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rss  Vol. XV - Nº 247         Montreal, QC, Canadá - domingo, 27 de Setembro de 2020
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Eleições em Portugal

Noite laranja

Inês Faro

Reportagem de Inês Faro, enviada especial

 

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Foto: Inês Faro-LusoPresse
Pedro Passos Coelho

O não entendimento entre os dois principais partidos políticos portugueses, PS e PSD, em torno das medidas de austeridade e de contenção económica do país (Programa de Estabilidade e Crescimento - PEC 4), levaram à demissão do primeiro-ministro, à consequente dissolução do parlamento e à convocação de novas eleições. A 5 de Junho, domingo, o povo falou e escolheu Pedro Passos Coelho como novo primeiro-ministro de Portugal. O LusoPresse acompanhou em primeira mão a noite eleitoral no Hotel Sana em Lisboa e testemunhou o ambiente no campo dos vencedores.

Como manda a tradição, o primeiro a discursar foi o líder do Partido Socialista, o derrotado destas eleições. Na sede do PSD as palavras de José Sócrates foram ouvidas através das várias televisões distribuídas pelos três andares. Entre vaias e apupos, o discurso do ainda primeiro-ministro foi sucessivamente interrompido por sociais-democratas descontentes. «O povo não esquece que a crise é do PS», entoavam os militantes. Os resultados eleitorais foram claros e José Sócrates acabou por se demitir do cargo de secretário-geral do PS. «Regresso à condição de militante de base. Deixarei a primeira linha de atividade política e não pretendo ocupar qualquer cargo político», explicou o ainda primeiro-ministro.

Na sede de campanha situada na avenida Fontes Pereira de Melo, perto do Marquês de Pombal, reuniram-se ex-ministros, diretores de Institutos Públicos e dezenas de militantes sociais-democratas. Certamente para felicitar a vitória esperada da direita e de Passos Coelho, mas também para verem e serem vistos, naquele que foi o momento em que ninguém quis ser esquecido. Muitos dos presentes serão os próximos assessores e ministros de Portugal e ocuparão em breve os mais altos cargos de empresas públicas.

 

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Passos Coelho, vitorioso
Foto: Inês Faro-LusoPresse

Depois dos discursos de José Sócrates (PS), de Francisco Louça (Bloco de Esquerda), de Jerónimo de Sousa (Partido Comunista Português) e de Paulo Portas (CDS-PP), foi a vez de Pedro Passos Coelho ser o centro das atenções. Numa sala pequena e de difícil acesso no piso-2 do Sana Lisboa, onde não estiveram presentes mais de 200 pessoas, incluindo jornalistas, as palavras do sucessor de Sócrates, foram ouvidas com atenção. O LusoPresse foi o único órgão de comunicação das Comunidades Portuguesas presente. A espera foi longa e o líder do PSD discursou já perto das onze da noite. O social-democrata de 46 anos, que dentro em breve assumirá os destinos da Nação, foi recebido com palmas e muitos flashes. Pedro Passos Coelho evitou um discurso triunfalista, optando pelo tom moderado. «Esta noite quem ganhou foi Portugal», afirmou. Para o vencedor da noite, esta foi «uma vontade inequívoca de abrir uma janela de esperança e de confiança para o futuro». «O meu compromisso é de transparência total e trabalho absoluto», disse.

A apreensão é grande e as expectativas em torno das mudanças que o líder do PSD poderá empreender são poucas. O Fundo Monetário Internacional (FMI) traçou um plano ambicioso para Portugal e os decisores políticos, sejam de que cor política forem, não terão muito espaço de manobra nos próximos meses. O próximo primeiro-ministro de Portugal garantiu na noite eleitoral honrar os compromissos celebrados entre o Estado português, a União Europeia e o FMI «para retirar Portugal do estado em que se encontra e recuperar a confiança dos mercados».

