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rss  Vol. XV - Nº 243         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 22 de Janeiro de 2021
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Palavras e ideias

Duarte M. Miranda

Por Duarte M. Miranda*, especial LusoPresse

duarte.miranda@videotron.ca

Uma das grandes preocupações que vem tomando pé nas esferas mais altas das organizações multilaterais internacionais tem a ver com a questão da segurança alimentar mundial. Pode parecer ficção para alguns, e um problema unicamente relativo a países em desenvolvimento para outros, mas a realidade é que nos últimos anos, e de maneira mais acentuada desde o início de 2008, têm-se vindo a verificar uma certa escassez de produtos alimentares básicos, e um aumento considerável dos custos de produção desses alimentos. Foi, entre outras, por estas razões, que as mais altas instâncias das Nações Unidas, lideradas pelo seu secretário-geral, Senhor Ban Ki-moon, decidiram criar em abril de 2008 uma Equipa Especial de alto nível sobre a crise mundial da segurança alimentar. Na época, o secretário-geral Ban Ki-moon havia declarado: « A segurança alimentar e o equilíbrio nutricional são os fundamentos de uma vida decente, de uma boa educação e da realização de todos os objetivos de Desenvolvimento do Milénio.» O programa Desenvolvimento do Milénio faz parte de uma campanha das Nações Unidas, iniciada em 2002, para a promoção do desenvolvimento humano.

seara

É também movida pelas mesmas preocupações que a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) vem atuando de forma persistente para promover a segurança alimentar no mundo. A FAO tem como papel principal a elaboração e o mantimento de esforços internacionais para combater a fome, e é composta de 191 países membros, entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento. Durante a cimeira do organismo de novembro de 2009 em Roma, o Diretor-geral da FAO, Dr. Jacques Diouf, declarou: «Chegamos a mil milhões de pessoas que sofrem da fome...» Mesmo se esta cimeira, é certo, tinha como objetivo principal a sensibilização dos dirigentes dos países desenvolvidos às enormes dificuldades e às necessidades crescentes dos países em desenvolvimento, o fato é que a mobilização deu-se num contexto mundial onde é crescente a preocupação pelo rumo que vai levando a questão da produção dos produtos alimentares básicos, de forma geral, e não só nos países em desenvolvimento. Se as consequências são sobretudo sentidas nos países em desenvolvimento mais pobres, elas não deixam também de afetar a situação nos países desenvolvidos. É através desta última tangente e consideração que eu desejo expor aqui certas opiniões e sugestões. Digo bem, trata-se de compartilhar certas ideias, opiniões e sugestões com os leitores do LusoPresse, visto que não tenho a pretensão de ser um especialista na matéria.

Recentemente, são vários os analistas e especialistas que nos vêm alertando para o fato que os preços dos alimentos têm aumentando de forma preocupante, a ponto mesmo de fazer com que um número cada vez maior de pessoas tenha dificuldade em comprar certos alimentos. A própria Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) vem publicando regularmente estudos e relatórios que põem em evidência esta grande problemática e suas consequências. Entre as principais causas para esta situação, segundo esses mesmos analistas e especialistas - e, isto nós compreenderemos bem - estão, principalmente e entre outras, as seguintes: mudanças nas condições climáticas; o custo crescente da energia, cada vez mais utilizada na produção de alimentos; o aumento considerável que se vem verificando na procura de alimentos, particularmente nas economias que estão crescendo mais rapidamente, como é o caso na China, na Índia, ou até mesmo no Brasil; os estragos causados por calamidades climáticas e secas em várias regiões do mundo; o custo sempre crescente das matérias-primas utilizadas pelos agricultores em suas produções, grandes como pequenas, tais os adubos e sementes; uma aceleração na diminuição do número de produtores na agricultura e agropecuária; etc. Todos nós sentimos, de uma maneira ou de outra, os efeitos reais e cada vez maiores desta realidade. Basta ver como muitos dos produtos que compramos, de repente, passam a ser vendidos em vidros, latas ou pacotes mais pequenos, mas ao mesmo preço dos maiores anteriores: uma forma encontrada pelos produtores e fabricantes para que nós consumidores não nos apercebêssemos facilmente do aumento de preços que eles, na realidade, nos estão impondo de maneira astuciosa e até enganosa.

