curtas por calças compridas e grossas, casacos de inverno, luvas e um gorro. Estava cumprida a primeira parte da integração num país tão longe do seu. Depois de três meses a morar em casa da tia, os pais conseguem alugar uma casa na rua de Bullion, no coração do Plateau Mont-Royal, bairro português. Depois de uma tentativa não conseguida de entrar na escola francesa, começa os seus estudos no meio anglófono. Em pouco tempo nem o frio nem a língua eram um problema. Na rua a vida fazia-se em inglês, mas em casa os valores mantinham-se portugueses, sobretudo à hora da mesa, onde os petiscos açorianos estavam sempre presentes. Mais tarde, Leonardo entra na universidade Concordia e funda com os seus compatriotas a Concordia University Portuguese Students Association, uma associação cujo objectivo era pôr em contacto todos os portugueses e luso-descendentes a estudarem na mesma universidade. Forma-se como Engenheiro, profissão, aliás, escolhida por muitos açor-descendentes da sua geração. Hoje em dia Leonardo Soares é presidente da construtora ALTAPEX, que fundou em 1998. Responsável pela gestão de projectos, entre os quais alguns dos mais emblemáticos edifícios de Montreal - Montreal Holocaust Memorial Centre e Segal Centre for Performing Arts, entre muitos outros. A empresa de Leonardo factura entre 30 a 40 milhões de dólares em projectos de construção por ano, o que faz com que seja uma das empresas mais bem sucedidas do ramo na cidade. A vida do rapaz açoriano que com seis anos emigrou para o Canadá, podia ter sido diferente. Talvez por isso nunca se esqueça das suas raízes e se sinta «orgulhosamente português», como gosta de dizer. Casou-se com uma italiana e juntos têm um filho. Passou quase toda a sua vida em Montreal, mas continua agarrado à língua e à gastronomia portuguesa que marcaram a sua infância. Não fossem todos os compromissos e o que já conseguiu alcançar no Quebeque, Leonardo Soares até voltava de vez às origens. «Se tivesse disponibilidade deixava tudo e voltava para São Miguel. Sabe, é que em mais lado nenhum do mundo se podem encontrar 150 tonalidades da cor verde».

O loirinho do Operário

Anos 70

 

norberto em ponta delgada
Norberto Aguiar, o loirinho do operário
Foto: Arquivos

A emigração dos anos 60 e a diminuição das taxas de natalidade, ajudaram a resolver o problema que representava o excesso populacional das ilhas», explica Eduardo Ferreira da Universidade dos Açores. «A estrutura socioeconómica começa por isso a transformar-se. O sector agrícola perde alguma importância a favor do sector do comércio e dos serviços, o que permite o desenvolvimento da classe média, até então praticamente inexistente», diz o sociólogo. Ao mesmo tempo começam a notar-se as influências trazidas pelos emigrantes do continente norte-americano. «O American style começou a ser mimetizado nas ilhas, com influências na arquitectura, na gastronomia, no vestuário e na língua», como se pode ler na edição bilingue «Açores: Nove Ilhas, Uma História» da autoria de Susana Goulart da Costa.

«Em 1974, chega a Revolução de Abril e o fim de um longo período de ditadura. Os anos 74 e 75 representaram um momento de transição para os Açores», diz Eduardo Ferreira. As ilhas açorianas conhecem então outro pico do fluxo migratório, com 63.397 açorianos a emigrarem entre os anos 72 e 81 (Mendonça e Ávila, 2002).

 Norberto Aguiar tinha 16 anos quando os seus pais decidiram mudar-se para o Canadá, mas o filho mais velho acabara por ficar para trás. Estava perto de cumprir o serviço militar obrigatório e por isso não podia abandonar o país. «A partir dos 16 anos todos os rapazes tinham de ir para a tropa e isso significava que entre 85% a 90% iam depois para o Ultramar», conta. «Eu ouvia muitas histórias e ficava maldisposto só de pensar que podia ser mandado para a guerra», diz Norberto Aguiar. Enquanto esperava, o jovem da Lagoa tentava viver o seu dia-a-dia, dividido entre o trabalho no Varela e Companhia Lda, da grupo Bensaúde, e a jogar à bola no Clube Operário Desportivo. «Na freguesia eu era o único que tinha uma bola. Isso queria dizer que toda a gente me conhecia e falavam de mim. Alguns nem sabiam o meu nome, eu era o loirinho do operário», recorda com emoção a adolescência na sua terra natal.

