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rss  Vol. XV - Nº 251         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
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Festival Internacional de Literatura

Viagens com sentido

Inês Faro

Por Inês Faro

«O que nos dá a matéria para a literatura, quando falamos em viagens, é o encontro com alguns elementos que por serem tão fortes nos colocam um desafio ontológico profundo que nos obriga a escrever», disse Lídia Jorge. «Viajar à volta do mundo» foi o tema da mesa-redonda que reuniu a autora portuguesa, o escritor catalão Carles Casajuana e Fábio Geja de Itália, no passado sábado, dia 17 de setembro, na Maison des Écrivains.

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Lídia Jorge e Luis Aguilar no decorrer das sessões levadas a efeito no decorrer do Festival Interncional de Literatura de Montreal
Foto: Vitália Rodrigues

Pela segunda vez em Montreal, a escritora portuguesa participou no «Lisez L'Europe» (Ler a Europa), uma atividade da 17ª edição do Festival Internacional de Literatura (FIL), que se realiza de 16 a 25 de setembro em diferentes espaços culturais da cidade.

Mais do que as grandes viagens, Lídia Jorge realçou a importância das pequenas deslocações e o sentido que elas têm - ou não, na nossa vida. A escritora portuguesa recordou uma viagem de comboio que fez sozinha entre Nápoles e Veneza. Quando um grupo de jovens decidiu sair um deles não quis levar o seu saco consigo. E a escritora assim prosseguiu a viagem até Veneza, sozinha, a olhar para o saco do rapaz. «Isso era o sentido daquela viagem!», disse. «O que é que aquele saco fazia ali à minha frente?», questionou-se. «Foi esse momento que me permitiu imaginar, foi esse acontecimento que deu sentido àquela viagem», concluiu.

Literatura como reconciliação

 

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Lídia Jorge em companhia doutros escritores durante o festivl da Litertura

A mesa-redonda serviu também de pretexto para falar da história e cultura recente de Portugal. Lídia Jorge lembrou a guerra colonial, pano de fundo do seu terceiro romance, «A Costa dos Murmúrios», passado em Moçambique no início dos anos 70. O tema da viagem foi desta vez explorado doutra perspetiva, como regresso ao passado através da memória. «Cada vez que visitamos um evento passado visitamo-lo de forma diferente, acrescentamos coisas, retiramos outras», disse a escritora. «O que aconteceu com este livro é que as histórias que se contavam não eram já as histórias vividas, eram murmúrios, por isso era preciso começar a escrevê-los», explicou.

Testemunha da guerra colonial, Lídia Jorge demorou dez anos a escrever sobre esta parte da sua vida. «Foi uma experiência tão forte que durante muito tempo não conseguia encontrar o ponto para começar a escrever. Escrevi três livros antes e só depois este. O impacto foi demasiado grande e importante para ter começado logo a escrever», contou.

«Nunca escreveria este livro se não tivesse sido testemunha de algumas cenas, como ver jovens bem-parecidos e felizes que partiam de manhã e já chegavam mortos», disse. «É um traumatismo íntimo, sobretudo porque estas pessoas morriam por uma causa falsa. Era uma guerra estúpida», lamentou Lídia Jorge.

A escritora falou ainda da importância da obra de autores como Pedro Rosa Mendes (português), Mia Couto (moçambicano), Manuel Rui e Pepetela (angolanos), para a compreensão e diálogo sobre este tema sensível da memória coletiva dos três países. «Estes livros permitiram criar uma espécie de paz entre os povos», disse Lídia Jorge. «A literatura neste caso com o desejo de ultrapassar o conflito; a oferecer uma possibilidade de reconciliação», concluiu.

Recorde de vendas

Depois de ter participado no ano passado no Festival Internacional de Montreal Metropolis Bleu, Lídia Jorge notou um crescente interesse em Montreal pela literatura portuguesa. «Há um público que está interessado nas coisas portuguesas além da comunidade ou dos universitários». «As pessoas falam das atividades em que Portugal já aparece. Pelo menos há a ideia de que Portugal não é um deserto», disse. Surpreendentemente, os livros da escritora portuguesa foram os mais vendidos do festival, provando o interesse que a cultura portuguesa tem despertado nos habitantes de Montreal e a importância de promover este género de iniciativas.

Além da mesa-redonda, houve ainda a exibição do filme «A Costa dos Murmúrios», de Margarida Cardoso, baseado no livro homónimo da escritora, no dia 15, no Goethe Institut. A casa cheia contava com a presença de Lídia Jorge, mas o atraso de 5 horas do voo, impediu a autora de estar presente. No domingo, 18, Lídia Jorge participou ainda num rali literário, «Odyssée dans la ville». O percurso iniciado na Casa Minhota durou cerca de quatro horas e contou com 45 participantes divididos entre dois grupos. Lamentou-se, no entanto, a falta de adesão das pessoas da comunidade portuguesa.

A inclusão da literatura portuguesa pelo terceiro ano consecutivo neste festival através da participação da escritora Lídia Jorge foi uma colaboração dos Estudos Portugueses e Lusófonos da Universidade de Montreal com o Consulado-Geral de Portugal em Montreal e com o patrocínio do Instituto Camões. As anteriores edições contaram com a presença do escritor Francisco José Viegas (2010) e um passeio literário pelos 12 bancos instalados na Boulevard Saint-Laurent dedicados a autores portugueses (2009).

Saiba mais sobre a autora em:

www.lidiajorge.com

www.festival-fil.qc.ca

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