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rss  Vol. XV - Nº 238         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2020
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Palavras e ideias

Duarte M. Miranda

Por Duarte M. Miranda

Especial para o LusoPresse

Tenho o hábito de andar sempre com um caderno de notas no bolso. Sem dúvida uma prática adquirida há vários anos, quando, por deformação profissional, sentia-me regularmente obrigado a tomar nota de dados, de projetos, de ideias, etc., que eu considerava importantes no quadro de minhas funções e obrigações profissionais, e que não queria esquecer. Hoje em dia sirvo-me também, frequentemente, deste meu caderninho, que me acompanha sempre, para anotar factos, notícias ou situações que eu julgo suficientemente interessantes e importantes para que façam parte de algumas das crónicas que eu escrevo ocasionalmente, particularmente para o LusoPresse. Como esses apontamentos são sempre de minha iniciativa pessoal, e nunca o resultado de alguma "encomenda" ou sugestão, esta prática, além de explicar a lógica por detrás de algumas de minhas crónicas, é-me geralmente muito útil, mas coloca-me também, ocasionalmente, diante dum certo dilema: a lista de "lembretes" acumulados é tão extensa que me obriga a ter que fazer escolhas por vezes penosas. Afinal, não posso abusar da paciência daqueles que me acolhem nas páginas dos seus jornais... Sobretudo porque sei as dores de cabeça que o tamanho dos meus textos chega a dar ao Carlos de Jesus e ao Norberto Aguiar. Espero só que os leitores encontrem algum interesse nos assuntos e nas matérias que eu lhes venho propondo, mesmo que, ocasionalmente, possam parecer temporalmente desfasados...

As realidades portuguesas

Em Roma, o anúncio da eleição dum novo Papa é sempre acompanhado de fumaça branca e da proclamação "Habiamo Papa!" Em Portugal, mesmo se a fumaça era mais para tapar olhos, acabou de proclamar-se, há poucos dias, o "Habiamo Presidente!" Finalmente, sem grandes surpresas, o Professor Cavaco Silva foi reeleito Presidente da República. Francamente, a competição que o Professor enfrentava, mesmo se em números - cinco - podia ter apontado para uma batalha "feroz", acabou sendo tépida, vistas as fracas qualificações e a falta de credibilidade política dos outros concorrentes. Como me disseram algumas das pessoas que votaram, afinal o professor eleito "não era aquilo que precisávamos, mas era o menos mau dos seis..." Eu tive a oportunidade de acompanhar boa parte da campanha eleitoral e o desfecho da eleição. Patético!

Ninguém tem razão para orgulhar-se: certamente que os derrotados, não têm; mas não têm também os Portugueses, nem os 46.63% que exerceram o seu direito de voto, nem os 53.37% que preferiram exprimir-se com um "Que se lixem as eleições presidenciais!"...; e nem o próprio professor eleito tinha razão alguma para toda a exaltação que encenou com o seu "Esta foi a vitória da verdade sobre a calúnia". Mesquinho, e nada magnânimo como era seu dever de o ser. Sem dúvida típico do caráter lusitano: somos, digo bem, somos, por cultura, capazes de muita mesquinhez, individual e coletivamente. Não sei se eu estou incluído nos tais 53.37% que preferiram esquivar-se ao exercício democrático a que tiveram o privilégio de ser convocados, mas, francamente, eu achei que estava demasiadamente afastado da realidade quotidiana portuguesa para intrometer-me com o meu voto à distância, e influenciar de qualquer maneira que fosse a escolha e as opções dos meus concidadãos, irmãos Portugueses que sentem na pele o dia a dia da incerteza e do sofrimento que hoje afligem Portugal. Estou arrependido! Afinal, havia tantas cadeiras vazias (53.37% delas) que se eu tivesse exercido o direito de voto que me é, hoje em dia, conferido pela Constituição Portuguesa, quem sabe eu tivesse ajudado a forçar os atores presidenciais a melhor desempenhar seus papéis respetivos. Fica para uma próxima, prometo, a não ser que a Constituição da República Portuguesa venha a mudar e a retirar-me este privilégio que hoje me confere.

Mas voltemos a algumas das impressões que estas eleições presidenciais me deixaram. Referi-me aqui ao que me pareceu ser a falta de magnanimidade por parte do Presidente eleito, mas devo acrescentar que nenhum dos demais candidatos demonstrou-se mais magnânimo do que qualquer dos outros. Era de esperar, no entanto, levando em conta, de um lado toda a gravidade da situação socioeconómica que o país vem sofrendo, e do outro a (dececionante) desistência duma maioria de Portugueses de exercer o seu direito de voto, que o Presidente tivesse optado pela humildade pessoal e pela ponderação capaz de mobilizar todos os seus concidadãos. Dizem alguns especialistas que os poderes reais do Presidente da República de Portugal são limitados. Na realidade, não lhe incumbe governar o país. Isso cabe ao primeiro-ministro e seu ministério. O facto do Presidente eleito ter dado a entender durante o seu discurso que iria atrelar-se para resolver os problemas de Portugal, particularmente em relação à dívida estatal e às exportações, não foi nada mais, nada menos do que uma tentativa em dar-se um papel que não é o seu. Ele teria ganho maior respeito e admiração dos Portugueses se tivesse (mais) claramente declarado o seu compromisso em colaborar com o Governo para ajudar na busca de soluções nesse sentido. O tom do discurso e a atitude um pouco beligerante do Presidente eleito, do meu ponto de vista, auguram mal para o país. "Valha-nos Nossa Senhora de Fátima!"

