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rss  Vol. XV - Nº 243         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 22 de Janeiro de 2021
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Ver... sões possíveis

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

Um dia arribou-me aí o e-mail de um sociólogo amigo que muito prezo. Vive na estranja e escrevia assim: Tenho sido repetidamente confrontado com a pergunta «donde vem a expressão para inglês ver? A minha biblioteca portuguesa está em Lisboa e portanto não posso consultá-la. Existirá algum texto elucidativo sobre o assunto? [.]

Grato pela sua ajuda, e desculpe o incómodo.

parainglesver

Não trabalho no Observatório da Língua Portuguesa e até bem que me vejo e desejo por vezes com as minhas próprias dúvidas linguísticas, a ponto de pedir socorro à Leonor aqui à mão ou, a uns poucos toques no teclado, ao meu caríssimo Eduíno de Jesus, em Lisboa, ele sim um mestre da língua. Todavia respondi assim ao ilustre correspondente:

Vou ver se encontro aí um dicionário de expressões coloquiais. Conheço uma versão brasileira sobre a origem dessa, mas não sei se explica o seu uso tão frequente em Portugal. A expressão é de facto também muito usada entre brasileiros, mesmo aqui à minha volta. Teria supostamente surgido quando o Governo de Regência do Brasil, face às pressões inglesas, promulgou uma lei proibindo o tráfico negreiro, creio que mesmo declarando livres os escravos e prometendo castigo aos infractores. Como a sensibilidade local era completamente contra a decisão, terá circulado a explicação cochichada por um ministro: Essa lei é só para inglês ver.

Si non è vero. Mas vou averiguar.

Curiosamente, tive um professor de Inglês, autor de uma gramática dessa língua, que fora missionário no Oriente tendo trabalhado vários anos em Singapura. Quando na aula líamos indevidamente consoantes supostamente mudas, ele avisava: Cuidado, cuidado! Essas letras são para inglês ver e português não pronunciar.

Em resposta, o meu amigo não escondia o entusiasmo. Instigava-me mesmo a escrever um ensaio sobre o tema. A verdade é que ainda me pus à cata de mais dados; no entanto apenas dei com uma frase de Machado de Assis a propósito de posturas municipais, na sua crónica de »A semana" (8-1-1893): Que se cumpram algumas, é já uma concessão utilitária; mas deixai dormir as outras todas nas coleções edis. Elas têm o sono das coisas impressas e guardadas. Nem se pode dizer que são feitas para inglês ver.

Foi só. Não dava para ensaio nenhum e nem sequer para crónica de jeito. Na verdade, dessa expressão não se pode concluir nada sobre a nossa cultura face à inglesa ou outra qualquer. D. Manuel tentou fazer vista grossa à sua ordem de expulsão dos judeus dando-lhes vinte anos para se converterem devagarinho. Foi como se dissesse: Esta lei é só para espanhol ver. E vai daí? A Constituição portuguesa é uma das mais avançadas da Europa, até diz que o nosso regime é socialista. Ora isso é só para que conste internacionalmente o nosso vanguardismo. Para o mundo ver. Usamos abundantemente o termo fachada (da mesma família semântica) e dizia-se no tempo de Salazar Ele tira de onde é necessário para pôr onde faz vista. Quando afinal isso era um hábito bem mais antigo - não culpa dele, que cumpria apenas uma tradição herdada de antanho.

Recordo-me de, em jovem, ter um dia chamado a atenção de um amigo americano para o facto de ele ter a T-shirt do avesso. Explicou que não lhe restava nenhuma lavada e por isso virara para fora a parte tocada pelo suor de modo a poder sentir no corpo a mais limpa. Caí de queixo porque na minha cultura fazia-se exactamente o contrário. A sala de jantar para as visitas. O resto, escondia-se. E ainda hoje há muitos restaurantes portugueses elegantérrimos até o cliente necessitar de ir à casa de banho.

Ora, ora, nada de ilações! Querer por exemplo associar o aqui dito com as estatísticas escolares e com o mais que Portugal manda para Bruxelas ver é puro abuso linguístico. Seria como explicar a origem doutra comparável expressão - a ver navios -, com a estória apócrifa de Onassis em festa de núpcias com Jackie ex-Kennedy. Após a boda, o envelhecido milionário grego tê-la-ia levado ao porto Pireu a mostrar-lhe os seus iates um após outro. Daí que a noiva tenha passado a noite a ver navios.

Nada a ver, pois.

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