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rss  Vol. XV - Nº 241         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 25 de Novembro de 2020
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Editorial

Atualidade conturbada

Por Carlos de Jesus

Dir-se-ia que vivemos num período de aceleração histórica. O comum dos mortais não tem tempo para digerir tanta informação. Faltam-nos meios para compreendermos e analisarmos o que se está a passar no mundo. Ora por obra da mão do homem ora pelas forças da natureza, o mundo está a mudar de hora a hora, a um ritmo alucinante.

Anteontem foi a queda do Muro de Berlim - que os mais afoitos viam como o fim da história. Veio depois o 11 de Setembro para lhes provar quanto estavam errados. Seguiu-se a crise financeira, com a derrocada da economia global. Os grandes impérios bancários caíram uns a seguir aos outros e com eles a indústria automóvel, os transportes aéreos, o turismo, o comércio. Milhares de empregados foram despedidos, milhares de pequenos proprietários perderam as suas casas. A juventude por toda a parte, viu cortadas quaisquer veleidades de esperarem por um futuro próspero e tranquilo como a geração de seus pais. Foi um tsunami económico cujas vagas continuam a assolar as economias mais frágeis, como a portuguesa por exemplo, de que as manifestações da chamada «geração à rasca» do passado domingo são exemplo patente.

Mas ainda a crise económica mundial não foi absorvida, e eis-nos que a atualidade - embora com o aquecimento global, o conflito Palestina-Israel, a «ingovernança» da África negra ou a guerra ao terrorismo, como ruído de fundo - nos anuncia a primavera árabe. Primeiro a Tunísia, logo seguida do Egito e depois da Líbia, passando pela Argélia, Marrocos, Bahrein, Jordão, Síria, Iémen...

Se nos dois primeiros casos se falou em «Revoluções dos Jasmins», o mesmo não se pode dizer do resto do mundo árabe. Alguns com tato, como está a ser o caso do Rei de Marrocos que parece dirigir-se para uma monarquia constitucional, mas para outros a resposta tem sido pela boca das armas. É o caso, particularmente criminoso, da Líbia de Kadhafi onde a revolta está em vias de ser esmagada pelas forças mercenárias daquele ditador sem escrúpulos que bombardeia a sua própria população civil.

E, quando já todos vivíamos suspensos aos noticiários que nos anunciavam o despertar da juventude oprimida do mundo árabe, ansiosa por liberdade e democracia, eis-nos que outro furacão noticioso nos entra pela porta dentro, desta vez tratando-se do triplo desastre que se abateu sobre o Japão, na semana passada.

Ao mais violento tremor de terra que o país nipónico jamais tinha conhecido - grau 9 na escala de Richter - sucede-lhe um titânico tsunami cujas imagens nos ficarão imperecíveis por muito tempo - barcos de casco ao ar no meio da cidade, automóveis no cimo de telhados, edifícios a navegar sobre as águas como jangadas de cimento à deriva. Uma cidade, pelo menos, completamente arrasada. Milhares de mortos e desaparecidos. E, depois do insuportável, o pior estava para vir. A explosão das centrais nucleares com todas as consequências que mal podemos adivinhar.

É assim a atualidade. As notícias de hoje escondem as de ontem. Mas nem por isso as realidades que elas retratam deixam de existir. Enquanto a África vive de sangue e de lágrimas na Costa do Marfim, na Guiné, na Libéria, na Nigéria, na Serra Leoa, no Togo, na Eritreia, na Etiópia, na Somália, no Sudão, no Uganda, no Burundi, no Congo ou no Ruanda - para não mencionar senão os países em declarado ou latente estado de guerra - o mundo árabe vive a revolta da juventude sem futuro e o mundo islamita vive as contradições sangrentas do choque cultural entre o mundo tradicional e o mundo moderno, de que o Paquistão e o Afeganistão são palcos quase esquecidos das nossas preocupações.

Para chegarmos agora ao Japão. A terceira economia mundial, a seguir aos Estados Unidos e à China. Com uma economia mundial periclitante, onde os mais pequenos são obrigados a cortar ainda mais aos mais pobres para granjear a esmola dos maiores, como é o caso da Grécia, da Irlanda e de Portugal; com os custos do petróleo em alta devido ao que se passa no mundo árabe; com a bolsa cautelosa e de pé atrás em relação às perspetivas económicas mundiais, o governo nipónico tem um desafio imenso a enfrentar para a reconstrução do país, tanto mais que o país está extremamente endividado.

O Japão é já hoje o país mais endividado do mundo industrial. A sua dívida é quase o dobro do que produz anualmente (5 biliões de dólares americanos, no ano passado). Mas não é só de uma crise financeira que se trata. A ela vem juntar-se também a crónica baixa demográfica. O Japão é um país envelhecido e extremamente xenófobo - os japoneses são profundamente reacionários à imigração. Mas desta vez terão que aceitar a mão-de-obra vinda de fora. Não só para a reconstrução do país mas para a abertura da sociedade ao mundo externo. De outro modo, com a produção a ponto morto, e sem o auxílio de braços do exterior, a reconstrução acabará por levar o país a uma decadência acelerada. E quem diz braços, diz cérebros.

Esta é a nossa leitura da atualidade de hoje (desculpem a redundância). Mas até quando? Que novo cataclismo nos trará o amanhã para nos obrigar a refazer as nossas conclusões? Uma revolta vitoriosa na Praça Tiananmen? Uma revolução dos cravos no Irão? Uma solução pacífica para a Costa do Marfim?

Amanhã veremos!

O tempo no resto do mundo

Acordo Ortográfico

Apesar das resistências encontradas na imprensa portuguesa em geral, o LusoPresse decidiu adoptar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa pelas razões que já tivemos a oportunidade  de referir noutro local.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.
 
Carlos de Jesus
Diretor

 
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