Com pouca experiência política (Passos Coelho lembra James Cameron que também não ocupara nenhum cargo político antes de ser eleito primeiro-ministro do Reino Unido), o ex-presidente da juventude social-democrata, vai ter de demonstrar ser capaz de ser um bom capitão nos mares agitados de Portugal. «Envidarei todos os esforços para garantir ao país que terá um governo de maioria, que dará estabilidade nos próximos quatros anos», disse Passos Coelho.

Quanto à formação do novo executivo, a coligação entre o PSD e o CDS-PP é o passo que se segue. «Sei que o Dr. Paulo Portas está aberto a que o PSD e o CDS possam constituir Governo e tenho a certeza que é isso que acontecerá», anunciou o líder social-democrata.

A noite laranja continuou em festa no Marquês de Pombal.

Implicações para as Comunidades Portuguesas

Na noite eleitoral, o LusoPresse falou com José Cesário, ex-deputado e Coordenador do Secretariado das Comunidades Portuguesas do PSD, para tentar perceber quais serão os impactos para as Comunidades Portuguesas agora que o PSD está no poder. «A diferença vai-se traduzir numa maior aproximação entre as Comunidades Portuguesas e Portugal», disse José Cesário. O ex-deputado criticou as políticas socialistas em relação às comunidades da Diáspora. «Nos últimos anos houve um afastamento muito grande. Foram tomadas medidas e assumidas decisões que contribuíram para este afastamento. Seja em matéria das políticas de língua, das políticas a nível administrativo, na área económica ou no tecido empresarial, o afastamento foi muito grande», explicou José Cesário.

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José Cesário
Foto: Inês Faro-LusoPresse

Com a vitória no PSD, o ex-deputado e Coordenador do Secretariado das Comunidades Portuguesas do PSD, garante uma relação de «maior proximidade e confiança». As novas políticas laranja deverão incidir na «modernização da rede consular, num maior investimento em questões de política da língua», disse. «Também na área económica é necessário encontrar os instrumentos adequados para aproximar mais os empresários das comunidades das empresas portuguesas, assim como promover uma maior ligação aos mais jovens», declarou ao LusoPresse José Cesário.

Os números

Em democracia, os resultados eleitorais são o resultado da voz dos cidadãos. Num sistema eleitoral em que a escolha se centra mais no partido do que nas pessoas, os números demonstraram um descontentamento com as políticas do governo PS de Sócrates e uma descrença na esquerda em geral. O PSD venceu as eleições legislativas com 38,6 por cento dos votos, elegendo 105 deputados. Seguiu-se o PS que conseguiu apenas 28,1 por cento e 73 deputados com assento parlamentar. O CDS-PP assumiu-se como a terceira força política, conseguindo os melhores resultados eleitorais dos últimos anos, 11,7 por cento dos votos que se traduziu em 24 deputados. A CDU alcançou os 7,9 por cento e 16 deputados e o Bloco de Esquerda foi o perdedor conseguindo apenas 5,2 por cento da escolha do eleitorado e 8 deputados. Os votos em branco representaram 2,7 por cento. E nem o facto de terem sido as eleições mais importantes depois da revolução de Abril mobilizou a sociedade portuguesa, como provou a taxa de abstenção de 41,1%. Num período difícil para Portugal este é um valor lamentável que demonstra, de resto, o afastamento da sociedade civil da política portuguesa.

O que aí vem

No dia seguinte às eleições, Cavaco Silva convidou Pedro Passos Coelho a formar Governo com «apoio parlamentar maioritário».

Entretanto, PSD e CDS-PP reuniram-se nos últimos dias para criar duas equipas tendo em vista a preparação do acordo político e programático. O novo executivo poderá começar a desempenhar as suas funções já no próximo dia 22 de Junho, um dia antes do início dos trabalhos do Conselho Europeu. Dessa forma, Pedro Passos Coelho já comparecerá como primeiro-ministro de Portugal.

O mapa do ato eleitoral, onde serão conhecidos os resultados totais das eleições legislativas incluindo os votos da emigração, deverá ser publicado pela Comissão Nacional de Eleições (CNE), até 25 de Junho.

 

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