Estávamos em 1974, ano em que tudo mudou para Portugal. «Depois do 25 de Abril, Vasco Gonçalves, então primeiro ministro, deu autorização para que os mancebos que tivessem familiares no estrangeiro os pudessem ir visitar», conta. «Tirei o passaporte e marquei logo a minha passagem para Montreal», recorda. Quis o destino que ele não fosse chamado para a tropa nas primeiras chamadas e, a dois de Março de 1975, Norberto Aguiar, aterra em Montreal. A ideia de voltar a ver a família e alguns amigos alegrava-o, mas a motivação maior para emigrar ainda estaria para chegar. Quando chega, recebe uma autorização para ficar apenas durante 13 dias. «A dois dias da data limite para regressar fui à emigração e lembro-me que me fizeram muitas perguntas, mas eu sabia que tinha algumas vantagens. Nessa altura eu já era pago por cheque no Varela e Companhia Lda e como tinha um amigo que trabalhava num banco, até tinha uma conta poupança. Podia provar que tinha forma de me sustentar no Canadá», conta. Norberto, ainda menor, consegue autorização para ficar um ano, sob a tutela do pai. Ao mesmo tempo, Anália Narciso, «a mulher mais bonita da sua freguesia», de acordo com Norberto, preparava também os papéis para poder emigrar com a avó para o Canadá. Infelizmente as complicações legais não facilitam a vida a Anália, que vê o seu pedido de emigração duas vezes recusado. Entretanto, Norberto começa a ficar desanimado com a vida em Montreal. «Tinha saudades dos amigos e sentia a falta da vida na Lagoa, só conseguia pensar em regressar», diz. «Mas fui ficando por cá sempre na expectativa de rever a minha noiva, isso sim, é que me fez querer vir. Eu sabia que a avó a ia trazer para Montreal, era a nossa oportunidade para estarmos juntos». Entretanto, Norberto toma conhecimento das greves sistemáticas em Portugal e como o prazo para estar fora da empresa já estava a acabar, decidiu ficar e, finalmente, casar-se com a mulher da sua vida! No entanto, a ideia de voltar persistia e o casal regressa à Lagoa em 1982. Estiveram sete meses, mas as coisas não correram como planeado. Foi então que decidiram regressar para ficar. «Não podíamos andar de um lado para o outro, tivemos de tomar uma decisão», relembra. «Já tinha filhas e começaram a surgir projectos interessantes aqui». Do campo, o «loirinho» passou a escrever sobre desporto, através da sua colaboração com o jornal a «Voz de Portugal», para onde também organizou diversas actividades. Anos mais tarde, Norberto decidiu fundar outro jornal comunitário, o Lusopresse, que comemora 15 anos a 1 de Dezembro deste ano. Depois de 36 anos a viver em Montreal, é ainda em português e a informar portugueses que Norberto Aguiar dedica os seus dias. Talvez isso, porque há coisas que a memória não apaga. «Nunca vou esquecer que fui em tempos o único a ter uma bola na minha freguesia e que ainda sou em parte o loirinho do operário».

A Autonomia e a entrada na U.E.

Anos 80

 

carlosmelo bento
Carlos Melo Bento no seu escritório em Ponta Delgada
Foto: Inês Faro, LusoPresse

Nos anos seguintes à revolução de Abril, os fluxos de emigração começaram a decrescer. «Quando chegamos a finais dos anos 70, há registos de apenas 2.000 a 3.000 pessoas por ano a emigrarem. Um número muito reduzido quando comparado com os dez anos entre 65 e 75, quando saíram das ilhas cerca de 215.000 pessoas», explica Eduardo Ferreira.

