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rss  Vol. XV - Nº 245         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 26 de Maio de 2020
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Clementina Santos, conselheira das Comunidades Portuguesas

«Comunidade não recorre a mim...»

Inês Faro

Entrevista de Inês Faro

Conselheira da Comunidade Portuguesa em Montreal desde outubro de 2008, Clementina Santos falou com o LusoPresse sobre a função que desempenha, o órgão que representa e as dificuldades que a comunidade portuguesa enfrenta para se afirmar no contexto quebequense.

LusoPresse (LP): Que balanço faz do seu papel como Conselheira da Comunidade Portuguesa?  

clementina santos
Clementina Santos

Clementina Santos (CS): Como membro do Conselho Permanente, tenho tido a oportunidade de participar em discussões sobre a problemática da diáspora, o que me tem permitido compreender e saber o que se está a passar a nível mundial. Tem sido uma óptima experiência. Como Conselheira, tem sido mais complicado. Enfrento sérias dificuldades para que as pessoas reconheçam o meu papel como Conselheira. Quando tenho ocasião para me pronunciar sou bem acolhida, mas normalmente e salvo algumas excepções, a comunidade não recorre a mim. Não sei se é pelo fato de ser mulher... Por outro lado, para desempenhar esta função é preciso ter uma certa coragem, uma frontalidade, que não tenho. Se não me sentir bem-vinda ou convidada, não vou, mas isso reconheço que é um problema meu.

LP: Quem se dirige a si, o que pretende saber?

CS: Os pedidos ou perguntas são muito vastos. Penso que cada um tem a sua própria visão sobre as possibilidades que a conselheira tem de os ajudar. Vão desde pedidos de ajuda ou solicitação de fundos para situações muito específicas até pedidos de financiamento para dinamizar associações.

LP: Que poder económico tem a Conselheira e o Conselho das Comunidades (CCP) para responder a esses pedidos?

CS: O CCP não dispõe de fundos que permitam aos Conselheiros sequer uma deslocação, por isso o apoio é muito limitado a nível económico. No entanto, o CCP tem estabelecido protocolos com instituições como o INATEL, por exemplo, com bons descontos para os emigrantes. Outro protocolo importante foi também estabelecido com a Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto que, entre outros, oferece cursos para diretores de associações. São boas ocasiões para se aprender com quem adquiriu conhecimento ao longo dos anos.

LP: Mas o fato de não ter fundos próprios faz do CCP um órgão mais simbólico do que prático?

CS: Sim. Temos um Conselho Consultivo, mas muitas vezes só recorrem a nós quando os outros meios já foram consultados... muitas vezes estamos face a uma decisão que já foi tomada sem nos perguntarem a nossa opinião, mesmo se essa decisão está relacionada com a diáspora.

LP: Então qual é a utilidade de um órgão como o Conselho das Comunidades Portuguesas?

CS: É uma maneira para o governo justificar as políticas que ele dedica à emigração. «Ah! mas o Conselho das Comunidades foi ouvido ou esteve lá». Mas muitas vezes já é tarde, já a decisão foi tomada quando somos consultados...

LP: E qual deveria ser o papel deste Conselho?

CS: O que devia era ter como ponto de partida o que diz a constituição portuguesa. Se o acesso igual à educação em língua portuguesa deve ser igual para todos, esse deveria ser um dos papéis fundamentais que o Conselho poderia desempenhar: fazer tudo ao seu alcance para que o acesso à língua materna seja igual para todos, dar a possibilidade a todas as comunidades de terem acesso a esses serviços. Outras áreas de trabalho deveriam ser, por exemplo, assegurar o mínimo de bem-estar social para cada um dos nossos emigrantes, tendo em conta que muitos deles fizeram mais de metade da vida activa em Portugal. É necessário assegurarmo-nos que essas pessoas estão bem. Outro exemplo, seria assegurar o bom funcionamento dos serviços consulares portugueses em todo o mundo.

LP: Quais entende serem as maiores dificuldades no funcionamento da comunidade portuguesa em Montreal?

CS: Falta de união, sem dúvida. A dificuldade em unir-nos e falar numa só voz. Temos como exemplos outras comunidades como a italiana e a grega. O peso quer político, quer social dessas comunidades é muito mais forte do que o da comunidade portuguesa. Nós não fomos capazes de nos unirmos. E essa união é fundamental para criar uma presença portuguesa que fique para a história, para o futuro, para os nossos filhos e netos.

LP: De acordo com a sua experiência, o que diferencia a comunidade portuguesa em Montreal de outras comunidades portuguesas no mundo?

CS: O que conheço foi o que aprendi com os meus colegas. Na Europa, a maior proximidade física com o governo central faz com que as dificuldades sentidas sejam menores. Mas, por exemplo, a nível do associativismo as dificuldades são as mesmas - à exceção da Venezuela, talvez. Além disso, o Conselheiro é eleito nos centros urbanos e a falta de meios não lhe permite ter acesso às comunidades portuguesas fora desse centro. O ensino de português para estrangeiros é outro dos problemas... ainda este ano alguns países ficaram meses à espera de professores. Estes são alguns problemas de base, mas depois cada comunidade tem os seus problemas específicos.

LP: Que conselhos daria agora à nossa comunidade?

CS: Que se unam. Trabalharmos em conjunto para deixarmos uma marca portuguesa da nossa presença em Montreal. Já temos bons exemplos como a Caixa Económica ou a Missão de Santa Cruz, com trabalho excecional desenvolvido junto da comunidade cristã. É necessário também tirar as pessoas do isolamento e concretizar serviços para essa população que está a envelhecer, como a criação de residências. Outra área a investir é na formação académica, já que somos das comunidades no Quebeque com menores qualificações. Apelo à união em todos os sentidos, com mais unidade teríamos muito mais peso político.

LP: O que tem a dizer sobre a não reeleição dos únicos dois deputados luso-canadianos nestas eleições?

CS: Ainda estamos todos muito surpreendidos com o que se passou... Conheço menos o Mário Silva, mas pessoas de valor como a Alexandra Mendes não se vêem todos os dias e foi uma grande perda... Agora devemos começar imediatamente a preparar-nos para as próximas eleições, e isso é válido para a Alexandra, para o Mário e para todos os outros que possam contribuir.

Para conhecer as competências do Conselho das Comunidades Portugueses visite:

http://www.conselhoccp.com/

Para saber mais protocolo estabelecido entre o CCP e a Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto visite:

http://www.confederacaodascolectividades.com/noticias_detalhe.asp?id=734

O Protocolo entre o CCP e o INATEL está disponível online através do seguinte sítio web:

http://fapa-info.blogspot.com/2009/05/protocolo-de-cooperacao-entre-o.html

 

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