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rss  Vol. XV - Nº 245         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 28 de Maio de 2020
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Exposição num luthier da rua Rachel

O artista de Macau e a portuguesa amorosa das artes

Jules Nadeau

Por Jules Nadeau

 Uma pequena sala insonorizada de artesãos luthiers da rua Rachel. Ao primeiro contacto Wah Wing Chan parece um pouco tímido. Reservado como bom asiático. Mesmo modesto: não tem cartões-de-visita para promover a carreira. Os cabelos muito curtos dão-lhe um ar mais jovem. Tem bigode e barbicha. Nos cinquenta, o senhor Chan parece ter quinze anos a menos. A seu lado, com um grande sorriso, uma mulher jovem com traços nitidamente portugueses. É montrealense de nascença. Fala mais que ele. Mas os dois falam a mesma língua: o amor das artes.

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Na inauguração de exposição, entre vários amigos, a diretora Elizabeth Barbosa e o artista Wah Wing CHAN acolheram a equipa do LusoPresse: Fernando Pires, Norberto Aguiar e Anália Narciso

Wah Wing Chan nasceu na rua Sam Chung Lou, no fascinante distrito histórico de Ha Wan (Xiahuan) em Macau. Agora, sem dúvida a Rua do Barão, na paróquia de São Lourenço, não muito longe da magnífica Pousada de São Tiago e do célebre templo de A-Ma. Em 1972, os pais decidem de transplantar para Montreal a família de seis pessoas quando o rapaz só tem 12 anos - demasiado jovem para guardar muitas recordações da calma colónia portuguesa de então. Ao chegar aqui à escola, a barreira da língua leva-o a desenhar em vez de falar com os outros alunos. Ninguém na família o encaminhou para o desenho, mas ele guarda em si a lembrança da caligrafia como a aprendeu em Macau.

Para cultivar o seu talento, Wah Wing Chan inicia-se na gravura no Colégio John Abbot, depois inscreve-se na Universidade Concordia, não para um mas sim dois diplomas. Em 1992, o primeiro bacharelato em artes visuais (studio art) dá-lhe uma formação de base com, entre outras coisas, fotografia e escultura. Em seguida, em 1996, o B.A. em gravura (print making) leva-o à sua especialização atual.

Ela fala português com o filho

LusoPresse entrevistou Wah Wing Chan no bairro português. Sobre Macau, ele precisa de perguntar aos pais para poder dizer qualquer coisa. Só voltou à China em 1998. Mas para a sua última exposição, possui uma arma secreta... portuguesa chamada Elizabeth dos Santos Barbosa. A diretora da galeria Wilder & Davis é filha de emigrantes portugueses chagados aqui na primeira vaga. O pai veio da aldeia de Nogueira em 1957. A mãe, de Oleiros, cinco anos mais tarde. Duas localidades situadas perto de Ponte da Barca.

Elizabeth Barbosa também estudou na Concordia e completou um B.A. em história da arte, sem contudo encontrar aí aquele que se faz chamar Wing (Eterno) pelos amigos. Acerca da comunidade portuguesa, Elizabeth confessa não estar muito ligada. Quando era mais jovem foi regularmente ao Minho dos seus pais. Eis porque ela fala muito bem português. É a língua que fala com o filho de 5 anos. O papá é originário de Lyon.

A exposição de uma vintena de gravuras de formato médio de Wing está nos locais do luthier Wilder & Davis (vizinho da igreja São João Batista). Edifício antigo, acolhedor, com tetos altos. Os numerosos violinos expostos nos armários envidraçados fazem-me pensar no filme Le Violon rouge de François Girard. Em 1999, o ex-torontense Tom Wilder disse a Elizabeth que ela podia expor ali quadros e foi assim que ela se tornou diretora da galeria do mesmo nome. Completamente benévola. «As artes sempre me atraíram. Os meus melhores amigos são um lápis e um papel», diz ela a sorrir.

Artes visuais e música

 

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O eterno Wing explica-me que ele também pratica a sua profissão no Atelier Circulaire da rua Gaspé em Montreal, no Mile-End (onde mora). Tem obras suas em diversos países: Nova Zelândia, Coreia do Sul, China, Noruega, Peru e Estados Unidos. Os criadores que o influenciam e de que gosta? Os americanos Jackson Pollock e Sam Francis assim como a suíça Francine Simonin, estabelecida no Quebeque desde 1968.

«Quero avançar e alcançar um público maior», continua Wing. Tem um correspondente em Lisboa para um projeto em estudo. Como caracterizar os seus quadros pretos feitos de acrílico líquido sobre fino papel japonês washi? «Sou atraído pelo abstrato. Pinto com pincéis chineses». Ele «experimenta aqui uma técnica da sua invenção» e o produto final torna-se «uma forma... por vezes próxima da caligrafia».

Intitulada «Preto no preto», a exposição do 257 Rachel oeste está aberta ao público até ao dia 8 de julho. Para uma imagem em papel de boa qualidade dum quadro de Wah Wing Chan, veja a página 57 do último número da revista La Scena Musicale. Esta excelente revista foi cofundada (com Philip Anson) pelo seu irmão Wah Keung Chan que é o chefe de redação. Outro belo encontro das artes visuais e da música. Sobre a exposição: http://www.galeriewilderdavis.wordpress.com

(Nota: o LusoPresse agradece ao compatriota Armando Rafael pela foto do Sr. Chan que apareceu no nosso último número.)

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