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rss  Vol. XV - Nº 238         Montreal, QC, Canadá - domingo, 05 de Abril de 2020
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Vasco Araújo:

Fascina-me a condição humana

Inês Faro

Entrevista de Inês Faro

Foi há dez anos que Vasco Araújo, 36 anos, expôs pela primeira vez na Galeria Filomena Soares, em Lisboa. Seguiram-se Barcelona, as bienais de Sidney e Veneza, residências artísticas em Houston, Paris e Filadélfia, uma exposição individual em Serralves e o Prémio EDP Novos Artistas, entre outros.

 

vasco araujo

A internacionalização do artista plástico deu mais um passo com a sua estreia no Canadá, no passado fim de semana, dia 30, no Museu de Arte de Joliette, a 40 minutos de Montreal.

"Avec les Voix de l'Autre", o nome da exposição, é o conjunto de quatro vídeos "The Girl of the Golden West" (2004), "O Jardim" (2005), "About Being Different" (2007) e "O Percurso" (2009). Une-os a vontade do artista de "dar voz a quem não a tem".

LusoPresse (LP) - A voz está, de forma mais ou menos óbvia, sempre presente nas tuas obras. O que é que te fascina na exploração da Voz?

Vasco Araújo (VA) - Há uma questão prática que tem que ver com o facto de eu gostar de exercitar a minha própria voz. A voz é a nossa identidade. Fisiologicamente percebemos como temos voz, mas simbolicamente é uma coisa que vem da alma e que está de certa forma em contacto com o inconsciente. Além disso, a voz, contrariamente ao resto do nosso corpo, não pode ser alterada. O cabelo pode cair, mudar de cor, podemos fazer operações plásticas, usar lentes de contacto, mas a voz não pode ser modificada. É ela que nos define.

LP - Outro elemento constante no teu percurso tem sido a exploração da cultura erudita como ponto de partida para falar da contemporaneidade. Porquê?

VA - Há qualquer coisa nas referências das mitologias gregas e na cultura erudita em geral que possibilita uma espécie de patamar de universalidade. Ao longo do tempo, as histórias são iguais, os temas e os assuntos que perturbavam o ser humano no passado são os mesmo de agora. No vídeo "O Jardim", ouvimos excertos de Homero, da Ilíada e da Odisseia. Ao ouvirmos aquilo questionamo-nos "será que pertenço àquele universo? Quem sou eu perante isto?". E isso só é possível se houver uma espécie de universalidade de conceitos, que a cultura erudita já legitimou.

LP - A procura de conceitos universais é uma forma de garantir a intemporalidade dos teus trabalhos?

VA - Não sei se é completamente consciente, sei que é necessário. Prefiro não ter dados específicos. Por exemplo, não posso falar do que é um iPad, não me dá qualquer garantia, enquanto falar do amor ou da morte não se desatualiza. Sim, é de certa forma uma maneira de lutar contra o tempo.

LP - Podemos falar de uma oposição "Cultura erudita - intemporalidade" vs "contemporaneidade - efémero"?

VA - Não sei. Preocupa-me o ser humano, não é diferente agora, não é porque temos mais tecnologias que somos diferentes. As grandes questões - amor, vida, morte - são universais e por isso intemporais. O que eu estou é à procura de perguntas, cada peça é uma pergunta, várias perguntas que podem sugerir diferentes coisas. Fascina-me a condição humana.

LP - Que balanço fazes dos 10 anos de carreira?

VA - Maravilhoso! Não era possível fazer muito mais. Quero continuar a fazer o mesmo, adoro trabalhar. E quanto ao futuro, depende das circunstâncias. As coisas mais importantes da minha carreira surgiram quando menos esperava.

LP - Como tem sido a reação do público?

VA - Os feedbacks mais maravilhosos são do público em geral, dizem coisas maravilhosas, que vêm mesmo da alma. Mas claro saber que o Robert Storr, um teórico de arte americano, elegeu uma peça minha como uma das 10 melhores coisas que viu no ano, sabe muito bem ao ego!

Saiba mais em:

www.vascoaraujo.org

www.museejoliette.org

O tempo no resto do mundo

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Carlos de Jesus
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