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rss  Vol. XV - Nº 248         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 03 de Junho de 2020
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Palavras e ideias

As férias: para onde vamos, e como chegamos lá?

Duarte M. Miranda

Por Duarte M. Miranda*, colaboração especial LusoPresse

duarte.miranda@videotron.ca

Finalmente! Chegou a hora de dar descanso ao corpo e à mente que tanto laboraram nestes últimos meses. Chegou a hora das férias, esse repouso mais ou menos prolongado, bem merecido por muitas e muitos de nós. Mesmo aquelas e aqueles que, como eu, já puseram as sapateiras na reforma, ainda falam em «férias bem merecidas...»

sata

 Para nós que residimos no Canadá, é grande a tentação de ficar por aqui para desfrutar dessas tais «férias bem merecidas». Afinal, as nossas condições climáticas durante os meses de verão - fora uma curtíssima época de grande canícula - são tão agradáveis quanto aquelas de vários países que se promovem como destinos de turismo ideais para férias. É o caso de Portugal que, além de poder clamar alto e forte suas condições ideais como destino turístico, tem também uma grande necessidade do contributo à atividade económica do país associado à chegada de turistas. Quanto mais numerosos, melhor!

Não obstante o argumento de que as nossas condições climáticas durante os meses de verão são ideais para passar férias por cá, eu acredito que a época das «férias bem merecidas» deveria ser mais propícia para que aumente o número de Portugueses e Luso-descendentes que optem por visitar Portugal. Por diversas razões que não temos espaço para propor ou elaborar neste jornal, as circunstâncias dos últimos 20 ou 25 anos têm feito com que o número de nós, «imigrantes» residentes no Quebeque, que visitamos a pátria-mãe com alguma regularidade tem vindo a diminuir de maneira tristemente marcante. Isto é particularmente verdade no nosso caso, nós Açorianos.

A euforia que tomou posse de uma certa elite portuguesa, particularmente na administração pública, depois da entrada de Portugal no círculo da União Europeia em 1986 fez com que a nossa contribuição ao esforço de desenvolvimento do país não fosse mais vista como primordial. Sem dúvida que esse fator influenciou a «nossa» TAP nacional, órgão estatal, quando ela decidiu abandonar o mercado do Canadá (leia-se ABANDONAR-NOS!) em 1987. Claro que houve algumas vozes que se levantaram por cá nessa época para criticar a decisão da toda-poderosa TAP e reclamar da «injustiça» ou, no mínimo, da falta de consideração de que éramos vítimas. Mais esparsas ainda foram as vozes levantadas para defender a nossa causa nos círculos de influência, sobretudo em Portugal. As nossas tradicionais remessas de dinheiro, afinal, já não eram precisas... Os seus novos parceiros europeus iriam abastecer Portugal com todo o dinheiro ao qual o país aspirasse, e daí para a frente as nossas remessas não seriam nada mais do que migalhas.

Numa crónica publicada no diário O Primeiro de Janeiro, a Dra. Maria Manuela Aguiar, ex-secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, aliada ao PSD, escrevia o seguinte comentário que, a meu ver, descreve nitidamente a injustiça da qual vimos sendo vítimas:

«Penso, em especial, na emigração que tem origem no país inteiro, mas é maioritariamente da metade norte, da Madeira e dos Açores.

Trata-se de um mercado, fiel e inesgotável a que a TAP deve grande parte da sua prosperidade, já que as rotas principais vão para terras de diáspora (excepção é o Canadá, que a companhia nacional abandonou, inexplicavelmente, a partir de 1987).»

Em outra altura, conforme me relatava o falecido e saudoso senhor Armando Barqueiro, diretor do jornal A Voz de Portugal, durante uma entrevista que eu lhe tinha concedido em Julho de 1995, o então primeiro-ministro Cavaco Silva tinha quanto a ele afirmado, na época, que «É necessário deixar de colocar o acento tónico nas remessas dos imigrantes.» Pois é! Mas nós, os «imigrantes», sobretudo aqui em Montreal, ficamos a olhar para o ar, na expectativa de que alguma nave aérea fizesse uma escala por aqui para levar-nos não só a matar saudades, mas também, sem dúvida, a contribuir concretamente ao desenvolvimento do país, conforme parecia sugerir o senhor primeiro-ministro.

