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rss  Vol. XV - Nº 238         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2020
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Editorial

A Perestroika árabe?

Por Carlos de Jesus

Uma incógnita com que se depara qualquer observador ocidental do mundo árabe é a de saber como é que o Islamismo se vai adaptar a este mundo da aldeia global e instantânea. O que se passa na Tunísia e agora, mais intensamente, no Egito, dá para refletir. Até aqui, a única resposta dos regimes dirigentes - com exceção da Indonésia pós Suharto - tem sido o autoritarismo, para não dizer o despotismo e a ditadura. Do reinado da família Saudita ao rei de Marrocos, passando pelas repúblicas (hereditárias?) da Argélia, da Tunísia, da Líbia, do Egito, do Paquistão, do Afeganistão, do Iraque pré Bush, do Irão - pré e pós Khomeini - e quejandos, praticamente todos os regimes políticos do mundo muçulmano são dirigidos por mãos de ferro, sem alternância do poder, com a comunicação social - incluindo a Internet - controlada e censurada. Uns, em nome da modernidade, para fazerem frente ao Islamismo radical dos Irmãos Muçulmanos ou da Al-Qaeda, outros em nome do Profeta para fazerem frente aos costumes decadentes do Ocidente. Mas todos eles com um enorme défice de justiça, tanto no campo da educação, da saúde ou do trabalho. As diferenças entre as classes populares e as classes dirigentes são abissais. As diferenças entre homens e mulheres, independentemente da classe social, são-no porventura ainda mais. Mas acima de tudo, o alfobre da resistência, o germe da contestação que representa os milhares de jovens desempregados, com o futuro bloqueado, muitos com diplomas escolares, para quem as novas tecnologias não têm segredos.

 

revolta no mundo arabe

Os exemplos da Tunísia e agora do Egito, onde nenhuma força política ou religiosa parece liderar a contestação, levam a crer que o despoletar da crise se ficou a dever à instantaneidade das mensagens texto dos telemóveis e das redes sociais como Facebook ou Twitter. Bastou um facto, porventura anódino num mundo extremamente violento, como o da auto imolação de Mohamed Bouazizi, um vendedor ambulante, revoltado contra a prepotência da polícia e do regime, para desencadear esta onda de contestação cívica contra o abuso do poder do ex-presidente Ben Ali, agora refugiado na Arábia Saudita.

A ousadia da rua tunisina alastrou-se ao Cairo e a todo o Egito. O clamor dos manifestantes tem vindo a desafiar a autoridade do governo do velho Hosni Mubarak, indo ao ponto de ignorar o decreto de "recolher obrigatório" a partir das 15 horas. E, tal como um rasto de pólvora, o exemplo parece vir a inflamar toda a vizinhança árabe.

Num mundo global, mesmo os analfabetos sabem, com as suas antenas parabólicas, o que se passa no planeta, não só na casa do vizinho, mas nos mais recônditos lugares da Terra. Um exemplo flagrante que se veio a impor aos telespetadores do mundo muçulmano, em particular, foi a reportagem em direto, durante dias e dias, no ano passado, da operação de salvamento dos mineiros chilenos. A rua árabe viu-se assim confrontada à diferença de tratamento que merece, no mundo ocidental, o resgate das vidas de algumas dezenas de mineiros com a incúria, os maus tratos e as injustiças mais flagrantes que são o pão diário do mundo muçulmano. Esta diferença de tratamento, assim como a de milhares doutros exemplos que a televisão, a Internet e as redes sociais despejam a toda a hora nas ruas de Rabat, Argel, Tripoli, Cairo, Tunis ou Dubai, não vão ficar impunes.

Tudo parece apostado para que o mundo muçulmano, a começar pelo mundo árabe, se dirija para a sua própria Perestroika. Não pela mão dum Gorbachev que recita as suas cinco orações diárias em direção da Meca, mas pelo clamor da rua, empunhando telemóveis, fotografando e twittando em direto.

Neste contexto, e tendo em vista o exemplo do Irão - em que os zelosos seguidores de Khomeini se substituíram às forças da polícia secreta do último Xá, Mohammad Reza Pahlavi, os quais acabaram por liquidar a Revolução Verde nascida da burla das últimas eleições presidenciais, em Junho de 2009 - parece ser legítimo acreditar-se que estes movimentos das massas revoltadas contra a prepotência dos regimes em vigor, não se deixarão impor novos ditadores, seja em nome de Alá ou de qualquer outra ideologia totalitária.

Quer isto dizer que Al-Qaeda ou os Irmãos Muçulmanos - extremamente ativos no Egito - vão baixar os braços e deixar as massas escolherem novos líderes fora das suas zonas de influência respetivas? Claro que não. Mas para tal vão ter que agitar ainda mais a bandeira do seu ódio pelo Ocidente e por Israel, acusando um e outro de serem a causa de todas as misérias do mundo muçulmano. Mas quem os vai acreditar quando já se aponta, nas esferas da inteligentzia árabe para os malefícios da ação dos militantes radicais islamitas que, só por eles, já fizeram mais vítimas entre as populações civis do próprio mundo muçulmano que os invasores (ocidentais) do Iraque ou do Afeganistão?

Graças à Internet, aos SMS, às redes sociais e também à televisão por satélite - como Al-Jazeera - o mundo islâmico não parece ser tão cego como alguns acreditam.

Mas só o futuro o dirá!

O tempo no resto do mundo

Acordo Ortográfico

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Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.
 
Carlos de Jesus
Diretor

 
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