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rss  Vol. XV - Nº 245         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 28 de Maio de 2020
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Messias (em Portugal!)

Fernando Pires

Por Fernando Pires

Antes de tudo, devo dizer que isto não é uma crítica literária, apenas um relato, de leitura reservada de algumas passagens narrativas de um romance histórico, mas também realista, sobre as comunidades judaicas europeias mencionadas neste livro, pelo escritor Marek Halter, com personagens judaicas, italianas, portuguesas, e outras. 

 

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 A personagem principal do livro é um príncipe chamado David Rubeni, que surge a meio do livro, sobre a narrativa da sua estadia em Portugal, onde Diego Pires, (aliás, Diogo) foi conselheiro do rei D. Joao III, em que seu pai, D. Manuel, forçou durante a Inquisição, a se converter ao cristianismo.

Mais tarde, este converso teria mudado de nome, passando a chamar-se Cholomo Molkho, tornando-se profeta e devoto do Messias, mensageiro, David Rubeni, convertendo-se agora ao judaísmo através da circuncisão do prepúcio.

«A cavala deste príncipe» teria surgido do rumor vindo do Egito para organizar uma armada para conquistar o reino de Chabor através de «negociantes, eruditos, rabinos, viajantes dignos de fé», espalhando boatos em 1524, na Itália, onde havia muitos judeus. Daí parte a primeira campanha de sensibilização de Davide Rubeni no gueto judaico de Veneza, para chegar à Terra Santa de Israel!

No início, o romance pode interessar todo aquele que é sensível à história de um povo errante, que procura atingir o reino de Chabor. Como príncipe enviado deste reino, Rubeni, diz-se irmão de José, rei de Chabor, ambos filhos do rei Salomão.

O romance não deixa de interessar as gentes do nosso País que melhor queiram interpretar passagens da nossa história através da Inquisição. Grande parte do livro passa-se no gueto judaico de Veneza, Roma, Portugal e, por vezes, noutras partes da Europa. Ficou de parte a Espanha pelo facto do imperador Carlos V, no poder, ser defensor da Inquisição.

Contudo, o autor não deixa por vezes de mencionar dois grupos que giram à volta do imperador que se identificavam como prós e contra Carlos V. Ou seja: o grupo da rainha da Áustria, Catarina, irmã de Carlos V, que se opõe ao judaísmo, e outro grupo encabeçado pelo Mestre da Ordem dos Jesuítas.

Quanto ao mensageiro David Rubeni, a sua função, em Portugal, era o recrutamento de uma armada de soldados para atingir o reino de Chabor. Para isso começou primeiramente por Veneza, onde a comunidade judaica tinha influência nesta República, seguindo-se depois a comunidade judaica romana. Esta, bem relacionada com o Papa Clemente VII através da influência que ela mantinha no Vaticano. É assim que o papa recebendo David Rubeni, lhe entrega credenciais, através do embaixador de Portugal no Vaticano, Miguel da Silva, para que este intervenha junto de D. João III, para que o rei receba e dê apoio ao mensageiro David Rubeni, para o recrutamento de jovens soldados voluntários para a sua armada.

«O plano era de louco». «Propôr ao Papa Clemente VII e aos soberanos europeus uma aliança para travar o expansionismo muçulmano».

Num dos encontros com o Papa Clemente VII, este «ofereceu-se, comprometendo-se, recomendando a D. Joao III a: «ajudar o mensageiro David Rubeni, ao lado dos judeus da Europa» para um dia a armada conquistar Israel!

Como por detrás de um homem há sempre uma mulher, aparecem também três mulheres na missão do príncipe mensageiro, onde duas delas são personagens do livro. Uma delas é Benvenida Abravanel de uma riquíssima família judaica espanhola expulsa em 1492. A segunda é Dina, uma devota e apaixonada pelo Messias.

A caminho de Portugal, o mensageiro e a sua embaixada, conduzida pelo capitão Fernando Morais, tem como missiva um encontro com D. João III, em Almeirim. A Corte reunia em Almeirim, visto que Lisboa era atingida pela peste na altura. Pernoitando no Castelo das Portas de Santarém, D. Rubeni segue depois para Belém ao encontro de João de Barros, que o recebeu na sua biblioteca, em Belém, oferecendo-lhe um «carvacalos» (erro ortográfico), ler, vinho, de Carcavelos.

João de Deus não deixou de dizer ao mensageiro: »Quem não conhece Lisboa, não tem visto coisa boa».

No encontro com D. João III, em Almeirim, o rei prometeu um decreto-lei em Portugal permitindo a David Rubeni recrutar doze mil soldados jovens benévolos, para treinar num campo em Alpiarça.

Acontece que estando a Corte de D. João III dividida por dois grupos. Um chefiado por Rodrigo de Azevedo, mestre da Ordem dos Jesuítas, e o outro pela sua irmã, Catarina, rainha da Áustria, e também pelo seu confessor António de Ataíde. A recomendação do Papa pelo mensageiro não «pôde» ir avante, resta apenas a David Rubeni voltar às comunidades judaicas da Itália, em Veneza, onde antes tinha começado.

De volta, o seu barco foi assaltado por piratas no mar das Canárias. Tendo sido feito prisioneiro conseguiu depois ser libertado e encontrar-se com François I, rei de França.

Passa depois os Alpes, e ei-lo na Suíça, e na Alemanha. Aqui encontra-se com a comunidade Ashkenazi, de inspiração Cabalista. Vendo-se sem apoios na Europa, volta à base. Em Veneza tenta o apoio de Carlos V contra o Império turco, mas as garras da Santa Inquisição esperavam-no tanto ele, como ao profeta Cholomo Molkho (Diogo Pires)

O enviado do reino de Chabor, David Rubeni é agora aqui denunciado no seio da sua própria comunidade, pelo rabino Presidente da (Va ad HKATANDE) de Veneza, um tal Giacobo Mantino. A Santa Inquisição esperava-o agora. David Rubeni vestido de um manto branco foi encaminhado para o Auto-da-Fé público, diante das gentes judaicas. A mesma sorte coube a Diego Pires, também vestido de manto branco. Este foi acusado pelo embaixador de Portugal Miguel da Silva em Veneza: «de ter cegamente abandonado a Igreja de Cristo de quem ele tinha recebido o sacramento durante o seu batismo na vila de Évora, convertendo-se depois ao ritual judaico trocando de nome» - fim da citação.

Aqui fica um pequeno e modesto apanhado da narrativa de um livro de 500 páginas de história fictícia, mas também real!

Ref: Marek Halter, O MESSIAS.

(Edições) Robert Laffont, S. A. - Paris 1996.

Nota: Um livro que merecia ser traduzido em português para melhor justificarmos o nosso Alexandre Herculano, sobre o «Estabelecimento da Inquisição em Portugal»!

Montreal, 16/02/2011.

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