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rss  Vol. XV - Nº 248         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 03 de Junho de 2020
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Na Ilha Terceira

Cantar o São João!

Inês Faro

Reportagem de Inês Faro, enviada especial

Angra do Heroísmo, Terceira - «Lá no Japão», diz António, motorista angrense, referindo-se a São Miguel, «dizem que os Açores são 8 ilhas e um parque de diversões: a Terceira». De 1 de Maio a 31 de Outubro, a ilha não para. Povo festivaleiro e amável e, segundo um estudo realizado pelo Instituto de Tecnologia Comportamental (INTEC ) em parceria com o jornal Sol, é considerado o concelho mais feliz de Portugal: Angra do Heroísmo. Comprovam-no as animadas festas das diferentes freguesias, as touradas à corda (quase 200 em meio ano!), os convívios familiares e entre vizinhos. Mas é nas Sanjoaninas, as festas mais populares dos Açores, que a diversão atinge o seu expoente máximo. A diversão e a tradição, celebradas de 17 a 26 de Junho.

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Foto: Inês Faro, LusoPresse

O LusoPresse veio à Terceira viver as festas em louvor a São João, uma tradição com quinhentos anos de história. No século XVI, eram marcadas pelo desfile dos brasões das casas reais, com as cavalhadas e a celebração da missa ao ar livre dedicada a São João, patrono da fidalguia portuguesa. Depois do sismo de 1980 as festas não se comemoraram durante três anos, regressando ao formato por que hoje é conhecido, em 1983, ano em que o centro histórico de Angra foi classificado como Património Mundial pela UNESCO. As festas têm agora um séquito real constituído por uma rainha, este ano Mafalda Botelho, um chefe de protocolo, Ricardo Noronha, damas e pajens. «É um grande orgulho representar os jovens terceirenses nas nossas tradições e costumes», diz a rainha Mafalda, 24 anos.

O desfile de brasões dá atualmente lugar aos cortejos 

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Foto: Carlos Medeiros

etnográficos, às marchas populares, ao desfile das filarmónicas, aos concertos de música no Bailão (com a banda de rock australiana INXS como cabeça de cartaz), à recriação do bodo de leite (distribuição de leite, pão, carne e vinho à população), entre outras atividades, ao longo de dez dias.

Estas festas «trazem o encontro das pessoas. É uma festa popular em que os «filhos da terra» do folclore, das bandas locais, das filarmónicas, têm hipótese de mostrar ao seu povo o que fizeram durante um ano», diz André Avelar, presidente da comissão das festas. «É uma festa familiar para agradar à mãe, ao pai e aos filhos. É o encontro das festas da concelhia, é o apogeu do ano inteiro», explica.

«Para os açorianos da diáspora, vir à Terceira nesta altura, significa o regresso às nossas tradições, voltar à ilha para ver o nosso folclore, as nossas marchas, as nossas filarmónicas, provar os nossos sabores», conclui André Avelar.

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Foto: Carlos Medeiros

As Sanjoaninas deste ano foram também marcadas pelo regresso às tradições terceirenses. Desde as típicas tascas de costaneira, à aposta na gastronomia e nos restaurantes locais, às bandeiras coloridas, aos petiscos terceirenses, ao ambiente festivo e tradicional de outros tempos. Mas também houve inovações a assinalar, como um cantinho do fado, uma tenda no Alto das Covas com capacidade para 80 pessoas assistirem diariamente a concertos de fado, dinamizados por José Joaquim, responsável pelo programa para a etnografia ou ainda a criação de um grupo de 28 voluntários.

Faça favor de entrar!

Angra do Heroísmo tem as portas abertas durante estes dias: aos amigos, aos vizinhos, aos visitantes. «Não fique aí fora, olhe que daqui a bocado soltam o gado!», ouço. «Faça favor de entrar, vá para o terraço, é o melhor sítio para ver a largada e os homens todos a correrem». Entrei, juntei-me à festa da rua de São Pedro. Pouco depois conheço Ivo Sousa, emigrado em Toronto, terceirense apaixonado. «Estou emigrado há já 47 anos, mas venho cá todos os anos na altura das festas para matar saudades, ver os amigos. Isto é uma alegria!», diz. «Também damos lá touradas à corda, tentamos imitar o que se passa aqui, mas não é nada que se compare! Vai lá muita gente que não percebe nada daquilo...», conta Ivo Sousa. «Sinto falta do calor e quando chega esta altura é um bichinho que me chama a vir para a Terceira comer as sardinhas, a alcatra...». Por falar nisso... «vou levá-la ali a uma festa para perceber do que estou a falar».