João de Melo, então com 21 anos, foi um «emigrante pós-revolução», chegando a Montreal em Janeiro de 1979. Veio sozinho, e trouxe na mala o sonho de reconstruir a sua vida num país «rico e onde havia mais trabalho», como tinha ouvido de familiares de emigrantes sobre o Canadá. Imediatamente se instalou no coração do bairro português e começou a trabalhar numa empresa onde 40% dos empregados eram açorianos. «De resto, todos os amigos eram portugueses. Íamos para o Café Portugal para ouvir o relato da bola pela rádio», relembra. Casou-se com uma açoriana, e um dia decidiram voltar às ilhas da saudade. Durante cinco anos e meio a família Melo foi feliz em São Vicente de Ferreira, Ponta Delgada. Perto da família e dos amigos, João até gostaria de ter ficado, mas a única filha, já nascida em Montreal, quis voltar. Para João de Melo e a mulher não fazia sentido a separação, por isso, fizeram as malas e regressaram para sempre ao Quebeque. Hoje mantém viva a memória portuguesa através do «polvo guisado, nas ervilhas ou favas à moda dos Açores, na feijoada com couve lombarda», conta. Embora já a viver longe do bairro português, João de Melo cultiva hábitos que trouxe da terra natal, como por exemplo a ida ao Café Central para beber uma bica portuguesa e ver os jogos de futebol com os amigos. E porque a família já vai na terceira geração, João faz questão de transmitir alguma da sua portugalidade aos netos. «Os dois falam português. O mais velho, de 13 anos, gosta muito do Ronaldo, mas é do Benfica. E o mais novo, de 11 anos, é do Porto... Aprenderam rápido, só não lhes consegui mesmo foi passar o gosto pelo Sporting», ri-se João.

O 25 de Abril marca também o início de um período de grande instabilidade política nas ilhas. «Depois da revolução tudo muda: a esquerda avança, a direita assusta-se. Estava a dar-se a independência a Cabo Verde e a São Tomé e havia um grupo de pessoas que entenderam que a independência dos Açores era uma forma de escapar ao governo comunista de Lisboa», conta Carlos Melo Bento. Foi o tempo de movimentos revolucionários como a Frente de Libertação dos Açores (FLA) em que o Carlos Melo Bento esteve envolvido. «Eu sempre defendi a independência, mas pacífica, nunca quis convulsões», conta. E na altura em que tinha sido finalmente proclamada a liberdade de expressão, Carlos Melo Bento, foi preso por defender os seus ideais. «Entraram em minha casa às duas da manhã, com metralhadoras, e levaram-me para a cadeia da Terceira. Trataram-nos como cães», recorda o advogado. A independência em que acreditava Carlos Melo Bento acabou por nunca acontecer, mas houve um afastamento, há tanto tempo desejado, do poder central. O período pós-revolução de Abril acabaria por resultar na institucionalização da Região Autónoma dos Açores, formalizada em 1976.

«Os Açores sofreram durante muitos anos com actuação do governo central tão longe das reais necessidades dos açorianos. Com a autonomia, tudo mudou: os açorianos passaram a ter uma maior capacidade para decidirem sobre si próprios», explica Eduardo Ferreira. As grandes diferenças são sobretudo evidentes ao nível das infra-estruturas. «Construíram-se portos, aeroportos, escolas, estradas, hospitais e nunca mais houve a pobreza vivida nos anos 50 e 60», diz Carlos Melo Bento. A entrada de Portugal na União Europeia e a integração dos Açores como região ultraperiférica, e a consequente entrada de fundos comunitários, contribuiu também para o desenvolvimento das ilhas. No final dos anos 80, a melhoria da qualidade de vida dos açorianos era incontestável. Como consequência, o elemento que contribuíra para alterar a estrutura socioeconómica, a emigração, estancou e as nove ilhas no meio do Atlântico passaram a assumir um novo rosto, o de região de imigração.