O "Brasiu"

Já há algum tempo que eu estou querendo compartilhar algumas de minhas impressões sobre o grande país que é o Brasil. Sem dúvida devido ao imenso privilégio que eu tive de lá viver com minha família e de lá exercer a minha profissão de banqueiro durante alguns anos, em duas épocas diferentes, eu hoje considero-me um pouco "Brasileiro de coração", e tenho uma enorme admiração e confiança na capacidade daquele grande povo-irmão. Logo após a minha chegada a São Paulo em 1982, para o que seria a minha primeira permanência no país, durante três anos, eu reconheci a enorme capacidade criativa do povo brasileiro. Recordo-me dos relatórios que, na época, eu enviava para a sede do Royal Bank/Banque Royale aqui no Canadá, defendendo essa opinião. Hoje sou um dos mais convictos "Basilianistas". Sempre acreditei que o Brasil viria a ser uma das grandes potências mundiais, particularmente em termos económicos e políticos. Raríssimos eram aqueles, entre os meus colegas e patrões, durante todos os anos em que tive responsabilidades profissionais envolvendo o Brasil, que estavam de acordo com minhas posições e que gostavam de ler os meus relatórios ou de me ouvir defender a tese de que o país tinha um enorme potencial e de que viria gradualmente a ocupar um dos espaços mais respeitados entre as nações. E aí estão eles, os Brasileiros, criando enormes oportunidades para si e para o resto do mundo. E, dando lições aos céticos que não acreditavam no país, entre eles muitos dos tais meus ex-colegas e ex-patrões na banca. Afinal, não se podia fechar os olhos eternamente aos enormes recursos naturais de que o "País abençoado por Deus" dispõe, nem à imensa criatividade do seu povo.

A recente eleição seguida da tomada de posse da Presidente eleita Dilma Rousseff é um exemplo da magnanimidade de que é capaz o povo brasileiro. Isso, na verdade, os brasileiros já o tinha demonstrado quando elegeram o ex-operário e ex-sindicalista Lula da Silva para dirigir o país durante dois mandatos. Se a falta de fôlego dos democratas tradicionais, bem-educados e diplomados foi o que, de certa forma, convenceu o povo brasileiro a apostar em Lula, basta ver tudo o que ele realizou nos oito anos durante os quais ele governou o Brasil para reconhecer que, afinal, o homem trazia e carrega em si as fibras que distinguem os grandes dos medíocres. Verdade que o Presidente Lula tinha sucedido ao Presidente Fernando Henrique Cardoso, outro grande Brasileiro que tinha propulsado o Brasil para a modernidade, particularmente económica, mas ele, o Presidente Lula, fez prova de uma grande lucidez e sensatez, ao preservar o legado recebido de seu antecessor, e construindo em cima dele. Quanto à Presidente Dilma Rousseff, creio que sua tarefa será mais complicada, e que ela vai ter de enfrentar novos riscos e novos desafios, mas acredito que, não obstante essas novas dificuldades, ela vai conseguir manter o progresso conquistado pelo seu país e criar novas oportunidades para o seu povo. Sou daqueles que acreditam que o mundo será um melhor lugar para vivermos a partir do momento em que um maior número de mulheres, altamente qualificadas, ocupe muitos mais lugares de liderança e de decisão na governança mundial. Nós os homens, verdade que temos estado à frente de muitas das descobertas e inovações que, ao longo dos últimos séculos, permitiram grandes avanços à Humanidade inteira. Por outro lado, como podemos constatar cada vez mais quase que diariamente, causamos também tantos estragos no ambiente que nos rodeia, e somos a causa de tanta discórdia entre os povos. Estamos deixando àqueles que nos seguirão um mundo cheio de crateras, de feridas e de discórdia. A Presidente Rousseff faz, sem dúvida, parte desse grupo de mulheres que cada vez mais vamos ver jogando um papel importante nas nossas vidas. Voltarei ao assunto do Brasil e à questão da liderança feminina noutra oportunidade.

Mondo Folle

Parecem-me preocupantes, talvez mesmo um pouco assustadores, os acontecimentos que vimos presenciando nas últimas semanas em algumas regiões do mundo, e mais particularmente em países árabes como a Tunísia, o Egipto, o Iémen e, até mesmo, em Marrocos e na Argélia, todos países até agora dirigidos por "mãos de ferro". Quem diria que o sacrifício pessoal, a imolação de um jovem agricultor tunisino desempregado iria ter tais consequências? O que vai acontecer em seguida, além das mudanças de regime que estão acontecendo na Tunísia e, sem dúvida, no Egipto? Será que os islamistas radicais, os duros e puros, vão ocupar os lugares abandonados pelos governantes atuais, expulsos pela força das mobilizações populares? A crise pode espalhar-se, sem dúvida, a outros países, tais o Líbano e a Síria, por exemplo, e, quem sabe, até mesmo a um país vizinho na Europa, a Turquia. Basta ver a efervescência que cada dia está a instalar-se mais firmemente na população de Istambul. Lembremo-nos do que aconteceu no Irão, quando a população levantou-se contra o regime, o que abriu as portas à liderança do aiatola Khomeini e sua Revolução Islâmica a partir de 1979; as consequências aí estão hoje num regime que alguns acusam de tirania e de diabolismo, e que pouco faz para promover a paz e a tolerância. Fiquemos atentos, o mundo está passando por novas e enormes transformações que poderão transformar nossas vidas...

"Em política, se você quer um pronunciamento, peça a um homem. Se você quer que alguma coisa seja realizada, peça a uma mulher." - Margaret Thatcher, ex-primeira-ministra britânica

* Conselheiro para a internacionalização da economia portuguesa no Canadá.

O tempo no resto do mundo

Acordo Ortográfico

Apesar das resistências encontradas na imprensa portuguesa em geral, o LusoPresse decidiu adoptar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa pelas razões que já tivemos a oportunidade  de referir noutro local.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.
 
Carlos de Jesus
Diretor

 
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