 

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Foto: Carlos Medeiros

São três da tarde, o sol está quente e ali estou na Canada do Sarilho, em casa do engenheiro Timóteo, 63 anos e Ana Santos, 55. A bandeira dos Templários lembra as suas origens, Tomar, mas já há 30 anos que também se casou com Angra, terra da mulher. No jardim da casa há comes e bebes à descrição. Canta-se, acompanha-se ao órgão e à guitarra, o pouco vento abana as bandeiras coloridas destes dias de festa. Há alguns amigos, conhecidos e outros a quem o cheiro da alcatra e o vinho tinto convidaram a entrar. «É um hábito regional, sempre que há tourada as pessoas reúnem-se para festejar e como a tourada mais próxima daqui de casa é a largada de gado, passámos a fazer aqui esta festa sempre a 24 de Junho», explica Ana Santos, dona da casa.

Joaquim do Carmo, 60 anos, empresário, fala-me de história, da Terceira entreposto do ouro, prata, diamantes e especiarias do séc. XV e XVI. Fala-me da Terceira oitocentista e do seu papel na luta entre liberais e absolutistas. Fala-me dos dias de hoje, Terceira, ilha pacata, alegre, onde a proximidade do mar e a qualidade de vida são insubstituíveis. Natural de São Jorge, é terceirense por opção. Viu a família a emigrar para o Canadá, mas nunca quis deixar a ilha eleita. «São as pessoas simpáticas, é todo este ambiente de festa, as condições climatéricas, que fazem desta ilha o melhor sítio do mundo para viver!», diz. «A Terceira significa isto... a festa!».

Ai Toiro lindo!

 

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Foto: Inês Faro, LusoPresse

Sob o mote «Angra, festa brava», as Sanjoaninas levantam o capote à paixão taurina dos terceirenses. «É uma tradição secular, já do tempo dos espanhóis que trouxeram a sua aficion, com gado espantável. Depois foi crescendo e hoje em dia existem inúmeras ganadarias», diz António Ponte, 58 anos, administrador da praça de toiros. É dia de concurso de ganadarias e os 4700 lugares da praça da Terceira estão ocupados. «A nossa feira taurina é muito falada e é visitada por grandes toureiros espanhóis. A aficion dos terceirenses é muita!», explica. Não fosse um cavalo ter morrido à frente do olhar atento de todos os presentes, poderia dizer-se que as corridas tinham sido um sucesso. A corrida à portuguesa e a corrida Goyesca ou à espanhola, com El Juli como cabeça de cartaz, foram vistas e aplaudidas por casas cheias.

O último dia foi marcado pelo desfile das filarmónicas. O ambiente de festa deu lugar à bruma, com as pessoas a abandonarem a pouco e pouco aquele que tinha sido o centro das Sanjoaninas, o Alto das Covas, no centro de Angra. No final o LusoPresse foi ouvir os populares, juízes destas festas.

Do cabo do grupo de forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense ouviu-se um «ó André (presidente da Comissão das festas), parabéns! Este ano as festas foram muito boas, parece que se encontrou finalmente o modelo das Sanjoaninas».

Jocelyne, esteve pela primeira vez nas festas e a segunda na Terceira. «As festas foram simplesmente maravilhosas, lindíssimas. Houve muita tradição, muita originalidade», disse esta brasileira do Rio Grande do Sul.

 

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Foto: Carlos Medeiros

Ricardo Reis, 33 anos, terceirense, não foi da mesma opinião. «A feira de São João (cartaz das touradas) foi muito boa, mas a nível de festas culturais acho que este ano foi mais fraco», disse. Já para Maria do Carmo, 26 anos, vendedora de balões, «as festas foram impecáveis, gostei muito deste ano, foi melhor do que os outros anos». E apesar da crise, «venderam-se muitos balões», assegurou a vendedora.

João Leonardo, veio de longe para as festas. Emigrado na Califórnia visita a sua terra natal pelo menos de 3 em 3 anos. «Gostei muito, principalmente das touradas!». Como tantos açorianos da diáspora presentes nas Sanjoaninas, João Leonardo parece ter falado por todos. «Estou muito contente por estar aqui, é uma alegria enorme... só estou é a precisar de descansar depois de tantos dias de festa brava!» Para o ano há mais. Olé!

Saiba mais em:

festas2011.sanjoaninas.com

Visite a galeria de fotografias completa das Sanjoaninas em:

picasaweb.google.com

Nota: A Comissão de Festas das Sanjoaninas foi responsável pelo alojamento e refeições da colaboradora do LusoPresse.

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