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rss  Vol. XV - Nº 245         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2020
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Os Cantos dos Açores no centro do século XIX

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

Começarei com o inevitável cliché: não temos tradição de literatura biográfica, se bem que ultimamente no nosso mercado editorial ela dê sinais de lançar raízes. Isso caso este entusiasmo pelas biografias dos nossos reis não seja passageiro, nem resultado de um desencanto com Abril, apenas significando uma inconsciente saudade da monarquia.

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Maria Filomena Mónica

Uma das melhores biografias portuguesas intitula-se modestamente Antero de Quental. Subsídios para a sua biografia, assinada por José Bruno Carreiro - duas edições, ambas confinadas a Ponta Delgada e datadas de 1948 e 1981. O passaporte para Lisboa nunca chegou a essa obra exemplar. E estamos a falar de Antero, sobre quem, por sinal, existe outra biografia incomparavelmente mais somenos, de Hernâni Cidade.

Maria Filomena Mónica, desinibida cultora do género, regressa com mais um volume, Os Cantos, focalizado sobretudo em José do Canto (1820-1898), o patriarca de uma família da alta burguesia micaelense do século XIX, figura conhecida entre os camonistas pela sua riquíssima camoniana, considerada a segunda do país. Os conhecedores da sua ilha, S. Miguel, facilmente reconhecerão como seu legado a doca de Ponta Delgada, que teve nele o seu maior impulsionador, bem como a ermida neogótica na margem sul da Lagoa das Furnas, ex-líbris local. Outros ainda terão visitado o jardim que leva o seu nome, de rica diversidade botânica há muito reconhecida e admirada. José do Canto, porém, foi acima de tudo um burguês progressista, um moderno empenhado no desenvolvimento da sua ilha (a sua pátria, como aliás também Antero se referia a S. Miguel), a todos os níveis; procurando desvinculá-la dos vícios atávicos que amarravam os portugueses, mesmo os da alta burguesia, com as suas fortunas sugadas na prestação de serviços ao Estado, como ele José do Canto acusa.

Anglófilo, altamente imbuído do espírito ilustrado mas simultaneamente empreendedor da cultura inglesa, até o hábito de se cartear assiduamente com a família traz essa marca. É verdade que viajou constantemente entre os Açores, Paris e Londres e que, ao colocar os filhos a estudar na França e Alemanha, o único meio de a família se comunicar seria a correspondência. Todavia tal intensidade epistolar é fora do comum. Daí que Maria Filomena Mónica tenha tido à sua frente um abundante espólio que lhe permitiu acompanhar pari passu a obsessão de José do Canto com a educação dos filhos, desdobrando-se em preocupações e tentativas de os fazer continuadores da sua obra, anseio que nunca conseguiu ver realizado. Aliás, ele próprio foi testemunha da ruína que se esbateu sobre um desses filhos, o que mais problemas lhe causou. Toda uma utopia, que mobilizara José do Canto e inspirara a sua hercúlea capacidade de intervenção no meio, se desmoronou lentamente e com foros de tragédia. Por isso terá Filomena Mónica decidido embrenhar-se na caracterização dos protagonistas desta biografia com o empenho de uma romancista. Só que, no seu caso, o treino de socióloga amarrou-a (e ainda bem) ao pé da letra das abundantes revelações epistolares que proporcionaram à autora, se não um field day porque um empreendimento desta envergadura demora precisamente devido ao excesso de material, pelo menos a possibilidade de trabalhar denodadamente e com prazer. A empatia da autora pela figura de José do Canto transparece ao longo desta volumosa obra que enquadra com acerto o herói-trágico e a sua família imediata no contexto micaelense e açoriano do século XIX. A rica safra documental recolhida no espólio, coadjuvada por um bom uso (devidamente creditado) da produção historiográfica da nova geração de investigadores da Universidade dos Açores, facilitaram o trabalho de quem sabe agarrar o essencial para enriquecimento de uma biografia, género por natureza transversal em termos de disciplinas académicas.

A profunda, intensa, mesmo dramática relação entre o pai e o filho António consome talvez demasiadas páginas, mas o ritmo dos capítulos iniciais é recuperado à medida que a narrativa se vai aproximando do final.

Devido à enorme semelhança física deste volume com outro, de conteúdo completamente diferente até por se tratar de um romance - Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo - (para mais, decorrendo no século XX), não pude deixar de me lembrar repetidas vezes que os arrendatários das terras de José do Canto foram as gentes do campo que povoaram o livro de João de Melo, cujo espírito de trabalho, em muito comparável também ao dos protestantes, permitiu que a fortuna herdada por José do Canto fosse em sua vida por ele triplicada.

Tal observação poderá parecer moralizante, mas parece-me importante ressalvar que os relatos dos estrangeiros visitantes de S. Miguel no século XIX sobre a pobreza da população da ilha não eram apenas enviesados pela mentalidade anticatólica dos forasteiros. Até uma figura local como Arruda Furtado (o correspondente de Darwin, por sinal contabilista de José do Canto) faz, no seu quase desconhecido Materiais para o Estudo Antropológico dos Povos Açorianos. O Povo Micaelense, retratos que corroboram as críticas dos estrangeiros. Era uma população excessivamente pobre, rude e explorada pelos donos das terras herdadas dos donatários.

Convenhamos, porém, que não foi esta a problemática que Maria Filomena Mónica se propôs tratar. A autora descobriu uma figura ímpar no espaço cultural português e achou dever transformá-la em ícone nacional contrapondo-a aos pares do seu tempo e apontando uma certa burguesia micaelense como caso a merecer atenção para além da ilha.

No meio de uma aristocracia nacional empobrecida e passiva e de uma classe burguesa parasita do Estado, não deixa de ser refrescante ver emergir do meio do mar a força vulcânica de um homem que arrosta com denodo sucessivas intempéries, e só sucumbe quando a sua energia biológica não consegue mais apoiar a sua força anímica.

Por todas estas e mais outras boas razões que o espaço disponível não permite elaborar, o livro recomenda-se sem reservas.

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