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rss  Vol. XV - Nº 237         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 01 de Março de 2021
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Palavras e ideias

Duarte M. Miranda

Por Duarte M. Miranda*

Especial para o LusoPresse

Bom Ano! Sim, sim, muito sinceramente, "Bom Ano" a todos os amigos e leitores desta crónica, através da qual o jornal LusoPresse me abre, ocasionalmente, as suas páginas. Em outros tempos, não tão longínquos, era de praxe, pelo menos no meu cantinho de Portugal, nos Açores, acrescentar, entre outros, desejos de "Paz, Felicidade, Saúde e... Dinheiro" nos votos de Ano Novo. Segundo se pode constatar hoje em dia, como foi o meu caso nesta minha última estadia em Portugal, onde minha esposa e eu decidimos celebrar a passagem de 2010 para 2011, as pessoas são muito mais práticas e sucintas, contentando-se do "Bom Ano". Sem dúvida que, ao ver de muitos, essa saudação, mesmo que mais curta, engloba todos os demais votos. Assim seja, mas de qualquer forma eu acrescento os meus mais sinceros votos de "Paz, Felicidade, Saúde e... Dinheiro" aos amigos e leitores desta crónica.

Retrospectiva

Terminamos o ano 2010 analisando e reflectindo sobre várias das situações que vêm afectando nossas vidas de maneira importante. Um processo que, forçosamente, nos levou aos corredores e às passarelas da política nacional, provincial e local, assim como internacional. Temos sido tão violentamente afectados pelos males socioeconómicos dos últimos recentes anos, que não podemos escapar ao desejo e à ansiedade de ir ver onde grande parte desses males formou raízes: nas oficinas de muitos dos dirigentes e actores políticos que escolhemos e elegemos.

Sentimos directamente no bolso e através dum certo pioramento da nossa qualidade de vida os efeitos das más gestões e dos abusos que, pouco a pouco, nos privaram de direitos, benefícios e outros privilégios que tínhamos alcançado ao longo de anos - quiçá de décadas - de trabalho, de sacrifício e, para muitos, mesmo de luta. Devo no entanto acrescentar que geralmente, nesse nosso processo de "ir ver", esquecemo-nos frequentemente de constatar e tentar compreender a parte de responsabilidade que cai sobre os grandes "cidadãos corporativos", as grandes empresas, e seus dirigentes que também carregam montes de culpas no que diz respeito a muito daquilo que perdemos. Basta pensar no papel da banca internacional que resultou em prejuízos enormes e incalculáveis, tanto para nós individualmente como colectivamente; não sei se há um único grande banco que possa esquivar-se e proclamar-se limpo e livre de qualquer erro e "aventura". Creio que não! Mas não é só a banca, são também as grandes empresas em todas as outras áreas que afectam o nosso dia a dia: telecomunicações, transportes, alimentação, serviços, etc... Todas acharam o caminho que leva ao fundo dos nossos bolsos, e todas descobrem, quase que quotidianamente, o quão dóceis somos como consumidores, e que por isso podem cada vez mais privar-nos do serviço e da atenção aos quais estamos habituados e, sobretudo, a que temos direito. Esses tais "cidadãos corporativos", de forma quase que geral, já não merecem mais nossa estima nem a nossa admiração de forma tão cega nem com a mesma deferência que no passado.

Incertezas em terras canadianas

Aqui no Canadá, incluindo o Quebeque, continuamos diante de uma grande febrilidade política. Afinal, o primeiro-ministro Charest vai ou não vai demitir-se, e entregar o boneco quebrado a outra pessoa que possa talvez colar os cacos a ponto de convencer os eleitores de que, afinal, o Partido Liberal do Quebeque, continua sendo a melhor opção para governar a província? Duvido! Mesmo se estou convencido de que o melhor que ele pudesse fazer, sobretudo para ajudar o seu partido, seria tomar a decisão de esquivar-se, tenho quase a certeza de que o senhor Charest vai apostar que consegue ganhar a próxima eleição contra um "Parti Québécois" dirigido pela mal-amada senhora Pauline Marois. Só depois de um tal plebiscito, que ganhe ou que perca, é que ele abrirá alas para um sucessor. Isto dito, no entanto, acredito que uma eventual entrada (direitista) do grupo liderado por François Legault venha mudar as coisas, e que um tal novo acontecimento, esse sim, venha motivar o primeiro-ministro a fazer as malas para uma mudança de residência precipitada. A não ser que apareçam algumas surpresas mais por aí que coloquem em dúvida a direitura de qualquer ala do governo...

