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rss  Vol. XV - Nº 247         Montreal, QC, Canadá - sábado, 26 de Setembro de 2020
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Editorial

O dilema do P.Q.

Por Carlos de Jesus

Se a atualidade política não nos deixou órfãos nesta quinzena que passou, ela foi bastante madrasta para outros. Particularmente para Sócrates e para Marois. Para o primeiro já se esperava que nestas legislativas antecipadas tivesse de ceder o lugar a outro. Nada de surpreendente, por conseguinte, mesmo se as sondagens se enganaram mais que de costume, a ponto de alimentarem falsas esperanças ao PS na boca das urnas. Rescaldo - sai um, entra outro, criam-se novas expectativas, mas permanece a mesma dor de dentes da crise. Quem votou em Pedro Passos Coelho só espera que este tenha algum jeito como anestesista porque o dente está podre e tem de ser arrancado, doa quanto doer. Assim vai a atualidade do outro lado da ribeira.

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Foi nestas margens que o inesperado se manifestou realmente. Estrondosamente, inopinadamente. Primeiro com as demissões de três altifalantes da velha guarda do Parti Québécois, Pierre Curzi, Lisette Lapointe e Louise Beaudoin, e no dia seguinte com a de Jean-Martin Aussant, da jovem deputação, que abandona também a periclitante barca pequista. A hemorragia teria sido maior, não fora a corrida desenfreada dos bombeiros de serviço da causa independentista, dum François Lisée ou dum Bernard Drainville, para acalmar os ânimos e reter os desiludidos. Chegou-se mesmo a falar duma dúzia de dissidentes.

«Porquê estas demissões agora?» - Foi a questão que andou em todas as bocas desde que a bomba saiu para a rua. As respostas dos demissionários, mesmo se articuladas à volta de questões de princípio, foram pouco convincentes. Tudo leva a crer que há quem puxe pelos cordelinhos nos bastidores.

É sabido quão frágil tem sido a unidade do Partido Quebequense, desde os tempos de René Lévesque. Se algo o caracteriza são as constantes guerras intestinas que acabam com a expulsão dos seus líderes. Quase todos acabaram por ser enxotados, não obstante a reconhecida folha de serviços rendidos.

A surpresa, no caso dos três primeiros, foi tanto maior quanto, alternância oblige, o Parti Québécois estava «condenado» a ganhar as próximas eleições. O mesmo é dizer, a dar aos demissionários a oportunidade de chefiarem pastas ministeriais, com todo o poder executivo que a função confere e todas as mordomias que ao posto incubem.

As razões invocadas pelos dissidentes dão como pretexto a linha de partido assumida pela líder do partido, Pauline Marois, que obrigava a deputação pequista a alinhar em bloco para a aprovação unânime do projeto de lei 204, uma lei privada que punha ao abrigo dos tribunais o acordo celebrado entre o presidente da Câmara da Cidade de Québec, Régis Labeaume, e o presidente do império mediático Quebecor, Pierre-Karl Péladeau, relativamente à gestão do futuro Coliseu de Québec, onde o segundo tenciona instalar uma equipa de hóquei da NHL.

No fundo, a questão do projeto de lei 204 foi apenas um pretexto. No fundo houve manobras que visam empurrar com Mme Marois para a porta de saída. No fundo é a eterna divisão que incapacita o Parti Québécois de ser um partido normal de governo.

Esta divisão é provocada pelas duas grandes tendências antagonistas no seio do P.Q. A primeira, dita dos radicais, é de fazer da independência do Quebeque o principal objetivo do partido por todos os meios, mesmo se para tal for necessário um referendo. Para a segunda, os etapistas, o mais importante é fazer um referendo para se obter a independência.

Para os primeiros, trata-se de ganhar o poder para arrastar os quebequenses para um fait accompli. Para os segundos, ganhar o poder e fazer um referendo quando o fruto estiver maduro.

A estratégia dos radicais ficou claramente enunciada na famosa expressão «cage à homards» do ex-primeiro-ministro Jacques Parizeau. Trata-se de fazer um pretenso plebiscito popular, baseado numa questão alambicada, onde a palavra independência nem sequer aparecia, e depois de terem ganho a maioria de 50 por cento mais um voto, declararem a independência unilateralmente. Esta estratégica está explicada num longo artigo que Gérald Larose, antigo dirigente sindical e atual presidente do «Conseil de la souveraineté du Québec», publicou em 2007, no jornal «L'Action Nationale». Nesse artigo, o desprezo pela vontade popular é tão evidente que ele próprio acusa os «etapistas» de sofrerem de referendite aguda.

Mas tanto um grupo como o outro querem conquistar o poder. O dilema de Mme Marois, como tão bem expressou um caricaturista do jornal «La Presse» na passada segunda-feira, é que «para fazer a soberania é preciso conquistar o poder e para conquistar o poder não se pode falar de soberania!»

A resposta à questão do «Porquê destas demissões?» acabamos por vê-la respondida na carta que, no passado sábado, uma dúzia de jovens deputados do Parti Québécois publicou no jornal «Le Devoir», na qual pedem ao ex-primeiro ministro Jacques Parizeau que desista de se intrometer nos assuntos do partido e deixe o lugar à nova geração de que eles se arrogam. Sabendo que Madame Marois pertence ao grupo dos «etapistas» e que Monsieur Parizeau ao dos radicais, tanto mais que é marido duma das demissionárias, Lisette Lapointe, tudo se explica.

A resposta à questão «Porquê agora?», vem diretamente da estrondosa derrota do Bloc Québécois às mãos dum partido federalista, o NPD, nas últimas eleições nacionais, o qual veio modificar completamente a estratégia dos nacionalistas que, nas vésperas do escrutínio federal, apoiavam a líder incondicionalmente com 93 por cento do voto de confiança, e agora lhe passam esta rasteira.

Apesar de todos os desmentidos do visado, pouco falta para nos convencer que os radicais querem substituir madame Marois por Gilles Duceppe, o ex-líder do Bloc.

Para os Liberais, estas quezílias internas do PQ são como um bálsamo e a tentação para substituir o atual chefe começa a desvanecer-se.

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