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rss  Vol. XV - Nº 235         Montreal, QC, Canadá - sábado, 04 de Abril de 2020
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Editorial

Que futuro para Jean Charest?

Por Carlos de Jesus

 

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«À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta». Jean Charest, primeiro-ministro do Quebeque, não parece ter ainda compreendido esta máxima, velha como a nossa civilização. A sua recusa em nomear uma comissão de inquérito sobre a corrupção no meio da construção, dos sindicatos e do financiamento político acaba por lhe custar a eleição parcelar em Kamouraska.

Em política, a perceção é a realidade. O primeiro-ministro bem pode nomear todas as esquadras de polícia e de investigadores especializados para meter em prisão todos os corruptos. Pode mesmo criar uma unidade anticorrupção permanente como a que existe no Estado de Nova Iorque, tal como anunciou agora, no rescaldo da sua derrota política. Pode explicar ad nauseam que o mais importante é prender os culpados em vez de lançar comissões dispendiosas de advogados, juízes, procuradores e inquiridores a vasculhar a vida de gente, por vezes inocente, durante anos, sem resultados duráveis, como aconteceu com outras comissões anteriores. A argumentação do Partido Liberal e do seu líder são racionais, mas não convencem.

Em política o que parece é. E o que parece, no atual estado de coisas, é que o primeiro-ministro Jean Charest parece querer esconder qualquer coisa. Disso estão certos mais de 80 por cento da população segundo as últimas sondagens vindas a público.

Jean Charest nunca foi um político popular no Quebeque. Principalmente porque foi a ala liberal, que em desespero de causa, o foi buscar à política federal conservadora. Veio para a política quebequense quase que forçado. Quiseram transformar um conservador num liberal, um federalista num provincialista. Não teve outra alternativa. Recusar a liderança do Partido Liberal do Quebeque, na altura, equivalia a entregar a província às forcas nacionalistas. Facto que os nacionalistas nunca lhe perdoaram, ao ponto de o quererem mostrar perante a opinião pública como um agente do exterior. Como um não quebequense. Filho de mãe irlandesa, houve quem fosse desenterrar o seu registo de batismo católico onde figura o nome de John Charest, embora no registo civil esteja como Jean Charest, e foi com o seu nome francês que ele cresceu, se educou e fez toda a sua carreira política, tanto no Canadá como no Quebeque.

Mas os nacionalistas têm estas habilidades de levarem o combate político para a arena das intenções onde só os quebequenses pure laine têm direito de legitimidade. O caso de Paul Martin é também um outro exemplo das argumentações subliminais de que são especialistas os militantes do PQ. Embora oriundo de velhas famílias canadianas francesas do Ontário, e tenha feito a sua carreira em Montreal, muitos nacionalistas, para o fazerem sentir-se um vendido aos ingleses, dão-lhe o nome de Martin pronunciado à inglesa.

Charest sempre teve este calcanhar de Aquiles, o de alguém que veio de fora. Razão ainda mais forte para que se rodeasse de toda a cautela para que não seja só honesto mas também que o pareça. Ora, o salário que lhe paga o Partido, embora todo legalista que seja, vem-lhe enfraquecer a fibra moral para se pôr acima de toda a suspeição. Não o fez e agora tudo vem à baila. São argumentos que servem para alimentar a antipatia popular, alimentada em grande parte não só pela oposição política mas sobretudo pela clique jornalística independentista que predomina em todos os órgãos de informação.

Esta é a realidade. A lógica de Jean Charest não convence. A perceção diz o contrário do que ele defende. Daí que mesmo os editorialistas mais confessadamente federalistas, como André Pratte do jornal La Presse, de Montreal, tenha também vindo a lume ultimamente a defender a criação de uma comissão pública de inquérito sobre a corrupção.

Estes apelos, mesmo do seu próprio campo, deviam ser entendidos o mais urgentemente pelo primeiro-ministro. Jean Charest disse na Assembleia Nacional que ouve o povo. Mas talvez que o mais importante não seja só ouvir como escutar. Ouvir o clamor não é o suficiente. É preciso escutar o que ele representa. E neste momento, como todas as sondagens o repetem, e as eleições o confirmam, o primeiro-ministro Charest não beneficia de nenhuma simpatia fora do partido. Antes pelo contrário, o que só vem minar todas as suas iniciativas, mesmo as mais válidas, pondo assim a província num estado de crispação permanente, que se vai traduzir numa inércia prejudicial para todos.

Nos próximos dois anos que restam para terminar o mandato, algo tem que se passar. Senão é a entrega do poder aos pequistas e a eterna questão de outro referendo sobre a independência do Quebeque que nos vai lançar noutra polémica ainda mais prejudicial para o progresso económico do Quebeque do que o atual debate sobre o financiamento dos partidos políticos.

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Carlos de Jesus
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