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rss  Vol. XIV - Nº 250         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 23 de Janeiro de 2020
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Palavras e ideias

Bagagem de férias

Mais sobre a nossa SATA...

Duarte M. Miranda

Por Duarte M. Miranda, colaboração especial LusoPresse

duarte.miranda@videotron.ca

Na minha última crónica - já lá vão nove semanas! - partilhei com os leitores deste jornal a questão das dificuldades que nós enfrentamos quando decidimos aproveitar as férias anuais para visitar a terra-mãe, Portugal. Essas dificuldades encontram-nas de maneira mais expressiva ainda os Açorianos residentes no Quebeque, que durante a maior parte do ano não têm ligação direta com os Açores a partir de Montreal. Somos clientes prisioneiros da SATA que bem se aproveita da falta de mobilização entre nós, e da falta de consideração da classe política dirigente da Região Autónoma dos Açores pelos «calafonas» de Montreal. Eles bem que se estão lixando connosco. Não esqueçam esta realidade, por favor, que poderá vir a ser um elemento importante e virar à nossa vantagem: ELES BEM QUE SE ESTÃO LIXANDO CONNOSCO! Há quem diga mesmo que elementos da alta direção da SATA sonham com o dia em que não terão que operar os poucos voos que saem de Montreal entre os meses de Junho e Setembro.

Redução de serviço

Minha esposa e eu decidimos então aproveitar a generosidade da nossa empresa aérea açoriana, e embarcamos para Ponta Delgada num dos seus voos diretos a sair de Montreal no mês de Julho. Viagem agradável, com um serviço impecável oferecido pela tripulação a bordo. Viajamos em «executiva» e mais uma vez constatamos a redução na qualidade da oferta. As refeições, mesmo se aceitáveis, estão longe da qualidade que nos era oferecida há três ou quatro anos atrás. Detalhes: foi-se a toalhinha de algodão; foi-se o guardanapo de algodão; foi-se o queijinho; foi-se o chocolatinho; etc. Serviram-nos o jantar com talheres de plástico branco, mas do tamanho e da qualidade que disponibilizam às crianças nas festas de aniversário. Como eu, ninguém se queixou da falta de consideração e, a meu ver, até de respeito. Somos demasiadamente dóceis e tolerantes. Eu estava para mandar um conjunto desses talheres ao presidente da SATA ao chegar a Ponta Delgada, mas achei que só serviria para aumentar a minha pressão arterial e o meu nível de frustração.

Prejuízo de 3,5 milhões

Estava eu ruminando a minha constante frustração a respeito da nossa SATA, quando deparei com a notícia de que a companhia tinha sofrido um prejuízo de 3,5 milhões de euros em 2010. Essa notícia que me havia escapado, tinha saído meia dúzia de dias antes de minha saída para Ponta Delgada. A culpa do tal prejuízo, segundo a direção da SATA? O aumento do custo do combustível; uma redução do preço das passagens em alguns mercados e... as cinzas do vulcão islandês Grimsvötn. Ainda bem que não temos neve entre Junho e Setembro em Montreal, senão o prejuízo teria sido maior ainda... Mas a notícia que mais me interessou mesmo foi a de que em 2010, a rota da SATA entre Funchal e Porto Santo deu um prejuízo de 6 milhões de euros. Sim, sim! A transportadora açoriana arcou com um défice de seis milhões de euros para prestar serviço nessa rota do arquipélago da Madeira. Aí está a explicação da falta de serviço e atenção aos «calafonas» de Montreal. Temos de contribuir para aliviar as consequências desse prejuízo, mesmo se parece que o défice de 6 milhões de euros é inteiramente da responsabilidade do outro governo, o de Lisboa. Aqui não posso verbalizar os meus sentimentos de maneira totalmente transparente...

Comparação de preços

Não vou voltar a este assunto nem tão cedo, a não ser que apareça alguma circunstância maior, o que vai satisfazer certos indivíduos. A falta de mobilização da nossa comunidade é muito frustrante, e denota uma certa fraqueza coletiva da nossa parte. Só deixo mais esta informação, a título de serviço público: se quiser ir de Toronto a Lisboa, saindo a 12 de Novembro e regressando a 2 de Dezembro, terá de pagar $777,08; uma viagem de Toronto para o Porto, saindo a 12 de Novembro e regressando a 2 de Dezembro, custar-lhe-á $925,60; mas, se preferir ir de Toronto para o Funchal, saindo a 11 de Novembro e regressando a 2 de Dezembro, o custo da passagem será de $953,09. Não se esqueça de acrescentar o custo da passagem aérea entre Montreal e Toronto, para estabelecer o custo real de um destes passeios. Mas ia-me esquecendo, se preferir ir para Ponta Delgada, saindo de Toronto no dia 11 de Novembro e regressando a 2 de Dezembro, o seu custo será de $1003,44, mesmo assim mais barato do que os $1272,99 do custo da passagem se preferisse sair a 12 de Novembro e regressar na mesma data de 2 de Dezembro. E, não se esqueça que estes custos não incluem o preço da passagem entre Montreal e Toronto. Não sei se deu para perceber? Quando eu penso que o meu filho foi de Atlanta para Xangai, na China, ida e volta, por menos de $1000 no mês passado. Só teve de arcar com o custo da passagem de autocarro de Montreal para Atlanta. Mas, como eu dizia, não volto mais a este assunto, a não ser que me provoquem...

