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rss  Vol. XV - Nº 253         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 03 de Junho de 2020
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A volta ao mundo em crioulo

Do Cabo Verde, passando por Montreal, Carmen Souza vai cantar até Macau

Jules Nadeau

Texto e fotos de Jules Nadeau

Encontramo-nos na entrada de um hotel da avenida do Parc. Poucos minutos depois da sua chegada do aeroporto de Dorval. «Um pouco cansada», mas muito sorridente naquele dia cheio de sol. Vestida de cores vivas. Cabelos longos entrançados, cor de especiaria. Muito grande e muito direita. Carmen Souza acaba uma longa digressão em 14 salas, incluindo a Califórnia e Vancouver. Ainda duas atuações no estado de Nova Iorque antes de voltar para Londres. Depois, reparte para a Turquia e desloca-se até Macau do 21 ao 27 de outubro.

carmen sozinha
Carmen Sousa
Foto: Jules Nadeau, LusoPresse

A lusa cabo verdiana já veio cantar a Toronto há 2 ou 3 anos e aproveitou para fazer uma breve incursão no nosso «Montreal europeu», onde ela se sentiu como em casa. «Um dia em que fazia terrivelmente quente, mais de 100 graus F.», recorda.

Tudo em crioulo

Como definir o estilo da artista? «Misturo o tradicional com a improvisação e o jazz», apoia. Alguns críticos têm-na comparado a Eartha Kitt e outros a Billie Holiday. Uma coisa é certa, ela inspira-se dos virtuosos do jazz tradicional como Thelonius Monk, Ella Fitzgerald e outros grandes nomes.

Carmen Souza compõe ela mesma as suas canções. «Cem por cento em crioulo, língua musical muito rica com sotaques variando de uma ilha para outra» e que ela conservou preciosamente apesar de ter nascido e sido criada em Lisboa. «Os Portugueses compreendem-na?» Ela responde pela negativa. Além disso, as palavras estão muitas vezes truncadas. No seu primeiro álbum intitulado Ess ê nha Cabo Verde (2003), há títulos que se adivinham facilmente: Mar na Corazon, Nha Deus, Vaidade ê leviandade.

Do meu lado, era inevitável evocar o nome da sua compatriota Cesária Évora durante a entrevista. Respeitando a diferença, claro. «Tive sentimentos confusos ao saber a notícia (que Cesária Évora abandonava a cena), confia. Por um lado, estava triste. É uma tão grande artista. Por outro lado, para uma pessoa da sua idade andar na loucura das digressões, acho que é altura dela se repousar. É um grande nome da música do meu país. Pôs o Cabo Verde no mapa-mundo», diz a compatriota enquanto bebe um golo de café.

Nascida em Lisboa de pais cabo verdianos, ela fala com carinho da cidade. «Cresci do outro lado do Tejo, em Almada. Fui à universidade num sítio magnífico, a Lapa. Ia de manhã cedo de barco e depois de elétrico. Era lindo ver o sol nascente. Estudei inglês e alemão durante um ano. Lisboa é uma cidade que me é familiar». Falta-nos o tempo para ela se por a falar de Santo Antão (ao norte de São Vicente), a grande ilha de Cabo Verde, a mais montanhosa e a mais verde. A canção Sodade fala da ausência do pai que partiu por muito tempo num barco de pesca.

Instalada em Londres

carmen com diretor
Carmen Sousa, Carlos de Jesus e Vitória de Jesus

A jovem de 30 anos habita agora Londres (daí o seu excelente inglês) atraída por um «polo de culturas inspirador e variado». Ponto central para viajar para Paris ou Bruxelas, as capitais vizinhas onde o pequeno conjunto se produz com frequência.

Nessa mesma noite, o nome de Carmen Souza aparecia no placard da Astral, rua Sainte-Catherine. Acompanham-na alguns músicos oriundos da Nigéria e do Brasil. Na guitarra baixo, o seu mentor Theo Pas´cal, também da capital portuguesa, foi ele que teve um papel importante na sua formação.

Apesar de ser pouco conhecida no Quebeque, ela atraiu alguns aficionados na sala do Quartier des spectacles. Poucos lusófonos, pareceu-me. Com as incitações da vedeta a repetir «África», a assistência foi aquecendo, lenta mas seguramente.

O próximo álbum, Carmen Souza, Live in London, vai ser lançado em Londres no mês que vem. Uma parte dos lucros será oferecida à Unicef. O seu elo vital e insubstituível com os jovens. Pessoa duma grande espiritualidade, cantou quando ainda muito jovem num coral gospel.

Por nos ter amavelmente proposto esta entrevista, LusoPresse agradece a Ludivine Dubus de Spectra.

O blogue desta artista que é preciso conhecer é:

www.carmensouza-uk.blogspot.com

Ler aqui a versão francesa
O tempo no resto do mundo

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