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rss  Vol. XV - Nº 241         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 03 de Agosto de 2020
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Idas e vÍnd(i)as da vida

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

Em mini-colóquio no King Juan Carlos Center, da New York University, mesmo na Washington Square que ofereceu um título a Henry James, aprendi imenso num painel. O tema era Goa e vinha a propósito de um dos livros ali a serem lançados, o Parts of Asia, número temático da Portuguese Literary & Cultural Studies, coordenado pela antropóloga Cristiana Bastos.

Victor Rangel-Ribeiro, goês de 85 anos pleno de finíssimo humor e bonomia sage, de quem na minha ignorância nunca ouvira falar, cativou-me desde o primeiro minuto da sua charla. Contou como foi educado pelo mais patriótico lusitano dos pais, já adulto aquando do regicídio mas que, décadas depois, ainda chorava a morte de D. Carlos. Transmitiu a mágoa ao filho, que a curtiu na infância e adolescência. Cantava nesse tempo o hino nacional (até entoou uma amostra p'rà gente ver como ainda se lembrava) sempre em Goa, o solo onde vivia e donde conhecia Portugal. Mais tarde mudou-se para Bombaim e um dia, ao ser surpreendido por motins nas ruas, pôs-se a indagar dos motivos: Fora com os ingleses! E ele: Que bela ideia! Todavia, pouco depois aliava-se aos nacionalistas indianos para exigir também a expulsão dos portugueses. Apesar disso quando, passados anos, viajando de barco, via Suez, a caminho dos Estados Unidos (onde ainda hoje vive) deparou com as costas do Algarve e, já mais fora, a serra de Sintra - garantiu que, na altura, conseguiu na sua imaginação enxergar Coimbra! - confessou lágrimas impossíveis de conter e um enorme impulso de se atirar a nado em direcção àquela sua terra onde nem um pé tinha jamais posto.

A revista inclui um texto dele, pesquisa histórica sobre o século XIX de Goa. Ficou-me a vontade de saber mais sobre essa identidade misturada de goês, português, indiano e norte-americano.

Tais estórias evocaram-me o encontro recente com um outro indiano. No aeroporto de Boston eu aguardava o Germano Almeida, no tardio voo de Cabo Verde. Um moço aproxima-se, entre o tímido e o nervoso, a pedir ajuda. Chegava da Índia em primeira viagem aos States. Tinham ficado de lhe enviar um e-mail a indicar o hotel e precisava aceder à rede wireless do aeroporto, mas não conseguia. Ajudei-o. Descobriu o endereço: em Beverly, a meia-hora para norte. Novo problema: a mensagem dizia ser importante telefonar se chegasse depois das dez da noite, e eram quase onze. Do seu telemóvel, porém, não obtinha ligação. Mais stress. Procurando acalmá-lo, pedi-lhe o número e liguei do meu. Conseguiu falar e obter informações sobre como entrar no apartamento. Que transporte? A esta hora só de táxi, responderam-lhe. Fita-me, não direi com ar pálido porque era moreno, mas implorativo. Nos olhos exibia medo. Garanti-lhe segurança e encaminhei-o para a fila de táxis. A sorte ditou-lhe um taxista árabe e aí ele não escondia pânico mesmo. Com os dois frente a frente, acertei o preço da viagem e disponibilizei os meus contactos. Que me telefonasse caso houvesse algum problema. Só para o sossegar, porque os táxis são de facto fiáveis.

No dia seguinte telefonou-me, mas para se desfazer em agradecimentos. E dois dias depois arribava o e-mail de um tal Vikram, que a princípio não reconheci. Fora googlar-me e identificara-me. Super-reverente, precedendo o meu nome de títulos, desfazia-se em sinónimos de grato. Não sabia como, mas queria arranjar modo de mostrar o seu reconhecimento.

Respondi-lhe de imediato. Que nada disso! E, como ele já sabia que eu era português, se lembrasse que de certeza há 500 anos algum indiano seu compatriota ajudara um patrício meu, de ceroulas na mão, e de certeza sem wireless, telemóvel ou táxi, quando chegou à Índia, com meses de cansaço de viagem, sobrevivente de tempestades e não apenas de razoavelmente desconfortáveis horas em assento de avião. Ora nunca é tarde para se retribuir um gesto, ou pagar uma dívida.

O tempo no resto do mundo

Acordo Ortográfico

Apesar das resistências encontradas na imprensa portuguesa em geral, o LusoPresse decidiu adoptar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa pelas razões que já tivemos a oportunidade  de referir noutro local.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.
 
Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2020