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rss  Vol. XV - Nº 235         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 06 de Julho de 2020
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O Dacarense-Gaspesiano Boucar Diouf...

Faz a radiografia dos Quebequenses no L'Africassé-e

Jules Nadeau

Se quer desopilar o fígado durante um bom bocado, aconselho-vos a passar um serão na companhia de Boucar Diouf. O biologista-humorista-fantasista. Fizemos a experiência - cinco pessoas - e podemos dizer: divertimento garantido!

 

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Vimo-lo no Cabaré-Teatro do Vieux-St-Jean, sala convivial do ex-Centro Católico, rua Laurier. O género de sala que aprecia este artista para um contacto mais próximo com o público. Pessoalmente, tinha escolhido St-Jean-sur-Richelieu porque foi aí que nasci, e queria levar lá o chefe de redação do LusoPresse com a esposa. Foi também a ocasião de re-encontrar Louise e Claude Bissonnette, o meu amigo mais antigo, meu vizinho na rua Notre-Dame e meu chefe de patrulha dos escuteiros. Resumindo, uma amostra variada de espectadores. Pudemos ocupar os nossos lugares a tempo para as 20h graças à amabilidade e a rapidez do pessoal do restaurante L'Imprévu - a uns passos dali na rua Laurier.

Sabedoria do meu avô

Como definir este homem e o seu humor? Ele oferece-nos um espetáculo único extraído das suas raízes africanas profundas. Apesar do doutoramento em biologia com especialidade oceanográfica da Universidade do Quebeque, ele guarda em si toda a sabedoria do seu pai octogenário e do seu avô. Boucar Diouf é o sexto duma família de nove filhos: seis rapazes e três raparigas. Uma sabedoria composta de tradição oral, de verdades terra-a-terra e de bom senso. Um Africano do oeste orgulhoso de partilhar os seus valores com a sociedade de acolhimento. Com mensagens simples e uma lógica camponesa a toda a prova. «O meu avô dizia...»

O outro talento de Boucar Diouf é o seu incrível sentido de observação do falar quebequense, da mentalidade e dos defeitos desta sociedade. O homem de Dacar vai buscar as expressões correntes que nos são de tal maneira familiares que nem reparamos no lado cómico. Um virtuoso da língua. «Um dia aluguei um quarto com a minha namorada num hotel de gama baixa em Montreal, o empregado perguntou-nos se alugávamos o quarto por um bocadinho». Risota geral!

Outra qualidade que nos faz amarmos o humorista é a sua grande simplicidade. «Eis agora a conferência de imprensa», diz ele depois do último aplauso. Senta-se num banco e convida-nos a interrogá-lo sobre um assunto qualquer. Se as respostas são menos cómicas é porque ele mergulha na sua vida privada, nas suas convicções e anedotas pessoais. Ainda é mais interessante! É assim que o doutor em biologia nos confirma que o pai, Amath Diouf, é um agricultor que cultiva amendoins e é analfabeto, e ele nos revela um segredo: «Ele não sabe que eu faço humor num palco!»

Professor em Rimouski

Os números de humor do ex-professor de Rimouski (durante oito anos) relatam a vivência dum jovem africano desejando integrar-se rapidamente numa sociedade branca pouco habituada a diferenças interculturais. Boucar vai até a casar-se com uma jovem da região, Caroline Roy. Do fruto dos seus amores nasce um garoto chamado Anthony. Caroline aparece então em cena para cantar e tocar guitarra. Combinação feliz! E há alguma coisa mais universal que as histórias de casal?

O humor étnico pode facilmente cair nos clichés e na facilidade. Nada mais simples do que fazer anedotas sobre os Portugueses, os Italianos ou os Haitianos. Nada disso durante o espetáculo duma hora e três quartos. Cerca das 22 horas, fomos tomar um café filtro em casa de Louise e Claude. A unanimidade estava feita entre nós sobre o humor inofensivo de Boucar. Claude vende seguros na comunidade ameríndia. O ex-professor comprou o livro de Boucar intitulado Sous l'arbre à palabres, mon grand-père disait... Este trabalho, que saiu no outono de 2007 nas edições Les Intouchables ficou mais de quinze semanas no palmarés de vendas. Ele prepara um novo livro para março de 2011 que tratará da fauna marinha do Saint-Laurent.

Recordemos que o dakarense-gaspesiano coanima com o dinâmico Francis Reddy a popular emissão Des kiwis et des hommes, todas as manhãs às 8h30 (repetição às 23h00) na Radio-Canada. Se passear de manhã cedo no Mercado Jean-Talon, pode vê-los entrevistarem os convidados no meio dos vendedores de cenouras e tomates. À imagem dos dois animadores, toda a equipa - da pesquisadora Nadine Curadeau até à maquilhadora - acolhe os convidados com muita camaradagem. Falando de boa cozinha de diversos países, esta emissão chega a abordar assuntos muito sérios.

Não é fácil contar por escrito as melhoras anedotas deste espetáculo intitulado L'Africassé-e. Por exemplo, ele denuncia o paté chinois como sendo um prato racista: «o amarelo está por cima, o branco no meio, o escuro no fundo». Também dá generosamente metade dos seus cachets de artista a uma fundação: a sua própria fundação para assegurar a sua velhice. «Treze anos passados no Bas-du-fleuve no Quebeque fizeram de mim um baobá recomposto. Entre as minhas raízes africanas e a minha folhagem quebequense ergue-se um tronco senegalês».

O amigo Boucar prossegue a sua frutuosa tournée de espetáculos em diversas localidades com um calendário que se estende até 2013. Para bem escolher a sua soirée inesquecível, consulte a página web: www.boucardiouf.com

Ler aqui a versão francesa

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