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rss  Vol. XIV - Nº 250         Montreal, QC, Canadá - domingo, 09 de Agosto de 2020
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Dossiê escola da língua na Comunidade

A Fala de Ser português

Entrevista de Raquel Cunha

Foi assim, do nada, que surgiu o boato dentro da Comunidade de que a Escola Lusitana não abriria este ano por falta de alunos. Daí a refletir sobre a importância da escola e do ensino do português foi um passo. O LusoPresse sentou-se numa conversa intimista com o Professor José de Barros, onde ouvimos as suas preocupações e a situação atual da escola e do ensino do português.

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Foto: Raquel Cunha, LusoPresse
Existem pessoas com alma de professor e o Prof. Barros é sem dúvida uma delas

Nesta re-entrada, com o novo ano letivo à porta, convém lembrar a importância de se falar Português. Vamos na terceira geração de alunos, na sua maioria filhos e netos dos que cá estudaram. Embora nascida cá e de identidade canadiana, esta geração sente mais ligação a Portugal quando frequenta a escola, porque a língua é «uma expressão da cultura, um veículo que nos liga a ela, que corre dentro dela, unificando-a e fazendo a ponte entre cá e lá».

Existem pessoas com alma de professor e o Prof. Barros é sem dúvida uma delas. Nasceu para ensinar, para partilhar e para ajudar na proletarização do saber. Cresceu em Portugal durante a época de Salazar e por isso, procurou sempre viajar durante as férias; «sair para respirar, para ver a democracia que enraizava-se nos outros países». Essa procura pela liberdade e respeito democrático foi sempre o motor da sua vida. Foi o que o trouxe até cá e o que ainda hoje defende: «a democracia aprende-se na escola» e «sempre que é preciso tomar uma decisão, os alunos são os primeiros a ser consultados» em regime de voto democrático, claro está.

Antes disso, ainda em Portugal, foi professor de liceu e combateu como pôde o elevado analfabetismo da sua região, através do ensino voluntário às pessoas da Gandra, perto de Esposende. Mais tarde, com a abertura do primeiro hotel da região, ensina o pouco inglês que na altura sabia a todos os que o procuravam. «Dei-me sempre aos outros», relata com um sorriso de simpatia, desses sorrisos de quem sabe ouvir e gosta de partilhar histórias, de ensinar portanto.

 A necessidade de um pólo de lusofonia na comunidade foi o que o fez abraçar este projeto do ensino da língua e da cultura portuguesa. Primeiro como professor e diretor pedagógico da Escola Santa Cruz, mais tarde como também diretor geral e pedagógico da Escola Secundária Lusitana. Era preciso seguir com o ensino, dentro ou fora de Portugal e sempre onde fazia mais falta.

As duas escolas estão interligadas. Começam com os 4/5 anos (a Infantil), onde as crianças obtêm um conhecimento passivo da língua. É uma idade em que se torna fácil a assimilação dos significados das palavras e da estrutura. Mais tarde, aos 6/7 anos começam as aulas de Expressão Oral, onde praticam a língua na sua forma mais ativa, ou seja, a compor frases e a falar. Aos sete anos, já feita a primeira classe no ensino canadiano, é altura de começarem a ler em português. «A escola ensina não só a língua mas toda a cultura para que se tenha conhecimento das nossas raízes e de quem somos».

A Secundária segue como prolongamento dos estudos. Infelizmente muitos dos alunos desistem antes de completarem o 10º ou 11º ano de ensino, o que é uma pena, uma vez que os anos de aprendizagem são reconhecidos pelo Ministério da Educação do Quebeque apenas na altura do diploma de finalização do Secundário, onde são apresentados como prova oficial do domínio da língua e onde são atribuídos unidades de créditos.

