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rss  Vol. XV - Nº 245         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2020
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Questões de língua

Português de velhos

Por Carlos de Jesus

A cena passa-se numa tarde de verão tórrido em Portugal, num pequeno café à beira-mar, onde a minha filha tinha começado a tomar o hábito de ir à bica depois do almoço, durante aquelas férias grandes, as últimas que passou no país em que nasceu. Tinha ela então os seus 20 anos, dos quais só os primeiros quatro vivera em Portugal. Foi portanto aqui, no meio da escola francesa e da televisão americana, com um breve salto à escola de sábado de Santa Cruz, quiçá ajudada com a motivação de que foram capazes os pais no meio das andanças da rotina diária, que ela forjou o seu português. Português escorreito, no sotaque, escasso no vocabulário, como se compreende para quem nunca precisou de o usar para além das conversas à mesa familiar.

A empregada de mesa do cafezinho tinha começado a reparar naquela cliente - a minha filha - pela maneira como ela falava português. Achou que sim, que ela o falava bem, com um sotaque de portuguesa, mas com um pequeno senão. «Tu és portuguesa mas tu não és daqui? Tu falas como os velhos. Fazes lembrar-me o meu avô» - teria ela dito.

linguaportugesavelhos

Era uma observação digna de Sherlock Holmes. Devia ser estudante em trabalho de verão. Mas foi uma boa dedução.

Está visto que o português dos meus filhos, tal como o dos pais, ficou-se quedado no falar que se usava no princípio dos anos 70. Mesmo se continuámos a comprar livros de lá, a ouvir música de lá, a ver, mas espaçadamente, algumas emissões de televisão de lá, e posteriormente, com a Internet, a seguir os blogues, os jornais, a rádio e tudo quanto lá se passa, a nossa língua, essa, arrancada ao alfobre natal, ficou suspensa no tempo. Faltou-lhe o húmus, o ar, a água, o sol com que foi medrando naqueles horizontes, enquanto nós mourejávamos por cá, sob outros céus e outras realidades dos últimos quarenta anos. Não foram as saltadas efémeras e espaçadas, embrulhadas em malas de viagem, que iriam compensar.

Tanta água correu sob as pontes do Tejo e do Douro depois daquele ano de 1973 quando partimos com armas e bagagens em demanda do novo mundo. Entretanto houvera uma revolução militar. Uma revolução social. Uma revolução migratória. Uma revolução europeia. Uma revolução financeira. Agora o FMI.

Ora com ares de futuros radiantes ou de despertares dolorosos; ora em contacto com novos imigrantes ou em confronto com novas realidades económicas e sociais; ora levado por promessas políticas ou desencantos pessoais; ora arrebatado pela sociedade de consumo ou pela ilusão tecnológica, o português foi mudando, foi integrando novas realidades, novos dialetos, novas formas de ver, novas formas de funcionar. Foi evoluindo, diriam os lexicógrafos.

Mas para quem se orgulha de ainda poder funcionar sofrivelmente na língua de Pessoa, mesmo depois destas décadas cá por fora, sinto-me por vezes deveras ultrapassado. Foi o que aconteceu há dias ao ver no programa de segunda-feira da RTP2 «Cinco para a meia-noite», a entrevista que os «Homens da Luta» (os tais que queriam representar Portugal na Eurovisão mas que nem sequer chegaram à final) deram à animadora Filomena Cautela. Tive que parar e rebobinar para compreender tudo o que diziam. E mesmo assim...

Claro que a tendência, para a gente da minha geração, é dizer que a língua não evolui, antes, mudou para pior. Não é para «jovializar» que digo não comungar dessa opinião. Meu pai também pensava que a minha geração falava pior que a dele. Qualquer analfabeto, do seu tempo, era capaz de conjugar o verbo todo - «Onde é que vós ides?», corrigia-me ele quando me ouvia dizer «Aonde é que vocês vão?». A realidade é que foi a última fatura gramatical que pemaneceu e só aos velhos, muito velhos - caso ainda vivam - é que poderíamos ouvir a primeira.

Ao contrário do que certos pretensos puristas possam pensar, não são os dicionários que ditam a língua ao povo, mas o contrário é que é a norma. Mas há normas e modas. Algumas são passageiras, como o calão jovem que se reinventa todos os 5 anos. Quando dura mais é para ficar.

É o caso do «bué». Há já vários anos que o ouço nas conversas de rua em Portugal. Mas agora até já o vejo escrito num blogue sobre livros. «Uma Avó bué da fixe», no «A minha Travessa do Ferreira» (http://aminhatravessadoferreira.blogspot.com/). Fazendo uma pequena pesquisa na Internet descubro que a palavra até já deu entrada no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa em 2001. O que prova quanto os ares daquela terra levam o seu tempo a chegarem até mim. Nem há Internet que me valha!

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Apesar das resistências encontradas na imprensa portuguesa em geral, o LusoPresse decidiu adoptar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa pelas razões que já tivemos a oportunidade  de referir noutro local.

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