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rss  Vol. XV - Nº 235         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2020
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A traição e/é a regra

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

Ouço à exaustão o cliché O português é uma língua traiçoeira. Conto uma piada que mete trocadilho, um segundo sentido, uma ambiguidade, e o comentário logo salta, infalível, da boca de um circunstante qualquer.

Não vale argumentar que todas as línguas são traiçoeiras, possuem as suas complexidades semânticas, a sua dose de termos vagos, ambíguos e equívocos, que permitem ocorrências de humor não provocadas. Ou então são as línguas que, nas mãos de criativos humoristas, se prestam a que lhes penetrem nos labirintos e as desdobrem em situações divertidas. Obviamente que muitas delas não são traduzíveis por não haver correspondência unívoca entre o léxico de dois idiomas, quaisquer que estes sejam. É por isso que a poesia e o humor são tantas vezes um bico-de-obra intransponível para outro universo linguístico.

Assaltam-me ao teclado três estórias reais que não vou reprimir. A primeira vive só em português:

Na Angra dos anos 50, uma senhora da sociedade local precisava de tomar uma injecção diária de insulina. Contratou um conhecido enfermeiro, homem simples não habituado a frequentar casas de gente fina. Na primeira visita, a dona Eugénia conduziu-o ao quarto e estirou-se na cama de saia arregaçada e nádega à mostra à espera da pica. O sr. Eduardinho, nervoso, tenta nas costas dela preparar a seringa, mas sente necessidade de falar para descomprimir o ambiente. Dá, por sorte, com os olhos num belíssimo aparelho de rádio Philips, novidade na altura, e tenta aliviar a tensa atmosfera: Que lindo rádio a senhora tem aqui! E ela, sem se lhe enxergar o sorriso, Ah! sr. Eduardinho, e havia de ver quando eu era nova!

A seguinte é perfeitamente contável noutras línguas, mas resulta de um equívoco de tradução: o sujeito da estória foi um jovem luso-americano que só conhecia a designação inglesa de Virgo para o signo do Zodíaco "Virgem". O moço, de 16 anos na altura, estava de férias em Portugal e conversava com amigos. Ao ouvir de um deles Eu sou Virgem, achou natural acrescentar: Eu também. E a pergunta veio logo: Então também és de Setembro? O luso-americano não entendeu a dúvida e explicou com a maior ingenuidade: Não. Sou de Abril. (Não importa para o caso, mas a estória não é inventada; contou-ma a mãe do garoto.)

A terceira resulta de uma ambiguidade também traduzível sem rodeios nem explicações:

Num almoço com um businessman local, ouvi-lhe esta que jura ter acontecido com ele. Estava a fumar no passeio, à porta do banco onde trabalha. Vai a entrar uma senhora que lhe sorri:

- A fumar, hein?! Olhe que eu sei que a sua mulher não fuma!

- Pois não, fuma do meu.

E a senhora, exibindo um ar malandreco, mão na boca e fala entre dentes:

- Ah! Eu também... ih!ih!ih! E consola!

Eu aqui a falar de ambiguidades e equívocos e quase ninguém hoje liga a essas distinções obrigatórias da minha aprendizagem clássica: equívoco acontece quando um termo é usado num argumento desdobrando-se em dois sentidos. Ambíguo diz-se de uma expressão ou frase com duas interpretações possíveis.

No caso da mulher a caminho do banco, gerou-se um equívoco que, marota, pensava estar a partilhar com o gerente, embora na cabeça dele morasse a inocência.

Escrevo isto e apercebo-me da ambiguidade em que eu próprio acabo de incorrer - inconscientemente, juro! - com essa da cabeça. As línguas são de facto todas muito traiçoeiras, não apenas a nossa. E as ambiguidades e equívocos geram-se sobretudo aí, na cabeça. Onde se deveria alojar o cérebro. Escrevi "deveria" porque - segundo as más-línguas do género feminino - nos homens não será bem assim. Como Woody Allen terá confirmado quando (no filme Sleeper creio) alguém o ameaçou Olha que eu te esmago o cérebro! e ele, todo medroso: O cérebro? O meu segundo melhor órgão?!

O tempo no resto do mundo

Acordo Ortográfico

Apesar das resistências encontradas na imprensa portuguesa em geral, o LusoPresse decidiu adoptar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa pelas razões que já tivemos a oportunidade  de referir noutro local.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.
 
Carlos de Jesus
Diretor

 
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