A escola tem toda uma sequência pedagógica, com o mesmo diretor desde a Infantil ao 11º ano, e conta com professores da Comunidade que conhecem a cultura e o meio onde os alunos estão inseridos. É neste sentido que afirma como «disparate autoritário» a decisão do último Governo Socialista de retornar os professores que lecionavam no estrangeiro. «Não faz sentido, são precisos aqui, fizeram a sua vida por cá, a maioria está cá há mais de 30 anos e mandá-los de volta a Portugal seria uma violência, destruiria famílias a troco de nada e tiraria o emprego aos milhares de professores em Portugal que estão atualmente no desemprego, em pleno tempo de crise!» Ficou por isso feliz quando o PSD revogou a dita lei, pondo-a de lado e apelidando-a de «infundamentada».

«Nós latinos somos individualistas, cada cabeça uma sentença e todos queremos expressar a nossa. Funcionamos com o que nos vai na alma, as emoções, a teoria, o coração e a intuição. Por isso, o poder pode por vezes tornar-se aliciante e criar estas medidas absurdas», afirma citando Carl Jung. «Enquanto os germânicos, anglo-saxónicos, funcionam pela razão, pelo conhecimento empírico e pela utilidade das coisas. Não são tão bons nas artes e no sentir como nós, mas mais eficazes em questões democráticas e de liberdade individual».

É essa dicotomia que utiliza no seu ensino. «Nunca apresento uma teoria, mas sim exemplos práticos, para que os alunos compreendam e mais tarde percebam a importância da teoria apresentada».

Volta rapidamente ao tema da Escola e afirma que «É importante frequentar a escola porque, por exemplo, em caso de regresso os alunos são colocados em Portugal conforme o nível académico conquistado aqui no Canadá e possuem para além do conhecimento da língua, o direito de uma aula e de créditos extras, para cumprirem assim os seus estudos».

Por isso lamenta que o número de alunos tenha vindo a decrescer de ano para ano.» O português é uma língua de imenso potencial, falada nos cinco cantos do mundo, a terceira mais falada no mundo ocidental (após o inglês e o espanhol) e a sua aprendizagem significa uma mais-valia para qualquer estudante e futuro profissional».

Realça a importância de sensibilizar os pais e os avós para que contribuam, não só com a ida dos alunos à escola, mas também com a prática do Português em casa, de forma a complementar o trabalho dos professores. E mais, pede que insistam com os alunos para que estudem até ao 10º e 11º ano, porque «essa é a única forma de ficar registado no Curriculum Oficial e assinalado no Diploma do Ministério da Educação do Quebeque».

«Nós fazemos todos os possíveis. Criámos este Pólo de Lusofonia sozinhos, com os nossos esforços e sem ajuda do Governo Português. Mantemo-lo vivo, ano após ano, desde 1975 e funcionamos em sistema de beneficência. Há mais de 19 que não recebo um salário, nem sequer para pagar a gasolina; faço serões até às 2 da manhã e dedico-me de alma e coração a este projeto. E os professores recebem muito pouco, é um pagamento simbólico e mesmo assim dedicam o seu sábado, todas as semanas para espalhar o conhecimento e a fala de ser Português».

«As relações humanas são a coisa mais preciosa que temos e é por isso que fazemos o que fazemos. Porque somos uma comunidade e queremos o melhor para os nossos. É por isso que nos esforçamos e pedimos à comunidade que se esforce também, que nos ajude a manter viva a nossa língua, o nosso veículo que nos liga a Portugal».

E continua, em modo de alerta. «É importante o domínio da nossa língua, dos que nos amaram, dos nossos antepassados e da nossa história».

Quanto ao futuro? Continua de boa saúde. O professor ficará por cá enquanto lhe for possível., não pode deixar a escola morrer porque assim a comunidade ficaria extremamente mais pobre.

E dito isso, terminamos a conversa. Penso no que significa ser português, na importância da língua e no futuro dos nossos filhos. Porquê privá-los de uma ferramenta de tamanha importância? Porquê privá-los de uma parte de nós?

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Apesar das resistências encontradas na imprensa portuguesa em geral, o LusoPresse decidiu adoptar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa pelas razões que já tivemos a oportunidade  de referir noutro local.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.
 
Carlos de Jesus
Diretor

 
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