Imigração

Anos 90 até hoje

Se nos anos 60 e 70 as ilhas açorianas conheceram o seu período áureo da emigração, três décadas depois, os Açores transformaram-se num espaço de multiculturalismo. «Neste momento temos 86 nacionalidades representadas nos Açores», diz Graça Castanho, Directora Regional das Comunidades. Tal como aconteceu com Portugal Continental, também a imigração para as ilhas começou por ser sobretudo uma imigração pós-colonial, por pessoas oriundas do continente africano. Mais tarde e à semelhança com o que se passou no continente, vieram os imigrantes da Europa do Leste e Brasil. Por último, e uma vez mais acompanhando a tendência continental, chegaram os cidadãos da União Europeia e da Ásia. De acordo com o estudo encomendado pela DRG, «Perfis e Trajectórias dos Imigrantes nos Açores» levado a cabo por Gilberta Rocha, Octávio Medeiros e Eduardo Ferreira, investigadores do Centro de Estudos Sociais da Universidade dos Açores (U.A.C.), os imigrantes nos Açores representavam em 2009, cerca de 5 mil habitantes, ou seja, 2% da população açoriana.

Os Açores de hoje têm um novo rosto, mais moderno e cosmopolita. As grandes mudanças estruturais nas ilhas são no entanto muito recentes e há áreas ainda em vias de desenvolvimento. De acordo com o mesmo estudo do Centro do Estudos Sociais da U.A.C., «a estrutura social e económica dos Açores não pode ser caracterizada como típica de um país desenvolvido, pelo facto de que uma grande parte da sua população detém níveis de instrução bastante baixos e trabalha principalmente em profissões pouco qualificadas». No entanto, diz Eduardo Ferreira, a qualidade de vida é uma questão central. «Se há 20 ou 30 anos essa qualidade de vida poderia ser vista apenas pela proximidade do mar e pelo contacto com a natureza, hoje em dia esse aspecto mantém-se, mas temos muito mais infra-estruturas sem sofrermos do problema dos grandes centros urbanos», diz Eduardo Ferreira. «A vida é calma, o acesso aos bens é muito facilitado e temos uma vida cultural interessante, com muitas exposições e espectáculos, tanto nacionais como internacionais», acrescenta o sociólogo.

Também para Carlos de Melo Bento os Açores conhecem hoje um período «onde apesar de ainda haver diferenças significativas de ilha para ilha, a qualidade de vida em geral é excepcionalmente boa». «Vou muitas vezes à América e não sei quem é que ganha com a comparação. A casa da classe média hoje tem todas as comodidades de que goza a classe média americana. Se ainda me lembro de em criança saber os nomes de todos os donos de carros, isso hoje em dia é impossível», diz. «A educação é gratuita, como também o acesso aos tribunais e o acesso à saúde. Há mesmo açorianos que vêm dos E.U.A. cá para ir ao dentista ou porque o médico é de graça», acrescenta o advogado açoriano.

José de Almeida Melo, realça ainda que a grande riqueza dos Açores são também os açorianos espalhados por todo o mundo. Açorianos que transportam consigam uma história com mais de «cinco séculos de vivência entre o mar e a terra, entre a terra e o céu». Autor de mais de 25 livros, José de Almeida Melo defende que «o património cultural açoriano é de uma enorme riqueza, não só ao nível das estruturas físicas, mas do património imaterial, como as lendas, os mitos e as festas religiosas». «Basta ver como é que as comunidades da diáspora celebram ainda com tanto fervor o Espírito Santo e o Senhor Santo Cristo dos Milagres, assim como se fazem touradas à corda em tantas cidades americanas ou canadianas», diz o escritor.

