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rss  Vol. XV - Nº 245         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2020
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Palavras e ideias

Duarte M. Miranda

Por Duarte M. Miranda*, especial para o LusoPresse

duarte.miranda@videotron.ca

 

dominiquestrausskahn

Nestes últimos dias temos podido acompanhar as tristes notícias da prisão, em Nova Iorque, do Diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, acusado de atos de agressão sexual e de tentativa de violação contra uma jovem empregada de um hotel de luxo naquela cidade, onde ele se encontrava hospedado. Além de ocupar o altíssimo cargo à frente do FMI, o senhor Strauss-Kahn é (era) também um dos mais poderosos e influentes políticos franceses, e talvez mesmo o próximo Presidente da República francesa a ser eleito. De fato, DSK, como é conhecido na França, antigo deputado e dirigente do Partido Socialista francês, estava a alguns dias de anunciar a sua candidatura ao cargo de Chefe de estado do seu país, hipótese que fazia tremer de ansiedade o atual Presidente da República da França, o Senhor Nicolas Sarkozy. Não era para menos: uma maioria de Franceses vinha escolhendo DSK nas sondagens dos últimos meses como seu favorito, o que fora confirmado nas mais recentes pesquisas públicas feitas apenas alguns dias antes da sua prisão. Era uma questão de tempo, antes que ele se decida a demitir-se das suas funções no FMI para poder fazer o anúncio público de seu regresso à política ativa e da sua decisão de apresentar-se às próximas eleições presidenciais em Abril 2012. E, de repente, apareceu-lhe na frente, na sua suite de luxo do hotel nova-iorquino onde ele estava hospedado, mesmo no momento em que ele saía do quarto de banho, nu como Deus o trouxe a este mundo, essa jovem Africana que ele teria decidido, segundo as acusações policiais, «atacar e subjugar» naquele exato momento. Pobre homem!... Que diabo de raio tão poderoso poderá ter-lhe aceso esse espírito carnal tão vulnerável e frágil?

Eu tive a ocasião de conhecer o Senhor Strauss-Kahn há cerca de três ou quatro anos, através de uma conferência anual internacional com a qual eu estou envolvido, e onde ele tem sido um conferencista ocasional. Tinha ido acolhê-lo oficialmente na altura, à sua chegada ao Aeroporto aqui em Montreal. Encontrei-o, portanto, três ou quatro vezes, nestes últimos anos. Sem poder presumir de uma relação de intimidade com ele, posso, por outro lado, afirmar que o meu convívio com ele foi suficiente para poder afirmar que jamais me viria ao espírito que DSK pudesse cair em tal poço, se de fato se vierem a confirmar as acusações criminais que ele agora tem de enfrentar e das quais deverá tentar defender-se. Pelo contrário, minha impressão do homem é (até prova do contrário) uma de respeito e de grande admiração. Há quem diga que Strauss-Kahn seria o segundo homem mais influente e poderoso no mundo, logo a seguir ao Presidente Obama dos Estados Unidos. Economista de formação, DSK vem jogando um papel importantíssimo no mundo, desde que ele assumiu a direção do FMI. Ele foi, sem dúvida qualquer também, um dos principais artesãos que conseguiram puxar o mundo para fora do abismo financeiro e da calamidade que nos sugavam há apenas alguns anos. Devemos-lhe uma boa parte das decisões e políticas que nos trouxeram a relativa estabilidade económico-financeira da qual vimos desfrutando há cerca de dois anos, a seguir à grande crise que tanto nos assustou e afetou. Mais perto de nós, Strauss-Kahn tem sido um aliado importantíssimo nas tentativas de solução para a crise que vem causando tantos danos em alguns países da União Europeia. Seu papel foi primordial para a obtenção de ajuda que Portugal conseguiu negociar com seus parceiros europeus e com o próprio FMI, como foi o caso também para a ajuda conseguida por outros países, particularmente a Grécia e a Irlanda. Como esses problemas não foram completamente resolvidos e afastados, havia, particularmente na Europa, a expectativa de que DSK iria continuar contribuindo na busca e na elaboração de soluções adicionais e mais permanentes que continuam afetando a União Europeia e toda a Zona euro. Mesmo se os altos tenores do FMI clamam a estabilidade e a serenidade, resta-nos agora a dúvida sobre a capacidade e a vontade dos sucessores de Strauss-Kahn em ampliar o modelo de ajuda aos países em dificuldade, como é o caso de Portugal. Esperemos de mãos postas!

O acontecimento e a sua notícia, mesmo tendo em conta todo o ódio que a veracidade dos fatos dos quais é acusado o senhor Strauss-Kahn poderá (legitimamente) suscitar, deixam-me perplexo. Como pode um indivíduo, dono de tantas qualidades e capacidades profissionais e intelectuais, tropeçar de tal forma criminosa se, repito, ele viesse a ser julgado culpado das acusações de agressão sexual e de tentativa de violação? Há na história recente, diversos casos de políticos e outras figuras públicas que vêm sendo acusados ou condenados por atos criminosos ou questionáveis de caráter sexual. Recordemo-nos o caso do Presidente Clinton que teria sucumbido às tenras provocações de uma estagiária da Casa Branca, sem no entanto ter cometido um ato criminoso como tal; o escândalo envolvendo, mais recentemente, o Presidente Burlosconi da Itália em atividades de caráter sexual potencialmente criminosas; o ex-presidente israelita, Moshé Katzav, acusado e condenado há apenas alguns meses por vários atos criminais de caráter sexual, incluindo dois por violação; e as histórias envolvendo um ex-vice-primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim, ou o ex-presidente do Zimbabwe, Canaan Banana; e outros! O que leva indivíduos que terão alcançado tal status e poder a sair do caminho da direitura para atravessar para o lado do crime, e assim satisfazer algum fantasma íntimo, ou até mesmo alguma carência física. Não sei! Não sou especialista na matéria. Criminalistas, psicólogos e outros especialistas poderão sem dúvida esclarecer quaisquer dúvidas e questões que possamos ter sobre o assunto.

Estão começando a aparecer especulações que colocariam Dominique Strauss-Kahn, como vítima, no meio de alguma conspiração e maquinação vis e monstruosas. É verdade que vários interesses teriam muito a ganhar com o tropeço e a queda de Strauss-Kahn: as diferentes facções políticas francesas, tanto da direita como da esquerda, incluindo elementos dentro do seu próprio partido, o PS francês; elementos ligados ao FMI que discordam das suas posições tomadas relativamente à ajuda concedida aos países em dificuldade, como Portugal; houve mesmo quem sugerisse que os Estados Unidos teriam contas a ajustar com o DSK, desde que há apenas alguns dias ele «ousou» criticar seriamente e publicamente o alto endividamento público americano, e as consequências que isso poderia ter na economia mundial, e não seria a primeira vez que o Uncle Sam mostraria toda a sua capacidade de persuasão. Parece-me credível! Alguém terá jogado uma casca de banana debaixo dos pés de DSK, e ele terá escorregado sobre ela. O seu erro foi não se ter precavido contra as cascas de banana que ele sabia muito bem lhe seriam atiradas cada vez com mais frequência e pontaria certeira. No entanto, continuo perplexo, sentindo até uma grande tristeza e uma certa dor. Esperando ansiosamente pelo próximo capítulo para tentar compreender o que de facto aconteceu: a loucura ou o jogo sujo dessas esferas do poder.

«Deus apenas fez um esboço dos seres humanos; foi na Terra que cada um deles se criou a si próprio.»... Velho provérbio africano

* Conselheiro para a internacionalização da economia portuguesa no Canadá

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