Mas esta crise, diretamente ligada à segurança alimentar mundial, pode também trazer, a meu ver, algumas oportunidades para alguns países e seus trabalhadores. Isso poderia ser o caso em algumas das regiões de Portugal. Numa crónica anterior, em novembro passado, eu salientava, através de um velho ditado chinês («Se um homem tem fome não lhe dê um peixe, ensine-o a pescar. ») a importância (oportunidade) de ensinar melhores técnicas de produção agrícola aos trabalhadores que vêm sendo afastados do trabalho do campo a favor de oportunidades mais temporárias, como vimos constatando, na construção civil. Já havia e há uma real oportunidade de reanimar a atividade agrícola e agropecuária nos Açores como em outras regiões portuguesas. Se as concessões que o país vem fazendo ao longo dos anos, como condições à obtenção de ajudas e subsídios da UE, desde a sua adesão à CEE em janeiro de 1986, não permitem a Portugal de mudar as regras de jogo unilateralmente, que se negociem novas condições! Em novembro passado, eu sugeria que, em relação aos Açores, «Não é verdade que qualquer produção agrícola açoriana pudesse trazer qualquer prejuízo que fosse aos grandes produtores da União Europeia.» O argumento, creio, vale para Portugal, tendo em vista o tamanho do nosso país.

Para tentar dar mais ênfase ainda a estas minhas sugestões, basta recordar o conselho que o ministro português da Agricultura, António Serrano, dava, há apenas alguns dias, aos desempregados para que aceitem trabalhar no campo. Dizia ele: «Gostaria de ver mais gente que está no desemprego a aproveitar a oportunidade que o setor da Agricultura cria... » O ministro dava a entender que, atualmente, o mantimento da produção agrícola portuguesa só está sendo possível com o recurso à « mão de obra externa.» Alguns dias depois, era a vez do secretário de Estado do Desenvolvimento Rural afirmar, segundo o Diário de Notícias, que Portugal tem cerca de dois milhões de hectares de terra abandonada e semi-abandonada. Dizia ele: «Isso significa desperdício, um luxo a que Portugal não pode dar-se.» Já nos Açores, ao que podemos constatar, o Governo regional vem fazendo esforços para revalorizar a atividade agrícola, e para facilitar o acesso ao campo, particularmente aos mais jovens, através de várias formas de auxílio e subsídios. Mas, força é de admitir que, mais ainda do que o que constatamos no governo central de Portugal, os recursos e os meios à disposição do Governo regional açoriano são, no mínimo, limitados, senão quase inexistentes. É preciso chegar-se a um plano de ação, no país inteiro, sob a liderança do governo central, e com o apoio das devidas instâncias da UE que venha permitir a criação de novas oportunidades produtivas nesse setor. Se o aumento da atividade agrícola é possível em países como o Brasil ou a China, que estão entre os principais celeiros do mundo, porque não em Portugal? Além de vir oferecer novas oportunidades à economia portuguesa e aos trabalhadores portugueses durante esta época de grande crise socioeconómica, um aumento do investimento nos setores agrícola e agro-pecuário teria também como efeito de ajudar, mesmo se de forma muito indireta e mínima, a combater o problema da segurança alimentar a nível mundial.

«Quem mendiga em silêncio morrerá de fome em silêncio.» Provérbio indiano

* Conselheiro para a internacionalização da economia portuguesa no Canadá.

Fontes :

http://www.theglobalist.com

ftp://ftp.fao.org/docrep/fao/Meeting/018/k6050f.pdf

http://www.un.org/french/issues/food/taskforce/

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