Portugueses de valor que nos deixam

Durante o meu voo para Ponta Delgada, li a notícia nos jornais portugueses do dia sobre a morte da Dra. Maria José Nogueira Pinto, deputada portuguesa pelo PSD. Eu conhecia o nome, mas pouco ou nada sabia sobre a sua carreira e sua contribuição política. Deparei-me com uma grande Portuguesa que, infelizmente, foi arrancada à vida ainda muito jovem (59 anos), e num momento em que teria tanto a contribuir a Portugal e aos Portugueses neste clima de crise que o país atravessa.

O escritor Vasco Graça Moura dizia dela, numa crónica que escreveu para o Diário de Notícias que «Era mulher sem ambiguidades nem falhas de coragem.» Uma descrição que, entre tantos outros elogios que foram ditos e escritos a seu respeito após a sua morte, dá-nos uma boa ideia do valor da mulher que se foi. Um incidente marcante de sua atuação como deputada terá sido o seu diálogo a certa altura nos anos 90, com um opositor no Congresso, António Lobo Xavier, a quem disse, durante um debate envolvendo os dois: «Você sabe que eu sei que você sabe aquilo que eu sei!» Que mais acrescentar para descrever esta senhora portuguesa de quem eu me «enamorei» intelectualmente, mas tardiamente. A Dra. Maria José Nogueira Pinto também escrevia uma crónica semanal no Diário de Notícias. Sua última crónica, ela acabou de redigi-la na terça-feira, 5 de Julho de 2011, para ser publicada na quinta-feira, dia 7 de Julho de 2011, um dia depois de falecer. Foi o destino! Sofrendo de uma doença terminal, ela sabia que essa seria a sua última comunicação escrita para seus leitores. Uma crónica de uma grande lucidez, cheia de generosidade, e que ela concluía com a seguinte frase: «Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu Pastor, nada me faltará.» Que Deus a tenha bem perto de Si.

António Vallacorba

No nosso meio, perdemos também um bom amigo, um grande Português, um grande Açoriano, o saudoso senhor António Vallacorba, diretor do jornal A Voz de Portugal. Não vou descrever aqui as circunstâncias dessa partida, que o destino e, sem dúvida, a vontade de Deus fez com que fosse acompanhado da sua querida esposa, Da. Clotilde, que faleceu dois dias depois dele. O senhor Vallacorba já se encontrava debilitado por uma doença grave há algum tempo. Homem de caráter, ele bem que lutou para tentar agarrar-se a esta vida por mais algum tempo, mas não resistiu.

Eu conheci o senhor António Vallacorba há vários anos. Não tínhamos uma relação de grande intimidade, mas regularmente tínhamos a oportunidade de dialogar sobre vários assuntos de interesse mútuo. Creio que havia também entre nós um grande respeito para o outro, mútuo. Era um homem de convições e de opiniões bem estabelecidas. Não tinha «papas na língua», mas não faltava ao respeito a ninguém, e sempre usava de sua força de caráter para defender os melhores interesses da nossa comunidade. Orgulhava-se em ser Português mas, mais ainda, declamava alto e forte suas raízes açorianas. Era um homem de uma grande fé. A nossa comunidade perdeu um de seus membros mais dedicados à causa comum e dos mais valiosos. Como a Dra. Maria José Nogueira Pinto, ele também era um indivíduo determinado e intelectualmente forte. A certa altura, olhando sem dúvida para o atalho que gostaria de tomar na sua frente, ele escreveu:

«Eu não sou daqui. vou para trás;

quero ir cheirar o micaelense ananás

e o meu próprio peixe apanhar.

Ficai-vos com os Bourrassas e os Trudeaus,

com os Lévesques, Mulroneys e Drapeaus

que eu já estou farto de os aturar!»

Que Deus os tenha, o senhor António Vallacorba, e o amor de sua vida, sua esposa Da. Clotilde.

"De nada serve morrer: é preciso morrer na devida altura.»

Jules Renard, novelista e dramaturgo francês

* Conselheiro para a internacionalização da economia portuguesa no Canadá.

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Apesar das resistências encontradas na imprensa portuguesa em geral, o LusoPresse decidiu adoptar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa pelas razões que já tivemos a oportunidade  de referir noutro local.

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