Açorianidade no mundo

 

billhete
Bilhete de entrada para o Museu da Emigração

Hoje, são muitos os açorianos na diáspora que mantém uma ligação muito estreita com a sua terra natal. As deslocações às ilhas acontecem sobretudo na altura das férias como o Verão e o Natal, mas também se verifica uma grande afluência por altura das festas religiosas. Além dos laços emocionais, também as ligações institucionais desempenham um papel importante no sentido de alimentar a relação e a união entre todos os açorianos. «Do ponto de vista dos organismos do governo que são responsáveis por isso, o trabalho tem sido meritório», diz Eduardo Ferreira. Caso disso, são alguns dos programas da Direcção Regional das Comunidades. «O objectivo dos apoios e programas que promovemos é aproximar os açorianos e os açor-descendentes das ilhas», explica Graça Castanho, Directora Regional das Comunidades. Exemplos disso são os apoios às Casas dos Açores espalhadas pelo mundo; a Bolsa de Estudo «Dias de Melo» para alunos de famílias com dificuldades nos EUA e Canadá, para a entrada na universidade; o programa «Ao colo da língua portuguesa», que visa promover a leitura em português entre as segundas e terceiras gerações, através do fornecimento às famílias de um kit de livros infanto-juvenis; a promoção de vários campos de férias e de intercâmbio para jovens açor-descendentes; o programa «Saudade dos Açores» que tem como objectivo proporcionar aos açorianos com mais de 60 anos e com poucas possibilidades económicas, o reencontro com a sua terra natal; o LEGAL (Legalization Effort of the Government of the Azores and Logistics) que pretende ser uma plataforma para informar e sensibilizar e para a importância da legalização dos açorianos nos países de acolhimento, entre outros (para conhecer em detalhe os programas e apoios que abrangem os luso-descendentes no Canadá, consulte o documento no final do texto).

Também é nos Açores, na Ribeira Grande, na ilha de São Miguel, que se encontra um museu dedicado à emigração açoriana. «O objectivo é mostrar a influência das comunidades açorianas no mundo, através da exposição de objectos, cartas e testemunhos doados pelos açorianos na diáspora», diz Rui Silva, coordenador do espaço do museu. «Uma das ferramentas que poderá interessar aos ribeiragrandenses é a possibilidade de consultarem online a ficha de emigrante dos seus familiares», conclui.

Das ilhas da segunda metade do século XX já pouco se vê hoje nos Açores. A terra pobre e sem oportunidades que os emigrantes deixaram para trás quando se mudaram para o novo mundo, é hoje um espaço em franca evolução e com boas perspectivas de vida. E, sem que muitas vezes se apercebam, também os açorianos na diáspora contribuíram e contribuem para o desenvolvimento da sua terra natal. Seja através do legado cultural que transmitem aos filhos e netos ou pela partilha de modos de vida com os amigos e familiares que residem nas ilhas, como também pelo desempenho e capacidade de integração nos países de acolhimento que sempre demonstraram ao longo dos anos. Ao LusoPresse Carlos César, Presidente do Governo Regional dos Açores disse que «os nossos emigrantes serão tanto melhor açorianos quanto melhor canadianos, americanos, bermudenses ou brasileiros conseguirem ser». Também Berta Cabral, líder da oposição, enalteceu o contributo dos emigrantes açorianos. «Os Açores não são só estas nove ilhas, os Açores são os açorianos espalhados pelo mundo». Mas, mais importante, é como os Açorianos tanto da primeira, como da segunda e da terceira geração vivem a sua identidade açoriana. E mesmo de cá, deste lado do atlântico, com a vida construída «in english» ou «en français» guardam no coração as palavras de Natália: «Eu sou dos Açores / relativamente / naquilo que tenho / de basalto e flores».

