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rss  Vol. XV - Nº 243         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 22 de Janeiro de 2021
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Arquivos pessoais

Por ocasião da passagem do 50º aniversário de A Voz de Portugal, andei a vasculhar nos meus velhos papéis e encontrei um texto que fiz publicar naquele jornal há precisamente 20 anos. Foi na edição do dia 25 de abril de 1991.

Por vezes receio reler-me, assim a tão grande distância no tempo, temendo que o passar dos anos me tenha vindo contrariar a opinião ou a previsão da altura. Realmente há neste texto algo que não se verificou, e provavelmente nunca se verificará. A não ser que o senhor Harper, caso venha a formar um governo maioritário, considerando a sua obsessão pelo estado policial, venha confirmar o que eu temia naquela altura. Vejam se ainda estou enganado...

CDJ

Outra Era

Por Carlos de Jesus

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Os pássaros vinham comer na nossa mão

Em 18 anos de Canadá - que vou fazê-los no primeiro de Maio - tenho vindo a assistir a transformações profundas desta sociedade. Infelizmente não posso dizer que tenham sido pelo melhor.

Quando cheguei, em 73, as primeiras impressões foram a de uma sociedade dinâmica, efervescente, moderna. Havia um ar de festa e de entusiasmo contagiante. Falava-se da Exposição Mundial (l'Expo de 67) como se tivesse acabado nas vésperas da minha chegada e falava-se já, com um entusiasmo delirante dos Jogos Olímpicos de 76.

Mas outros aspetos, menos espetaculares, me prenderam mais agradavelmente a atenção na altura. Por detrás daquela aparência de modernidade e progresso vim encontrar uma sociedade quase rural e ingénua.

Recordo-me, por exemplo, da facilidade com que os pássaros nos vinham às mãos! Recordo-me que o Metro de Montreal era duma limpeza spic-and-span e que os jovens guardavam os papéis dos chocolates nas algibeiras em vez de os lançarem para o chão.

Recordo-me que me espantava por, no banco, não ser preciso preencher os talões de depósito com a quantia por extenso e sem rasuras como se fazia em Portugal. Para o bancário que eu era na altura, uma tal prática deixava-me adivinhar uma possibilidade imensa de falcatruas por parte de depositantes desonestos. Afinal acabei por compreender que é tudo uma questão de mentalidade (devia dizer de confiança nos indivíduos e nas instituições).

Mas houve mais. Houve sobretudo a questão dos costumes políticos que me deixavam boquiaberto. Recordo-me, por exemplo, duma entrevista na televisão (da Rádio Canadá), do jornalista André Payette ao então primeiro-ministro Pierre Trudeau. A primeira surpresa foi a de ver a desenvoltura com que o jornalista, sem gravata, se dirigia ao homem mais poderoso do país. Este, que já era mestre na arte de confundir os entrevistadores, a determinada altura resolve responder a uma pergunta com outra pergunta. Reacção imediata do jornalista - que jamais esquecerei - «Aqui, quem faz perguntas sou eu!».

Estas atitudes, esta falta de subserviência, este conceito de que cada um é dono em sua casa, agradavam-me sobremaneira. Sobretudo tendo em conta que ainda estavam frescas da véspera as recordações dos jornalistas da RTP que baixavam os olhos para falarem, nas raras vezes em que podiam falar, com os ministros do salazarismo-caetanismo.

É preciso notar que quando cheguei ao Canadá tinha portanto acabado de deixar um país policial nos costumes e nas mentalidades. Um país onde, até prova em contrário, todo o cidadão era suspeito e eu, aos dez anos, como qualquer criminoso, já tinha que dar ao estado as impressões digitais, para poder entrar no liceu.

Hoje recordo-me, com um sorriso condescendente, a minha preocupação dos primeiros dias em não sair de casa sem ter o passaporte na algibeira!

Nestas condições, não admira que os costumes políticos desta terra me deixassem perplexo. Como, por exemplo, ver os recenseadores andar de porta a porta a perguntar os nomes dos moradores, para os inscrever nas pautas eleitorais, sem jamais pedirem uma prova de identidade, e ver depois as ditas pautas com todos os nomes, moradas e profissões, atadas por um cordel a um poste de eletricidade, em cada esquina de rua, para consulta pública. Era simplesmente espantoso. Os recenseadores ainda hoje não foram para o desemprego, mas as pautas já não são públicas e a gente agora recebe-as pelo correio (para evitar os roubos de identidade).

A não existência de cartões de identidade também ainda é uma realidade, mas que não vai durar muito tempo. Os tempos mudaram. O Canadá já não é uma vilória onde o sheriff conhece toda a gente. A prova vi-a hoje no jornal. Dentro em breve a carta de condução vai passar a ter a fotografia do condutor. A seguir vai ser o Cartão do seguro de doença, também com fotografia. Depois será o cartão de eleitor para acabar por haver um bilhete de identidade. Adeus idade da inocência.

PS - Neste 30º aniversário de A Voz de Portugal, saúdo e agradeço a todos os leitores, colaboradores, anunciantes e amigos que nos têm incitado a manter viva esta voz lusitana em terras de imigração. Bem hajam!

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Apesar das resistências encontradas na imprensa portuguesa em geral, o LusoPresse decidiu adoptar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa pelas razões que já tivemos a oportunidade  de referir noutro local.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.
 
Carlos de Jesus
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