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rss  Vol. XV - Nº 241         Montreal, QC, Canadá - sábado, 08 de Agosto de 2020
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«O Cônsul» de Menotti

Inês Faro

Por Inês Faro

O que deve prevalecer: obedecer a uma lei injusta ou agir de acordo com a consciência moral? Imagine-se um cônsul durante o período da II Guerra Mundial. Colocaria a sua vida em risco e o bem-estar da sua família para salvar vidas de desconhecidos?

São estas as questões que deixa em aberto "O Cônsul" (1950), ópera em três atos de Giancarlo Menotti, o quarto espetáculo desta temporada da Ópera de Montreal, que esteve em exibição de 5 a 12 Março no Monument National.

Esta ópera moderna conta a história de Magda Sorel, mulher do dissidente político John Sorel perseguido pela polícia secreta, que passa os seus dias à espera de um visto que a conduzirá à liberdade. Embora Menotti não o diga expressamente, a ação passa-se na república soviética no pós II Guerra Mundial. Quando chega ao consulado, Magda depara-se com uma secretária vestida de preto e de semblante carregado, que cumpre escrupulosamente as ordens superiores. Na sua mesa veem-se papéis e mais papéis que uma máquina burocrática acabará por engolir. O senhor cônsul, sem nunca aparecer, não pode ser incomodado. Os dias passam e no consulado juntam-se a Magda outras tantas pessoas que por circunstâncias geopolíticas ou casuais se encontravam no sítio errado à hora errada. O cônsul de Menotti opta por ser fiel ao seu regime. Magda é vítima desta escolha: suicida-se, pondo termo a uma espera inglória.

A exibição da ópera "O Cônsul" pela Ópera de Montreal pode também servir para relembrar histórias de governação e diplomacia em que a consciência moral prevaleceu, resultando num final feliz.

Aristides de Sousa Mendes, o Cônsul português

consul aristides s mendes promenade

Depois de ter presenciado o julgamento do criminoso nazi Adolf Eichmann, num fenómeno que chamou a "banalidade do mal", a filósofa alemã de origem judaica Hannah Arendt, questionou-se sobre a capacidade do homem julgar individualmente - ser capaz de distinguir o bem do mal, independentemente da opinião da maioria.

Aristides de Sousa Mendes, cônsul em Bordéus durante a II Guerra Mundial, foi um dos raros homens que protagonizou a ética que Hannah Arendt viria a defender no rescaldo da II Grande Guerra: uma ética que não é cega a princípios rígidos, mas antes uma ética da responsabilidade para com os outros.

Em Junho de 1940, o cônsul português contrariou as ordens do governo de Salazar - o Ministério dos Negócios Estrangeiros emitira a 11 de Novembro de 1939 a circular nº 14 que proibia a emissão de vistos "a russos, checos, húngaros e, em nenhuma circunstância, a judeus". Num Velho mundo em convulsão, o cônsul português distinguiu-se de outros tantos "Cônsul(es)" de Menotti. Sousa Mendes recusou o princípio da obediência em prol da salvação de vítimas de perseguições políticas, religiosas ou raciais. A convicção e os princípios morais de Sousa Mendes pouparam a vida a 30.000 refugiados, entre os quais 10.000 judeus, que engrossariam provavelmente as cifras negras da "solução final" levada a cabo pelo regime de Hitler.

Apesar da nobreza das suas ações, a desobediência de Aristides de Sousa Mendes acabaria por o condenar à miséria. Proibido de exercer a sua profissão, o cônsul português viu-se obrigado a vender todos os seus bens para poder sustentar a família de 14 filhos. Sousa Mendes passará depois os últimos anos da sua vida como um refugiado, a comer na cozinha israelita de Lisboa. Morre na pobreza em 1954.

Quantos diplomatas por esse mundo fora ousariam arriscar a sua vida e dos seus para salvar um ser humano? Conhecem-se outros homens que durante a II Guerra Mundial desafiaram as leis dos seus governos como Carl Lutz da Suíça, Hiram Bingham dos EUA e o alemão George Ferdinand Duckwitz, entre outros.

Mas Aristides de Sousa Mendes é o herói português que nunca é demais relembrar já que a história nem sempre lhe fez justiça. A sua decisão de assinar vistos sem olhar a credos ou etnias salvando a vida a 30.000 pessoas é um exemplo da superior consciência moral de um só homem, responsável por mudar tantos destinos.

"O Cônsul" foi uma produção do Atelier Lírico da Ópera de Montreal em colaboração com a Escola Nacional de Teatro. A música esteve a cargo da Orquestra de câmara da Universidade McGill. Com esta ópera, Giancarlo Menotti ganhou o Pulitzer Prize para composição musical e o prémio de melhor Musical atribuído pela New York Drama Critics Circle.

Nos dias 19, 23, 26, 28, 31 não perca a próxima ópera, "Salomé" de Richard Strauss, na Sala Wilfrid-Pelletier da Place des Arts.

Saiba mais em:

http://www.operademontreal.com/en/atelier_lyrique/the-consul.html

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