A certa altura, a também «nossa» SATA, como eu tive a oportunidade de escrever numa carta ao Presidente do Governo Regional dos Açores, Senhor Carlos César, a 20 de Outubro de 2007, veio de certa forma fazer reparos à inexplicável decisão da TAP de abandonar parte dos seus provedores e protectores passados. A ação da SATA, no entanto, não vem beneficiando equitativamente o segundo maior grupo de açorianos e seus descendentes residentes no Canadá, aqui em Montreal. A lua-de-mel da empresa açoriana com a comunidade portuguesa do Quebeque durou pouco. Hoje, na maioria do ano, os aviões da SATA passam-nos por cima da cabeça, rumo a Ponta Delgada, ou até mesmo em direção de Lisboa e do Porto, saindo de Toronto, sem parar para deixar que alguns de nós aproveite «a boleia». Mesmo se os custos operacionais são bastante mais baixos em Montreal do que em Toronto, os senhores dirigentes da SATA acham que basta o favor que nos fazem ao oferecer-nos um voo semanal durante algumas semanas nos meses de verão. Acham que não têm nem como responsabilidade nem como missão de tentar reanimar o tráfego moribundo (verdade que se diga!) de membros da nossa diáspora que sentem o apelo para viajar à terra-mãe com mais frequência. A SATA continua sendo, claramente, uma das principais responsáveis da hesitação em viajar a Portugal e aos Açores que continua perdurando na nossa comunidade. Indiretamente, a SATA está também contribuindo para o crescente afastamento dos mais jovens da nossa comunidade das tradições portuguesas e açorianas, e com a sua perda de identidade com o património lusitano herdado dos pais e dos avós.

Por outro lado, os dirigentes políticos açorianos que sem dúvida podiam trabalhar para corrigir esta aberração e injustiça, raramente tomam posição a nosso favor. Basta recordar que o PS, que vem governando os Açores há mais de 12 anos, nada tem feito para incentivar a SATA a rever a sua posição. Alguma razão deve haver para essa situação e essa falta de interesse em apoiar a nossa causa. Não sei qual. Só sei que ela existe! Há alguns dias, no entanto, e é importante sublinhar este ponto, um deputado açoriano, membro ele também do PSD, o senhor António Pedro Costa, tomou posição publicamente para alertar o Governo Regional dos Açores sobre a nossa «decepção» com a atitude da SATA a nosso respeito, devido à falta de voos de Montreal para os Açores. É pouco, mas é uma voz importante que se junta às nossas. Sei que outras figuras políticas e públicas nos Açores também falaram em público sobre o assunto, mas nada contribuíram de concreto para que justiça se faça.

Em 2007 eu liderei um esforço que considerei bastante sério e intenso para tentar mudar o rumo das coisas. Fizeram também parte desse esforço, entre outras pessoas, o meu irmão Luís e o senhor Rui Serpa. Iniciei o diálogo com o Presidente do Governo Regional, Senhor Carlos César, que em seguida dirigiu o assunto ao então secretário da Economia, Duarte Ponte. Tive encontros e desencontros com o senhor secretário. Como eu não estava nem comprando, nem vendendo nada, esse exercício que durou vários meses foi para mim desgastante, decepcionante e uma perda de tempo. Paralelamente a essas discussões, mantive também negociações com os mais altos dirigentes da SATA. Achei até que essas negociações corriam bem e iriam dar algum resultado. Fiquei novamente desiludido, já que não fazíamos senão andar às voltas em torno de um círculo vicioso. Nem a minha função «honorífica» de Conselheiro para a internacionalização da economia portuguesa no Canadá (nomeado pelo Governo do PSD... talvez por isso!) me valeu de nada. Acabei dando uma entrevista com meu irmão ao jornal Correio dos Açores, publicada em 9 de novembro de 2008, denunciando toda essa situação. Nessa altura perdi qualquer rastro de consideração favorável à nossa causa que pudesse subsistir dentro da organização da SATA.

Está na hora que nos mobilizemos por cá, os imigrantes portugueses, sobretudo aqueles de nós vindos dos Açores. Devemos de novo tomar posição publicamente e energeticamente para pressionar as devidas autoridades, quer no governo, quer na SATA. Durante as tentativas de negociação que tivemos com o Governo Regional dos Açores e com a SATA em 2007/2008, alguns indivíduos, movidos por interesses meramente pessoais e soberbos intrometeram-se, covardemente, no processo, causando mais prejuízo do que ajuda. Não podemos deixar que isso se repita novamente. Tão pouco podemos deixar que vozes divergentes e disparatas decidam de liderar o assunto individualmente, tal um «Dom Quixote». Temos entidades comunitárias que em situações ideais poderiam assumir um papel dentro de uma tal mobilização. Deverão, no entanto, ir além das habituais sessões fotográficas ao lado de líderes políticos, durante suas visitas aos Açores, e demonstrar publicamente seu desagrado com o tratamento que a nossa comunidade vem recebendo da SATA. É disso que precisamos!

Até que vejamos o caminho da mobilização, passem um bom verão e desfrutem de suas férias... com ou sem a SATA!

«As folhas da árvore caem sempre em direção das suas raízes.», velho ditado chinês.

* Conselheiro para a internacionalização da economia portuguesa no Canadá

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