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rss  Vol. XV - Nº 247         Montreal, QC, Canadá - sábado, 26 de Setembro de 2020
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Palavras e ideias

Portugal: «C'est le début d'un temps nouveau»

Duarte M. Miranda

Por Duarte M. Miranda*, especial LusoPresse

duarte.miranda@videotron.ca

Portugal, finalmente (!), está iniciando um novo capítulo na sua história socioeconómica e política moderna. Do meu ponto de vista, essa história iniciou-se a 1 de Janeiro de 1986, data em que o país aderiu à então Comunidade Económica Europeia (CEE), que em 1993 passou a chamar-se União Europeia. Acredito também que esta nova etapa que se está agora oferecendo aos portugueses está sobretudo ligada às recentes mudanças de ordem política que o país está vivendo. Obviamente que as considerações e os acontecimentos de caráter económico são importantíssimos, mas estes serão administrados por especialistas, enquanto que as consequências das mudanças no regime político não só dependerão do empenho e do desempenho dos novos governantes políticos, mas deverão sobretudo ser acompanhadas, diariamente, pelos cidadãos. Os portugueses, vale acrescentar, são bons de papo; têm língua afiada, e não poupam críticas acerbas a todos aqueles que vêm ocupando cargos públicos. Infelizmente, por outro lado, temos tendência a exercer mais as nossas críticas na tasca do que na urna de voto... quando lá vamos. É primordial que desta vez a cidadania se exerça de forma constante, consistente e lúcida.

A partir da adesão de Portugal à União Europeia em 1986, o país viveu uma era de revoluções económicas e sociais importantíssimas. A economia portuguesa beneficiou-se do acesso a enormes recursos financeiros que, num primeiro tempo, ajudaram a continuar a tirar o país da obscuridade socioeconómica herdada da era salazarista. Que me desculpem os nostálgicos dessa época longínqua, mas a realidade é que António Salazar e seus herdeiros imediatos nos deixaram a correr, sem fôlego, atrás de sonhos. Muito já tinha sido alcançado durante os anos logo após o 25 de Abril, antes mesmo da entrada de Portugal no seio da «família económica» europeia. Os portugueses vinham conseguindo abrir caminhos novos, rumo a um futuro mais próspero, mas foram faltando os recursos, tanto humanos como financeiros, para que o impulso do desenvolvimento perdurasse de maneira sustentável. Que de caminho percorrido após esse 1 de Janeiro de 1986! Tanta gente arrancada à fome! Tanta aldeia propulsada para o desenvolvimento! Tanta riqueza criada... legítima e ilegítima!

Pouco a pouco o trabalho das mãos subordinou-se ao esforço intelectual; a gente do campo ouviu e respondeu ao apelo da vida citadina, migrando rumo aos novos horizontes, ou, em muitos casos, rumo a miragens alucinantes. Apareceram novos barões que trouxeram novas fábricas, com promessas de riqueza para a sociedade. Os «doutores», saindo em cada vez maiores números das universidades, começaram a ocupar cada vez mais espaço na vida quotidiana do povo. Com a euforia vieram as novas oportunidades. As ilusões criaram riquezas efémeras permitindo a tantos e tantos cidadãos portugueses de provarem, em muitos casos durante anos, as regalias da prosperidade emprestada. Os governos e governantes sucessivos encontraram-se, eles também, envolvidos nessa euforia que, ao fim e ao cabo, acabou levando o país à beira do abismo. Portugal não pôde senão estender a mão a seus «parceiros-mestres» económicos para que não caísse no abismo da tragédia socioeconómica. Esta foi a herança deixada por todos aqueles e aquelas que foram os curadores do bem público durante todos estes últimos mais de 25 anos.

Alguns já se estarão perguntando, «Mas o que têm os novos políticos a ver com isto tudo? Portugal está é precisando de gente qualificada das áreas da economia e das finanças!» É verdade, a situação macroeconómica de Portugal está de tal modo preocupante que há urgência em administrar os remédios que virão, certamente, a curar as feridas e as vulnerabilidades criadas pelas inaptidões e pela irresponsabilidade dos governantes sucessivos dos últimos 25 anos. Mas, não nos preocupemos: não faltarão tecnocratas e especialistas - portugueses e estrangeiros! - capazes de administrar os novos remédios nas doses adequadas, fazendo cortes e amputações, mesmo onde elas doerão mais. Mais difícil vai ser conseguir mobilizar a sociedade portuguesa atrás da nova realidade e dos desafios que o país irá confrontar. Para isso, Portugal precisará de uma liderança no governo capaz de exercer o seu mandato com serenidade, com firmeza, com lucidez e com muita visão. Muitas das fibras coletivas da sociedade portuguesa romperam-se durante estes últimos anos de cegueira e de alucinação. Os novos dirigentes eleitos, sobretudo aqueles do PSD e do CDS, assim como o Presidente da República, terão de refazê-las, concertando aqui e cortando acolá, com autoridade e abnegação ao mesmo tempo. O povo português, incluindo os desempregados e aqueles e aquelas «à rasca», terá de se pôr à obra. Juntos terão de aprender a exercer seus direitos e seus deveres como principais interessados na prosperidade que será, eventualmente, recriada e recomposta. Os cidadãos portugueses terão de manter o olho aberto, e fazer com que os membros do governo sintam que, desta vez, eles terão que dar contas sobre o seu desempenho, dia após dia. Dentro de três, quatro ou mesmo cinco anos, a vida terá retomado um rumo melhor do que aquilo que se constata em Portugal hoje. Nada será igual ao que as coisas eram antes da «crise»; terão de haver concessões e perdas, mas a harmonia e a serenidade regressarão ao seio de toda a sociedade portuguesa.

Não posso terminar sem deixar de tocar num assunto que me é muito caro: a questão da situação do setor da agricultura em Portugal. Em duas ou três crónicas minhas anteriores neste jornal, no ano passado e neste ano, eu apelei para que se abram novas oportunidades à nossa gente que vem sendo «empurrada» para fora do campo e de suas terras agrícolas, ao longo dos últimos anos. Tanta gente que foi iludida com promessas de melhor qualidade de vida, mas que não eram nada mais do que meras ilusões que viriam a beneficiar apenas os supostos novos reis da vida económica portuguesa. A capacidade produtiva agrícola de Portugal sofreu muito. Aí está a oportunidade para recompô-la, como eu venho proclamando. Felizmente, há vozes levantando-se em Portugal com esta mesma mensagem, como tem sido o caso do Senhor Presidente da República nas últimas duas semanas e outros especialistas.

«Se um homem tem fome não lhe dê um peixe, ensine-o a pescar.» velho ditado chinês

* Conselheiro para a internacionalização da economia portuguesa no Canadá

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