Saiba mais em (a-z):

Associação de Imigrantes dos Açores: www.aipa-azores.com

Blogue de Carlos Melo Bento: carlosmelobento.blogspot.com

Direcção Regional das Comunidades: www.azores.gov.pt

Museu da Emigração: mea.cm-ribeiragrande.pt





Documento fornecido pela Direcção Regional das Comunidades

Programas e apoios de acordo com o Plano de Atividades da Direcção Regional das Comunidades, vocacionado para a América do Norte e alguns diretamente com as nossas comunidades açorianas no Canadá:

Prémio Jornalismo Comunidades  - Consiste em premiar os trabalhos jornalísticos que contribuam para a integração das comunidades emigrantes nas sociedades de acolhimento e das comunidades imigrantes na sociedade açoriana, que permitam estreitar laços, bem como promover a identidade cultural. Categoria destinada aos jornalistas das Comunidades Açorianas residentes na Bermuda, Brasil, Canadá, Estados Unidos da América, Havai e Uruguai nas áreas da imprensa (escrita e digital), da rádio, da televisão e do fotojornalismo com trabalhos que tenham sido publicados ou difundidos em órgãos de informação destes respectivos países, e que incidam sobre a temática da Emigração e Comunidades Açorianas, integração dos emigrantes açorianos nas respectivas sociedades de acolhimento, bem como, de âmbito geral, sobre a Região Autónoma dos Açores.

Plataforma de entendimento Jovens Açores Comunidades - PEJAC - Rede de Associações. (www.pejac.org

Bolsas Dias de Melo - Apoiar alunos pré universitários açorianos ou açor descendentes no estrangeiro. No âmbito das competências da Direcção Regional das Comunidades, o Governo dos Açores promove anualmente, através daquele departamento, a atribuição de bolsas de estudo destinadas a estudantes açorianos ou de ascendência açoriana, com residência fixa nos Estados Unidos da América ou no Canadá, com idades compreendidas entre os 17 e os 25 anos, que pretendam deslocar-se dos seus lares e dos seus países de residência para o estrangeiro, para frequentar estabelecimentos de ensino superior.

Conferência Metropolis - Realizou-se de 12 a 16 de Setembro, em Ponta Delgada -O Projecto Internacional Metropolis (www.metropolis.net) é um fórum criado com vista a unir pesquisa, política, e prática sobre migração e diversidade. O projecto almeja melhorar a capacidade de pesquisa académica, encorajar pesquisa sobre temas de relevância política relacionados com migração e diversidade, e facilitar a utilização dessa mesma pesquisa por parte de governos e associações não governamentais. 

Nos dez anos desde a sua criação, o projecto tem crescido e inclui investigadores, políticos, organizações não-governamentais e internacionais de toda a América do Norte e Europa, bem como uma presença crescente em África, na América Latina e em grande parte da região Ásia - Pacífico.

Ao Colo da Língua Portuguesa  -  No âmbito das competências da Direcção Regional das Comunidades, nomeadamente colaborar no ensino da língua portuguesa nas comunidades de origem açoriana na diáspora, o Governo dos Açores promove, através daquele departamento, a iniciativa «Ao colo da língua portuguesa», a qual pretende sensibilizar e incentivar as famílias açorianas, bem como os estabelecimentos de atendimento a crianças com idade inferior a 6 anos, a fazerem deste idioma a língua de eleição no lar e nessas instituições, junto das gerações mais novas. Nesse sentido, a Direcção Regional das Comunidades procede à oferta de conjuntos de livros infanto-juvenis e de divulgação dos Açores - kits - a instituições detentoras de berçários/creches, infantários e jardins-de-infância que recebam crianças açorianas ou de ascendência açoriana, e a crianças açorianas ou de ascendência açoriana, que tenham até 5 anos de idade, inclusive, e que tenham residência fixa nos Estados Unidos da América ou no Canadá.

Programa Reencontro de Famílias - Este projecto tem como público alvo os cidadãos deportados residentes na RAA e os familiares destes radicados nos EUA e Canadá, visando promover através da sua vinda aos Açores, o reencontro das famílias e o restabelecimento de laços familiares afectados com o repatriamento. Visa igualmente, sensibilizar a sociedade açoriana para esta problemática e contribuir para a desmistificação dos estereótipos sobre os cidadãos repatriados conotados a estigmas negativos, divulgando junto da sociedade civil os percursos de integração que os mesmos vivenciam.