A nível federal, mesmo se tenho íntimas afinidades com uma certa ala do Partido Liberal do Canadá, acredito que o primeiro-ministro Stephen Harper tenha as melhores cartas na mão, que lhe garantirão uma reeleição, mesmo se, novamente com um governo minoritário. Vai faltando tempo ao PLC para se reorganizar e apresentar à população uma liderança que condiga com a sua plataforma, portanto mais próxima das preferências e dos valores de muitos Canadianas e Canadianos. O sumiço do Partido Liberal do Canadá no purgatório por onde tem andado, parece-me, poderá ser mais longo do que esperado. Do meu ponto de vista, isso seria de mau auguro para o Canadá e seus cidadãos. Enfim, veremos!

A subida das forças conservadoras

O mundo vem atravessando uma era de "ras le bol!" (basta!) por parte de sectores da sociedade, em vários países democráticos. Estamos assistindo à subida da direita política em vários países, e é óbvio que a tendência vai perdurar e espalhar-se. Quem diria que, na França, a senhora Marine Le Pen, filha do ultra direitista Jean-Marie Le Pen, que ela acaba de substituir como líder do "Front nacional", viria a ocupar tanto espaço político quanto aquele que claramente lhe está sendo atribuído. Se o seu pai era até agora considerado como um pentelho no processo político francês, a senhora Marine Le Pena, ela, acaba de elevar o seu partido ao ranking de "fouteur de trouble" no processo político. Claro que eu poderia ter usado da situação bem mais nossa vizinha relativa aos Estados Unidos, e a subida da ideologia do seu "Tea Party", para tentar descrever o que eu creio ser um movimento importante que se está desenvolvendo: a entrada de forma importante e credível de vagas conservadoras e direitistas em países e sociedades até agora considerados mais socialistas, social-democratas, e certamente mais tolerantes e acolhedores. Mas não nos esqueçamos de que nos Estados Unidos, o Partido Republicano, parente próximo do "Tea Party", sempre alternou no poder com os seus rivais Democratas. A questão, portanto, que me sobra é a seguinte: estamos nós no Canadá, a qualquer nível que seja de governo, isentos de uma investida de forças conservadoras de direita, puras e duras, e às quais não estamos habituados? E, se isso será o caso, serão as consequências benéficas ou prejudicais tanto a nível individual como colectivo? Já, já vamos saber!...

E Portugal?

Não posso deixar de compartilhar com os leitores as minhas impressões sobre a situação política e socioeconómica portuguesa, incluindo sobre a presente campanha presidencial. Afinal passei as últimas três semanas em Portugal. Continuo preocupado, desiludido com aquilo que venho constatando. Os políticos estão nervosos e mesmo histéricos, a ponto de prejudicarem as tentativas do governo para controlar a situação e limitar os desgastes e estragos. Tenho muitas críticas em relação ao primeiro-ministro Sócrates e ao seu governo, mas estou consciente de que é importante que deixem o governo agir e administrar a coisa pública dentro dum clima de serenidade. O povo português, a começar pela gente política, deve mobilizar-se atrás dos seus dirigentes políticos eleitos que lá estão. A falta dessa mobilização é tristemente óbvia no dia a dia. Os cidadãos, em grandes números, não parecem estar conscientes do tamanho do abismo que se encontra a apenas alguns centímetros dos seus pés, enquanto lhes falta ao menos uma figura de estadista capaz de levá-los à razão. Até mesmo os candidatos à Presidência da República, incluindo o actual Presidente, Professor Cavaco Silva, fazem jogo sujo, o que eu considero repugnante nas condições actuais, e nada fazem para mobilizar os cidadãos para uma causa justa e patriótica. Deixem o primeiro-ministro Sócrates e seu ministro das Finanças, Senhor Teixeira dos Santos levar a cabo o projecto do governo, isentos do jogo político sujo e irónico que constatamos. Não tenhamos dúvida: os outros países da UE, o Banco Central Europeu e os próprios mercados internacionais darão murros na mesa quando notarem que os dirigentes portugueses estão saindo do eixo! Creio que foi numa de minhas crónicas em Novembro passado que me referi ao facto que Nossa Senhora de Fátima hoje em dia teria dito aos Pastorinhos "Pobre Portugal" perante a desolação que assola Portugal. Mais recentemente, em sua edição de 10 de Janeiro 2011, o diário português "Económico" publicava uma matéria atribuindo a frase "Chegou a altura de invocar a Nossa Senhora de Fátima" ao senhor Jacinto Nunes, economista e ex-ministro das Finanças. Como ele está muito mais perto do que eu da realidade vivida pelo governo português, acredito que minha alusão à Nossa Senhora de Fátima tenha um certo fundamento, e, até mesmo, um fundamento certo. Triste!

"Uma coisa lançou profundas raízes em mim: a convicção de que a moral é o fundamento das coisas, e a verdade, a substância de qualquer moral. A verdade tornou-se meu único objetivo. Ganhou importância a cada dia. E também a minha definição dela se foi constantemente ampliando...

A minha preocupação não está em ser coerente com as minhas afirmações anteriores sobre determinado problema, mas em ser coerente com a verdade."

Mahatma Gandhi

* Conselheiro para a internacionalização da economia portuguesa no Canadá

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