O II Encontro de Emigrantes Regressados -  é uma iniciativa do Governo dos Açores, a ser desenvolvida pela Direcção Regional das Comunidades, no dia 27 de Agosto de 2011, no Concelho de Angra do Heroísmo. Os emigrantes regressados e aqueles que, nesta altura, se encontram de férias na ilha Terceira, são o público alvo, a quem esta acção se destina.

A primeira edição do Programa «De mãos dadas com os Açores», decorreu de 02 a 09 de Abril, numa iniciativa inédita e inovadora, do Governo Regional dos Açores, através da Direcção Regional das Comunidades, no âmbito dos projectos de estreitamento dos laços existentes entre os Açores e a comunidade açoriana na Diáspora.  Este projecto, cujo público-alvo são cidadãos de origem açoriana, portadores de deficiência, que se encontram radicados nos EUA e Canadá, visa proporcionar aos seus participantes uma visita aos Açores, possibilitando-lhes o conhecimento da realidade açoriana actual e o reencontro com familiares e amigos.

Programa Saudades dos Açores 2011 - Esta iniciativa visa proporcionar a cidadãos nascidos nos Açores e emigrados nos Estados Unidos da América, Bermudas, Canadá e Brasil, com 60 ou mais anos de idade e que não visitem o arquipélago há mais de duas décadas, por motivos de ordem económica, o reencontro com a sua terra natal, bem como o contacto com familiares e amigos.

Campo de Férias Intercultural - Semana dedicada à interculturalidade com jovens do ensino secundário da RAA e jovens luso-descendentes.

CMCA - Conselho Mundial das Casas dos Açores  - Reunião Internacional que junta todo as Casas dos Açores.

Simpósio Internacional «Direitos Humanos e Qualidade de Vida nos países e comunidades de Língua Portuguesa.

Publicação do Estudo Emigrado Regressado - Lançado em Setembro de 2011 e que retrata a situação dos emigrantes regressados à Região Autónoma dos Açores

Programa LEGAL - Legalization Effort of the Government of the Azores and Logistics -  pretende consciencializar os emigrantes açorianos nos Estados Unidos e Canadá para o problema da deportação, tentando alertar para a necessidade de se naturalizarem evitando assim possíveis situações dessa natureza. Este programa deverá ser posto em prática pelas próprias forças vivas das comunidades através de acções de voluntariado cujos objectivos serão contribuir para uma maior segurança, qualidade de vida e integração dos emigrantes e seus descendentes. A DRC disponibiliza diversos materiais para a realização das campanhas de sensibilização que poderão ser utilizados como ferramentas no trabalho de voluntariado a desenvolver pelas várias organizações comunitárias.

Portal comunidadesacoriana.org - www.comunidadesacorianas.org - portal com diversas informações e estudos sobre as Comunidades Açorianas dispersas pelo mundo.

 

Rede Internacional de Apoio - rede de instituições de serviço social das Comunidades e Açores que visa promover a reintegração dos emigrantes regressados compulsivos.



Protocolos com diversas Instituições:

  • Universidade de Montreal
  • Casa dos Açores do Ontário
  • Casa dos Açores do Quebeque
  • Casa dos Açores do Winnipeg

A Portaria n.º 68/2008, de 11 de Agosto - É um regulamento que estabelece o sistema de apoios a conceder pela Direcção Regional das Comunidades, aos promotores individuais ou colectivos, sem fins lucrativos, que desenvolvam actividades nas comunidades emigradas e regressadas.

A Portaria n.º 25/2000, de 6 de Abril - É um regulamento de apoios a conceder para as visitas de estudo dos estabelecimentos de ensino das comunidades emigradas no estrangeiro aos Açores e dos estabelecimentos de ensino dos Açores às comunidades.

Edição: 20 de outubro de 2011 - Vol. VII - Nº 253 - Publicado a 31 de outubro de 2011

O tempo no resto do mundo

Arquivos

Acordo Ortográfico

Apesar das resistências encontradas na imprensa portuguesa em geral, o LusoPresse decidiu adoptar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa pelas razões que já tivemos a oportunidade  de referir noutro local.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.
 
Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2020